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Questão 60, caderno azul do ENEM 2021 – DIA 1

Qual comportamento coletivo é criticado no trecho da letra da canção lançada em 1979?

A) Militância política.

B) Passividade social.

C) Altruísmo religioso.

D) Autocontrole moral.

E) Inconformismo eleitoral.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto (Letra de Canção)
  • Análise de Figuras de Linguagem (Metáfora, Ironia)
  • Contexto Histórico do Brasil (Ditadura Militar, Canção de Protesto)

Tema/Objetivo Geral: Identificar a crítica social a um comportamento coletivo expressa através de metáforas em uma canção de protesto.

Nível da Questão: Fácil.

  • Por quê? A metáfora central, “vida de gado”, é extremamente poderosa e de fácil decodificação no contexto da cultura brasileira. Ela evoca imediatamente imagens de um rebanho que segue sem questionar, o que aponta diretamente para a ideia de passividade.

Gabarito: B) Passividade social.

  • Resumo da Justificativa: O gabarito está correto porque a letra descreve a população como uma “massa” que caminha sem rumo (“passa nos projetos do futuro”), sofre (“é duro tanto ter que caminhar”) e é controlada (“povo marcado”), comparando-a a um rebanho (“vida de gado”), metáfora que critica a falta de reação e a aceitação dócil das condições impostas.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

  • Decodificação do Objetivo: A missão é clara: qual é o pecado coletivo que a canção está denunciando? Qual atitude do povo é o alvo da crítica do compositor?
  • Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine um rebanho de ovelhas. Elas caminham juntas, seguindo o caminho que o pastor determina. Elas são marcadas, pertencem a alguém e, no final, seu destino é o matadouro. Mesmo assim, elas caminham em ordem, sem se rebelar. A canção usa exatamente essa imagem para falar do povo. O verdadeiro desafio aqui é entender o que a imagem de um rebanho dócil e controlado nos diz sobre o comportamento humano que está sendo criticado.
  • Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
    1. Analisar a Descrição da “Massa”: Como a canção descreve o povo e sua jornada?
    2. Decodificar a Metáfora Central: O que significa a expressão “vida de gado”?
    3. Identificar a Crítica: Juntando a descrição e a metáfora, qual é o comportamento que está sendo atacado?

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a ferramenta ideal é uma Análise de Metáforas, que nos ajudará a desvendar o código da canção.

🕵️‍♂️ DOSSIÊ: A METÁFORA DO GADO

Expressão na Letra Análise da Imagem Evocada Significado Crítico
“massa que passa nos projetos do futuro” Uma multidão sem rosto, anônima, que é apenas um elemento nos planos de outros, sem agência própria. Alienção: O povo não é o protagonista de seu próprio futuro, é apenas um figurante nos “projetos” de quem detém o poder.
“É duro tanto ter que caminhar / E dar muito mais do que receber” Um fardo, um sacrifício, uma jornada de exploração onde o esforço não é recompensado. Exploração: O sistema é injusto, baseado na exploração do trabalho da “massa”.
“vida de gado / Povo marcado” A METÁFORA CENTRAL. Um rebanho que pertence a um dono (marcado), que é conduzido sem vontade própria, que segue o caminho de forma dócil e resignada. PASSIVIDADE / SUBMISSÃO: A crítica mais dura. O povo se comporta como um rebanho, aceitando a exploração e a falta de autonomia sem se rebelar.
“Ê, povo feliz!” IRONIA. O clímax da crítica. Depois de descrever uma vida de exploração e submissão, o autor chama o povo de “feliz”, expondo o absurdo de uma felicidade baseada na alienação. Alienação / Conformismo: A “felicidade” é falsa, uma máscara para a falta de consciência crítica sobre a própria condição de oprimido.

Conclusão da Análise: A canção utiliza uma sequência de imagens para construir sua crítica, culminando na poderosa metáfora do gado para denunciar a passividade e o conformismo social.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

A letra constrói a crítica em etapas. Primeiro, define o sujeito: “Vocês que fazem parte dessa massa”. A palavra “massa” já sugere uma coletividade sem individualidade.

Em seguida, descreve a condição dessa massa: uma jornada sofrida e injusta (“É duro caminhar”, “dar mais do que receber”).

O clímax vem com o refrão, que dá nome a essa condição: “vida de gado”. Um gado é criado para servir ao seu dono, é marcado e seu destino é controlado. A comparação do povo com o gado é uma denúncia brutal da sua falta de reação, da sua submissão. É uma crítica à passividade.

A frase final, “Ê, povo feliz!”, é a chave de ironia que fecha o raciocínio. Um povo explorado e passivo não pode ser genuinamente feliz. Essa “felicidade” é, portanto, uma felicidade alienada, a felicidade da ignorância ou do conformismo.

🚨 ARMADilha CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais comum aqui é confundir a crítica com o seu oposto. Por exemplo, a alternativa (A) “Militância política” é o exato contrário do que a canção descreve. A canção lamenta a falta de militância. A armadilha é uma leitura desatenta que não capta o tom de crítica. O autor não está descrevendo o que o povo é de forma positiva, mas o que ele critica que o povo seja.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A canção usa a metáfora de um rebanho controlado e explorado para criticar um comportamento coletivo de aceitação, submissão e falta de questionamento diante de uma realidade injusta.
    • Expectativa: A alternativa correta deve, obrigatoriamente, nomear esse comportamento de falta de reação, submissão, conformismo ou passividade.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos confrontar nossa Expectativa com os suspeitos.

A) Militância política.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor cai na “Armadilha Clássica”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. A militância é um comportamento ativo de luta, o exato oposto da “vida de gado” passiva.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) Passividade social.

  • Análise de Correspondência: Encaixe perfeito. “Passividade social” é o termo técnico que descreve perfeitamente o comportamento de um rebanho que “passa”, “caminha” e aceita ser “marcado” sem reagir.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

C) Altruísmo religioso.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor tenta encontrar um significado positivo ou religioso na letra.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. A letra não contém elementos que remetam a altruísmo ou religião.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) Autocontrole moral.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor interpreta a resignação como uma forma de “autocontrole”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Falsa Inferência. A crítica não é sobre uma escolha moral individual de se controlar, mas sobre uma condição coletiva de submissão imposta e aceita.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) Inconformismo eleitoral.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor pensa em um tipo específico de contestação política.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. “Inconformismo” é o oposto do que a letra descreve. Além disso, a crítica é mais ampla do que apenas o campo eleitoral.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (B) é a correta, pois a canção usa a imagem devastadora do “gado” para criticar a passividade de uma sociedade que caminha para o futuro sem ser dona do seu próprio destino.

Resumo-flash (A Imagem Mental): A canção é um espelho que pergunta: somos pastores do nosso futuro ou apenas o gado no pasto de outra pessoa?

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O conceito de “vida de gado” se conecta diretamente à teoria do “Homem Unidimensional” do filósofo Herbert Marcuse, um contemporâneo da canção. Para Marcuse, a sociedade industrial avançada cria um tipo de homem que perde sua capacidade de pensamento crítico e oposição. Ele é “feliz” dentro do sistema, satisfeito com os bens de consumo e o entretenimento que lhe são oferecidos (a “cerveja, samba” da letra), e não percebe mais sua própria condição de não-liberdade. O “povo feliz” de Zé Ramalho é o “homem unidimensional” de Marcuse. Ambos são figuras trágicas cuja felicidade é, na verdade, o sintoma mais profundo de sua própria alienação.

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