No final do século XVI, na Bahia, Guiomar de Oliveira denunciou Antônia Nóbrega à Inquisição. Segundo o depoimento, esta lhe dava “uns pós não sabe de quê, e outros pós de osso de finado, os quais pós ela confessante deu a beber em vinho ao dito seu marido para ser seu amigo e serem bem-casados, e que todas estas coisas fez tendo-lhe dito a dita Antônia e ensinado que eram coisas diabólicas e que os diabos lha ensinaram”.
ARAÚJO, E. O teatro dos vícios. Transgressão e transigência na sociedade urbana colonial.
Brasília: UnB/José Olympio, 1997.
Do ponto de vista da Inquisição,
A) o problema dos métodos citados no trecho residia na dissimulação, que acabava por enganar o enfeitiçado.
B) o diabo era um concorrente poderoso da autoridade da Igreja e somente a justiça do fogo poderia eliminá-lo.
C) os ingredientes em decomposição das poções mágicas eram condenados porque afetavam a saúde da população.
D) as feiticeiras representavam séria ameaça à sociedade, pois eram perceptíveis suas tendências feministas.
E) os cristãos deviam preservar a instituição do casamento recorrendo exclusivamente aos ensinamentos da Igreja.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- História do Brasil Colonial
- Inquisição no Brasil (Tribunal do Santo Ofício)
- Interpretação de Fonte Histórica
Tema/Objetivo Geral: Compreender a lógica e as preocupações da Inquisição ao julgar casos de feitiçaria e práticas populares no Brasil Colônia.
Nível da Questão
Médio – A questão exige que o aluno interprete um fragmento de um documento histórico (uma denúncia) e entenda a mentalidade da instituição que o está julgando (a Inquisição). Não basta uma leitura superficial; é preciso compreender que o “crime”, para os inquisidores, não era o ato em si, mas a transgressão teológica que ele representava.
Gabarito
E) os cristãos deviam preservar a instituição do casamento recorrendo exclusivamente aos ensinamentos da Igreja. – Esta alternativa está correta porque o cerne do problema para a Inquisição era o uso de métodos “diabólicos” para interferir em um sacramento sagrado, o casamento, cuja orientação era monopólio da Igreja.
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
1.1 Transcrição Essencial
“Do ponto de vista da Inquisição, […]”
1.2 O que está sendo pedido?
A questão pede para identificarmos qual era a principal preocupação ou a lógica de condenação da Inquisição ao analisar o caso de feitiçaria descrito no texto.
1.3 Objetivo Cristalino
Nosso objetivo é “vestir a toga” de um inquisidor do século XVI e entender, com base na mentalidade religiosa da época, por que a atitude de Guiomar e Antônia era considerada um crime tão grave.
1.4 Pergunta de Atenção
Você se lembra que a Inquisição não estava preocupada com a eficácia da poção, mas sim com a origem do poder que estava sendo invocado? A questão central para eles era: essa solução vem de Deus ou do Diabo?
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
2.1 Definições e explicação de termos
Para entender o caso, precisamos dominar alguns conceitos:
- Inquisição (ou Tribunal do Santo Ofício): Era uma instituição da Igreja Católica criada para investigar, julgar e punir crimes de heresia, ou seja, qualquer crença ou prática que desviasse da doutrina oficial católica. No Brasil Colônia, a Inquisição atuava por meio de “visitações”, recebendo denúncias e levando os acusados para julgamento, geralmente em Portugal.
- Feitiçaria (do ponto de vista da Igreja): Não era vista como uma simples superstição ou crença popular. Era considerada uma prática que envolvia um pacto, direto ou indireto, com forças demoníacas. Usar ingredientes como “osso de finado” (restos mortais) era visto como um ato de profanação e necromancia, reforçando a conotação diabólica.
- Sacramento do Casamento: Na doutrina católica, o casamento não é apenas um contrato social, mas um sacramento, um rito sagrado instituído por Deus. Portanto, qualquer problema ou questão dentro do casamento deveria ser resolvido através dos meios que a Igreja oferecia: oração, confissão, aconselhamento sacerdotal, etc. Tentar “consertar” o casamento com poções era como tentar consertar um objeto sagrado com ferramentas profanas e proibidas.
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
3.1 Contextualização Simplificada
Vamos traduzir a fofoca colonial: Guiomar foi até um representante da Inquisição e contou que sua amiga, Antônia, lhe deu uma “simpatia” para fazer seu marido ser um bom esposo. A receita era sinistra, incluindo pó de osso de defunto. O ponto crucial é que a própria Antônia admitiu que a magia era “coisa do diabo”. Ou seja, Guiomar usou uma solução demoníaca para um problema dentro de uma instituição sagrada (o casamento).
3.2 Estratégia Geral
Nossa estratégia será analisar os elementos da denúncia e identificar qual deles representa a maior ameaça à autoridade da Igreja. O crime está no ingrediente? No engano do marido? Ou na usurpação do papel da Igreja como a única guia legítima para a vida matrimonial?
🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio e Análise
4.1 Passo a Passo Detalhado
Vamos decompor o “crime” aos olhos de um inquisidor:
- A Ação: Uma mulher (Guiomar) tenta resolver um problema conjugal.
- O Método: Ela usa uma poção mágica (“uns pós”).
- A Fonte do Poder: A poção não é uma reza a um santo ou uma bênção da Igreja. Pelo contrário, a própria praticante (Antônia) afirma que são “coisas diabólicas” ensinadas “pelos diabos”. Esta é a confissão central.
- O Alvo da Ação: O casamento, uma instituição sagrada e um sacramento da Igreja.
4.2 Verificação Intermediária
O problema não é que Guiomar queria um bom casamento. O problema é que, para alcançar esse fim, ela recorreu a um poder concorrente e antagônico ao de Deus: o demônio. Ela buscou uma solução fora do sistema de controle e dos ensinamentos da Igreja, o que, para a Inquisição, era uma heresia gravíssima.
4.3 Possível armadilha
A armadilha mais sutil é a alternativa B: “o diabo era um concorrente poderoso da autoridade da Igreja”. Embora isso seja verdade em um sentido geral, a alternativa E é muito mais específica e precisa para o caso descrito. O texto não fala de uma concorrência genérica; fala de uma concorrência específica no campo do matrimônio. A Inquisição se importava com onde essa concorrência acontecia, e interferir em um sacramento era uma afronta direta.
4.4 Fechamento e expectativa
O raciocínio nos mostra que a preocupação da Inquisição é teológica e jurisdicional. Eles querem manter o monopólio sobre as soluções para os problemas da vida cristã, especialmente em áreas sagradas como o casamento. Esperamos encontrar uma alternativa que reflita essa defesa da exclusividade da Igreja.
✅ Passo 5: Análise das Alternativas
5.1 Listagem das Alternativas
A) o problema residia na dissimulação, que enganava o enfeitiçado.
B) o diabo era um concorrente poderoso da autoridade da Igreja.
C) os ingredientes em decomposição afetavam a saúde da população.
D) as feiticeiras representavam ameaça, pois eram perceptíveis suas tendências feministas.
E) os cristãos deviam preservar o casamento recorrendo exclusivamente aos ensinamentos da Igreja.
5.2 Justificativa Individual
- 🔴 A) o problema dos métodos citados no trecho residia na dissimulação, que acabava por enganar o enfeitiçado. Incorreta. A preocupação da Inquisição não era moralista nesse sentido (proteger o marido de ser enganado), mas teológica. O crime era contra Deus, não contra o marido.
- 🟡 B) o diabo era um concorrente poderoso da autoridade da Igreja e somente a justiça do fogo poderia eliminá-lo. Parcialmente correta, mas incompleta. O diabo era, de fato, um concorrente. No entanto, esta alternativa é muito genérica. A alternativa E especifica em que domínio essa concorrência se manifestou no caso, tornando-a mais precisa.
- 🔴 C) os ingredientes em decomposição das poções mágicas eram condenados porque afetavam a saúde da população. Incorreta. A Inquisição não era uma agência de vigilância sanitária. O problema com o “osso de finado” era sua conexão com a morte e a necromancia, um pecado, e não um risco à saúde.
- 🔴 D) as feiticeiras representavam séria ameaça à sociedade, pois eram perceptíveis suas tendências feministas. Incorreta. É um anacronismo grosseiro. Aplicar o conceito de “feminismo” ao Brasil do século XVI para explicar a caça às bruxas é historicamente equivocado.
- 🟢 E) os cristãos deviam preservar a instituição do casamento recorrendo exclusivamente aos ensinamentos da Igreja. Correta. Esta alternativa captura a essência do crime: a violação do monopólio da Igreja sobre os assuntos sagrados. Ao buscar uma solução “diabólica” para um problema matrimonial, a mulher estava rejeitando a autoridade e os métodos da Igreja.
🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
6.1 Resumo do Raciocínio
O raciocínio central foi entender que a Inquisição via a feitiçaria como uma usurpação da autoridade divina e eclesiástica. No caso apresentado, o crime foi amplificado porque essa prática demoníaca foi usada para interferir em um sacramento, o casamento, um domínio que a Igreja considerava de sua exclusiva competência.
6.2 Gabarito Reafirmado
A alternativa correta é a E) os cristãos deviam preservar a instituição do casamento recorrendo exclusivamente aos ensinamentos da Igreja.
6.3 Resumo Final para Revisão 🔍
Lembre-se: para a Inquisição, o pecado da magia não estava no efeito, mas na fonte. Recorrer a qualquer poder que não fosse o de Deus e seus intermediários (a Igreja e os santos) era, por definição, um ato de heresia.