Questão 56, caderno azul ENEM PPL 2023

Os estudos realizados sobre o impacto ambiental confirmaram um patrimônio arqueológico, histórico e cultural positivo para onde se planeja implantar a ferrovia Transnordestina. Esse quadro já era esperado,
considerando-se o rico contexto de ocupações humanas que se desenvolveram na área desde o período pré- colonial até os dias atuais. Foi ainda identificado um rico patrimônio de arte rupestre na região, com a presença de dois sítios arqueológicos, colocando a área de implantação da ferrovia Transnordestina dentro do diversificado panorama pré-colonial que caracteriza o interior do Nordeste brasileiro.
Relatório de impacto ambiental — Rima: ferrovia Transnordestina. DNIT, 2004 (adaptado).

Uma ação capaz de evitar os danos arqueológicos mencionados no texto é o(a):
a) catalogação dos materiais líticos.
b) adoção de medidas compensatórias.
c) remoção das habitações dos nativos.
d) reflorestamento de áreas degradadas.
e) deslocamento dos eixos da construção.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Geografia Ambiental: Estudos de Impacto Ambiental (EIA) e Relatório de Impacto Ambiental (RIMA).
  • Gestão de Patrimônio: Preservação de sítios arqueológicos e licenciamento ambiental de grandes obras.
  • Interpretação de Texto: Identificação de problema e solução.

Tema/Objetivo Geral:
Analisar um trecho de Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) para identificar a estratégia de preservação mais eficaz quando uma grande obra de infraestrutura (ferrovia) ameaça um sítio arqueológico insubstituível.

Nível da Questão: Fácil.

  • Justificativa: A questão apresenta um conflito físico direto: “Ferrovia vs. Sítio Arqueológico”. O aluno precisa usar a lógica: se a ferrovia passar em cima, o sítio é destruído. Se passar do lado, o sítio é salvo. A única alternativa que propõe mudar o lugar da obra é a (E). As outras são paliativas ou irrelevantes.

Gabarito: E.

  • Resumo: O texto confirma que a área onde se planeja a ferrovia tem um “rico patrimônio de arte rupestre” e “dois sítios arqueológicos”. Como não se pode mover uma pintura rupestre (que está na rocha), a única forma de evitar o dano é mover a obra, ou seja, fazer o deslocamento dos eixos da construção (mudar o traçado dos trilhos).

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Função Pedagógica: Resolver o conflito espacial.

Decodificação do Objetivo: A questão diz: “Vamos passar um trem aqui, mas descobrimos um tesouro histórico no chão. O que fazemos para não destruir o tesouro?”.

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que você vai construir uma estrada e descobre que no meio do caminho tem uma árvore sagrada que não pode ser cortada.

Você tira foto da árvore? (Não salva).

Você planta outra árvore longe? (Não salva).

Você faz uma curva na estrada para desviar da árvore? Sim! (Salva).

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  • Identificar o tesouro: Arte rupestre e sítios arqueológicos.
  • Identificar a ameaça: Construção da ferrovia no local.
  • Encontrar a solução física: Mudar o lugar da ferrovia (desviar).

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender por que a resposta é tão radical (mudar a obra de lugar), vamos simular uma reunião de planejamento entre o Engenheiro da obra e o Arqueólogo responsável.

🕵️‍♂️ Mentor (Arqueólogo): Temos um problema. O projeto da ferrovia passa exatamente em cima de uma caverna com pinturas rupestres de 3 mil anos.
🧠 Aluno (Engenheiro): Entendo. E se a gente catalogar tudo? Tiramos fotos, fazemos modelos 3D e guardamos no computador. (Alternativa A).
🕵️‍♂️ Mentor: Isso salva a informação, mas depois o trator vai passar e destruir a caverna. O dano ao patrimônio físico aconteceu. A questão pede para evitar o dano.

🧠 Aluno: E se a gente pagar uma medida compensatória? A gente constrói um museu na cidade vizinha. (Alternativa B).
🕵️‍♂️ Mentor: Compensar significa assumir que o dano vai ocorrer. Você destrói a caverna e dá um museu em troca. O dano não foi evitado, foi pago.

🧠 Aluno: Então só tem um jeito. A caverna não pode sair do lugar…
🕵️‍♂️ Mentor: Exato. Se a pedra não sai da frente do trem…
🧠 Aluno: O trem tem que sair da frente da pedra. Temos que mudar o traçado dos trilhos.
🕵️‍♂️ Mentor: BINGO! O nome técnico disso é deslocamento do eixo da construção. É a única forma de preservação total.

Conceito Chave: Inflexibilidade do Patrimônio Arqueológico
Diferente de uma floresta (que pode ser replantada em outro lugar), um sítio arqueológico é único e insubstituível. Uma vez destruído, não existe “conserto”. Por isso, a prioridade no licenciamento ambiental é sempre o desvio (locacional) da obra.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos analisar as opções com a lógica da preservação:

  • Problema: A ferrovia vai passar em cima da arte rupestre.
  • Solução A (Catalogar): Você tira foto e descreve, mas o trator passa por cima. O sítio é destruído.
  • Solução B (Compensar): Você paga uma multa ou constrói um museu, mas o sítio original é destruído.
  • Solução D (Reflorestar): Planta árvores, mas a arte rupestre (pedra) continua destruída.
  • Solução E (Deslocar o eixo): Você muda o trilho para o lado. O sítio fica intacto.

Conclusão:
A única ação que evita o dano (em vez de apenas documentá-lo ou pagá-lo) é mudar a obra de lugar.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A alternativa (B) (“adoção de medidas compensatórias”) é um distrator técnico.

  • Por que seduz? Porque em obras ambientais sempre se fala em “compensação ambiental”.
  • Por que está errada? Compensar significa “pagar pelo estrago” (ex: derrubei 10 árvores aqui, planto 20 ali). Mas um sítio arqueológico é único. Se você destruir uma pintura de 5.000 anos, não adianta pintar outra em outro lugar. Compensar não evita o dano; ela aceita o dano e paga por ele. O comando pede uma ação capaz de evitar.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O patrimônio é fixo e frágil. A obra é móvel (no projeto). A solução é mover o projeto.
  • Expectativa: A alternativa correta deve falar sobre mudança de traçado, desvio, alteração de rota ou deslocamento da obra.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

  • A) catalogação dos materiais líticos.
    • Diagnóstico do Erro: Medida Paliativa/Resgate.
    • Narrativa do Erro: Catalogar é registrar. Se você catalogar e depois passar o trator, o dano ao sítio (a destruição do local) ocorreu. O comando pede para evitar o dano.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) adoção de medidas compensatórias.
    • Diagnóstico do Erro: Aceitação do Dano.
    • Narrativa do Erro: Compensar significa: “Vou destruir aqui, mas vou construir um parque ali”. Isso não evita o dano arqueológico específico citado; apenas tenta equilibrar a perda geral.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) remoção das habitações dos nativos.
    • Diagnóstico do Erro: Violação de Direitos / Incoerência.
    • Narrativa do Erro: O texto fala de sítios arqueológicos (passado), não necessariamente de aldeias indígenas vivas no local da obra (embora possam existir). Mesmo que existissem, remover pessoas é um impacto social negativo, não uma solução de preservação arqueológica.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) reflorestamento de áreas degradadas.
    • Diagnóstico do Erro: Fuga ao Tema (Biológico vs. Histórico).
    • Narrativa do Erro: Reflorestar recupera a flora, não a história. Plantar árvores não traz de volta uma pintura rupestre destruída.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • E) deslocamento dos eixos da construção.
    • Análise de Correspondência: Perfeito. Mudar o “eixo” (o traçado da linha férrea) é a única medida de engenharia que garante a integridade física do sítio arqueológico, desviando a obra da área sensível. É a aplicação do princípio de prevenção/evitação de impacto.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
O progresso não precisa atropelar a história: diante de um sítio arqueológico insubstituível, a engenharia deve se curvar à memória, realizando o deslocamento dos eixos da construção (Alternativa E) para que o trem passe sem apagar os rastros dos nossos ancestrais.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
Se tem pedra pintada no caminho, o trem faz a curva.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Este procedimento é padrão no licenciamento ambiental brasileiro (IBAMA/IPHAN). Antes de qualquer grande obra, arqueólogos varrem a área. Se acharem algo relevante, a obra para ou muda de rota. Isso mostra como a gestão ambiental moderna tenta conciliar desenvolvimento e preservação.

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