Questão 57 do Enem 2017 Libras: identidade guarani – resolução comentada (caderno verde)

A questão 57 do Enem 2017 Libras (caderno verde, Dia 1) é de Ciências Humanas (Sociologia) e cobra a identidade dos guaranis. O gabarito é a alternativa D. Abaixo você confere o enunciado, a resolução passo a passo e por que cada alternativa errada engana tantos candidatos.

Enunciado da questão 57 do Enem 2017 Libras

Os guaranis encontram-se hoje distribuídos pela Bolívia, Paraguai, Uruguai, Brasil e Argentina. A condição de guarani remete diretamente para a ideia de pertencimento e para as relações de parentesco. Daí a importância da concepção de território como espaço de comunicação. Eles têm parentes nos diversos países e seguem se visitando regularmente. Os guaranis seguem com noções e conceitos próprios de fronteira, uma ideia mais sociológica e ideológica, que inclui, exclui e define quem pertence e quem não pertence a determinado grupo social

O dilema das fronteiras na trajetória guarani. Entrevista especial com Antônio Brand.
Disponível em: www.ihuonline.unisinos.br. Acesso em: 15 ago. 2013 (adaptado)
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De acordo com o texto, o processo de demarcação das terras reivindicadas por esse povo enfrenta como dificuldade o(a)

A) valor de desapropriação das áreas legalizadas.

B) engajamento de jovens na luta pela reforma agrária.

C) escassez de zonas cultiváveis nas regiões contíguas.

D) tensão entre identidade coletiva e normatizaçõesdas nações limítrofes.

E) contradição entre sustento extrativista e desmatamento das florestas tropicais.

Resolução da questão 57 do Enem 2017 Libras

Resolução comentada da questão 57

Matérias necessárias para resolver a questão

  • Antropologia/Sociologia (Identidade Cultural, Etnia, Relações de Parentesco)
  • Geografia Política (Fronteiras, Território, Estado-Nação)
  • História e Direitos dos Povos Indígenas

Tema e objetivo geral

Tema/Objetivo Geral: Identificar o conflito central entre a concepção de território do povo Guarani e a lógica das fronteiras dos Estados nacionais.

Nível da questão

Nível da Questão: Médio.

  • Detalhe: A questão é de nível médio porque, embora o texto seja claro, a resposta correta exige um raciocínio abstrato. O candidato precisa traduzir a descrição do modo de vida Guarani em um conceito sociológico (“identidade coletiva”) e contrastá-lo com o conceito de fronteira estatal (“normatizações das nações”). A dificuldade não é interpretar o texto, mas sim conectar essa interpretação a uma alternativa com linguagem mais técnica.

Gabarito da questão 57: alternativa D

Gabarito:D) tensão entre identidade coletiva e normatizações das nações limítrofes.

  • Esta alternativa está correta porque encapsula o dilema central: a noção de pertencimento Guarani, baseada em laços sociais que ignoram fronteiras, choca-se diretamente com as regras e leis dos países, que impõem limites territoriais rígidos.
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Passo 1: o que a questão pede (o mapa da mina)

🕵️‍♂️ Decodificação do Objetivo: Em bom português, a questão nos pergunta: “Qual é o principal ‘perrengue’ que os Guarani enfrentam na hora de oficializar suas terras, considerando o jeito único como eles enxergam seu próprio território?”

🧠 Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense em dois mapas sobrepostos. O primeiro é o mapa oficial, como o do Google Maps, com linhas retas e coloridas separando Brasil, Paraguai, Argentina, etc. O segundo é o mapa Guarani, que se parece mais com uma constelação ou uma rede social: os “pontos” são as famílias e aldeias, e as “linhas” são as visitas e as relações de parentesco que conectam esses pontos, cruzando as linhas coloridas do outro mapa sem nem perceber. O verdadeiro desafio aqui é entender que o governo tenta demarcar a terra usando as regras do mapa de linhas retas, enquanto a vida do povo Guarani acontece no mapa da constelação. A dificuldade nasce desse desencontro fundamental.

📋 Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:

  1. Definir a “Fronteira Guarani”: Vamos extrair do texto as características da noção de território deles.
  2. Definir a “Fronteira do Estado”: Vamos entender o que é a fronteira para os países mencionados.
  3. Analisar o Ponto de Colisão: Identificaremos exatamente onde e por que essas duas visões de mundo se chocam, criando o problema da demarcação.

Passo 2: identidade guarani

Para visualizar este choque de conceitos, uma Tabela Comparativa é a ferramenta perfeita. Ela coloca os dois mundos lado a lado, expondo a raiz do conflito.

ELEMENTO DE ANÁLISEVISÃO DE MUNDO GUARANI (A “REDE”)VISÃO DE MUNDO DO ESTADO-NAÇÃO (A “GRADE”)
O que define o território?As relações de parentesco e o sentimento de pertencimento. É um espaço de comunicação social.As leis e os tratados internacionais. É um espaço de controle político e jurídico.
Como é a fronteira?Fluida, sociológica, ideológica. Inclui e exclui pessoas com base em quem elas são no grupo.Rígida, física, legal. É uma linha no mapa que separa cidadãos e impõe regras de passagem.
Qual é a lógica?Lógica da identidade coletiva e da conexão humana.Lógica da soberania nacional e da delimitação territorial.
Resultado do Choque:A “rede” de parentesco é cortada e fragmentada pela “grade” das fronteiras nacionais, tornando uma demarcação unificada e coerente com seu modo de vida extremamente difícil.

Esta tabela deixa claro que não se trata de um simples problema de medir terras, mas de um profundo conflito entre duas formas de organizar e perceber o mundo.


Passo 3: resolução passo a passo (mão na massa)

Vamos aplicar nossa análise ao caso.

O texto nos dá as pistas cruciais sobre a “fronteira Guarani”: ela é baseada em “pertencimento”, “relações de parentesco” e é um “espaço de comunicação”. Eles “seguem se visitando regularmente” entre os países. Isso mostra que, para eles, a linha que separa o Brasil do Paraguai, por exemplo, não tem o mesmo peso. A fronteira deles é social.

Por outro lado, a “demarcação de terras” é um processo do Estado. Ela exige coordenadas geográficas, documentos, limites fixos. É uma “normatização”, uma regra imposta.

O conflito é inevitável: como você pode usar uma regra fixa (demarcação) para proteger um modo de vida que é, por natureza, fluido e transnacional?

ARMADILHA CLÁSSICA!
CUIDADO! O erro mais comum aqui é procurar uma resposta puramente material ou econômica. As alternativas (A), (C) e (E) falam de dinheiro, agricultura e extrativismo. São problemas reais, mas não são o problema apontado pelo texto. O texto está focado 100% na questão cultural e de identidade. A armadilha é desviar o foco do argumento central do texto (o choque de visões de mundo) para problemas genéricos associados à questão indígena.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O modo de vida Guarani, que se organiza como uma grande rede familiar transnacional, entra em conflito direto com a estrutura do Estado moderno, que organiza o mundo em caixas territoriais com fronteiras rígidas e leis próprias. A dificuldade da demarcação nasce dessa incompatibilidade fundamental de sistemas.
  • Expectativa: A alternativa correta precisa ter dois componentes: um que represente a perspectiva Guarani (algo sobre identidade, grupo, coletividade, cultura) e outro que represente a perspectiva dos Estados (algo sobre regras, leis, nações, fronteiras).

Passo 4: alternativas comentadas (a autópsia)

Vamos interrogar os suspeitos.

A) valor de desapropriação das áreas legalizadas.

  • A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa no aspecto financeiro da demarcação, que é um problema real em muitos casos.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema Central. O texto não menciona custos ou desapropriação. O foco do argumento é cultural e sociológico, não econômico.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) engajamento de jovens na luta pela reforma agrária.

  • A “Narrativa do Erro”: O candidato mistura a pauta indígena com a luta pela reforma agrária e questões geracionais.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Informação Não Contida no Texto. O texto não fala sobre jovens, engajamento ou “reforma agrária” (que é um conceito diferente da demarcação de terras indígenas).
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) escassez de zonas cultiváveis nas regiões contíguas.

  • A “Narrativa do Erro”: O candidato associa a questão indígena a problemas de subsistência e agricultura.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema Central. Assim como na alternativa A, o foco é desviado para um problema material que não é o ponto principal do texto apresentado.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) tensão entre identidade coletiva e normatizações das nações limítrofes.

  • Análise de Correspondência: Encaixe perfeito com a nossa Bússola. “Identidade coletiva” representa a visão Guarani baseada no parentesco e pertencimento. “Normatizações das nações limítrofes” representa as regras e fronteiras dos Estados. A palavra “tensão” descreve com precisão o conflito entre os dois.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

E) contradição entre sustento extrativista e desmatamento das florestas tropicais.

  • A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa em pautas ambientais frequentemente associadas à Amazônia e aos povos indígenas.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema Central. Mais uma vez, um problema real, mas que não é o argumento específico construído pelo texto, que é de natureza sociopolítica.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

Passo 5: resumo e aprendizagem expandida

🕵️‍♂️ Frase de Fechamento: Confirmamos que a resposta correta é a letra D, pois o grande dilema da demarcação das terras Guarani é a tentativa de aplicar as regras rígidas das fronteiras nacionais a uma identidade coletiva que vive e respira através de uma rede de relações que transcende essas mesmas fronteiras.

💡 Resumo-flash (A Imagem Mental): Para o Estado, fronteira é um muro de concreto; para os Guarani, é uma ponte de afetos.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O conflito entre uma identidade de rede fluida e uma estrutura de controle territorial rígida não é exclusivo dos Guarani. Ele se replica perfeitamente no mundo da tecnologia e das comunidades digitais. Pense em uma comunidade global de programadores de software de código aberto ou de gamers. Sua “identidade coletiva” é definida por interesses e colaborações que ocorrem em uma rede global, sem fronteiras. No entanto, eles estão constantemente em “tensão” com as “normatizações das nações”, como as leis de direitos autorais de um país, as políticas de censura de outro, ou as regras de impostos de um terceiro. Assim como os Guarani, essas comunidades transnacionais vivem em um espaço social que não se encaixa nas caixas políticas do mapa-múndi.


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