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Questão 56, caderno azul do ENEM 2024

No primeiro dia, foi colocada uma panela de barro no centro do barracão, a qual representava o espírito do morto presente na sala. Aqueles que dançavam depositavam moedas ao passarem junto dela e, ao seu redor, milho branco, mel, água, acaçás, cachaça. No segundo dia, os ogãs, antes de iniciar a cerimônia, caminharam pelo corredor formado pelas casas, batendo com longas varas de bambus nos seus beirais, até alcançarem o portão de entrada. No terceiro dia, quatro pessoas, as mais influentes do culto, carregaram um lençol, que aparentemente continha um corpo em seu interior. No entanto, esse corpo era formado por folhas verdes de plantas, que foram derramadas sobre uma pessoa.

MANZOCHI, H. M. Axexe, um rito de passagem. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia,
n. 5, 1995 (adaptado).

O ritual brasileiro apresentado no texto representa, para seus adeptos, a

A) manutenção de uma memória coletiva.

B) contestação de uma identidade étnica.

C) imolação de uma divindade africana.

D) legitimação de uma prática pagã.

E) promissão de uma revolta social.

✍ “Resolução Em Texto”

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
Sociologia e Antropologia (Cultura, Memória e Identidade).
História e Cultura Afro-Brasileira.
Interpretação de Texto (Simbolismo Religioso).

Tema/Objetivo Geral:
Compreender a função social e simbólica de um rito fúnebre (Axexê) dentro das religiões de matriz africana, identificando-o como um mecanismo de preservação da história e da coesão do grupo.

Nível da Questão
Médio.
O texto descreve um ritual complexo. O aluno precisa abstrair os detalhes práticos (panela, bambu, folhas) para alcançar o significado sociológico (memória, grupo), evitando distratores carregados de preconceito (pagão) ou interpretações literais equivocadas (revolta).

Gabarito
Letra A.
O ritual descrito (Axexê) tem a função de homenagear o espírito do morto e reintegrá-lo ao mundo dos ancestrais. Para a comunidade que fica, esse ato serve para reafirmar quem eles são e de onde vieram, ou seja, manter viva a memória coletiva.


1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo:
A questão descreve uma cerimônia de despedida de um morto. O comando pergunta: “Para as pessoas que participam disso, qual é a utilidade ou o significado profundo desse ato?”.
É para brigar? É para adorar um deus? Ou é para não esquecer quem partiu e fortalecer o grupo?

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine um álbum de fotos de família ou um monumento na praça.
Para que servem? Servem para que a história não morra.
Nas culturas de tradição oral (como as afro-brasileiras), não se fazem estátuas de bronze; fazem-se rituais. O Axexê é o “monumento vivo” que a comunidade constrói para lembrar do morto e transformá-lo em Ancestral. O objetivo é identificar essa função de lembrança em grupo.

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  1. Identificar o Evento: O texto fala de “espírito do morto”, “panela”, “cerimônia”. É um funeral/rito de passagem.
  2. Identificar os Agentes: “Aqueles que dançavam”, “ogãs”, “pessoas influentes”. É um ato coletivo (do grupo).
  3. Conectar: Se o grupo se reúne para cuidar do espírito do morto, eles estão preservando a memória daquela comunidade.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Vamos usar a ferramenta da Antropologia do Rito.

Rituais não são apenas gestos vazios; eles têm função social.

Dossiê do Ritual (Axexê):

Elemento do TextoSignificado Simbólico
Panela de barro no centroRepresenta o morto presente. É o foco da atenção.
Dançar e depositar moedas/comidaA comunidade cuida e interage com essa memória.
Ogãs batendo bambusProteção e limpeza espiritual do espaço coletivo.
Corpo de folhas verdesO retorno à natureza e a transformação da morte em vida/ancestralidade.

Conceito-Chave:
Memória Coletiva: É o conjunto de lembranças partilhadas por um grupo. É o que mantém a identidade do grupo viva. Sem rituais, o grupo esquece sua história e se desfaz.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos analisar a cerimônia passo a passo:

  1. A Presença: O texto diz que a panela “representava o espírito do morto”. Ou seja, o morto não sumiu; ele está ali, no meio do povo.
  2. A Interação: As pessoas “dançavam” e “depositavam moedas”. Isso mostra que a relação continua. A morte não rompe o vínculo com a comunidade.
  3. A Transformação: No fim, o “corpo” é feito de folhas (natureza). O indivíduo deixa de ser uma pessoa física e vira uma força da natureza/ancestral.

Síntese:
Ao realizar tudo isso junto, o grupo está dizendo: “Nós lembramos de você, você faz parte de nós”. Isso é a manutenção da memória.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com a alternativa D (Legitimação de prática pagã) e C (Imolação de divindade).

  • Erro da D: “Pagão” é um termo eurocêntrico e muitas vezes preconceituoso usado historicamente por cristãos para diminuir outras religiões. O ENEM não usaria esse termo como gabarito correto para descrever a religião afro-brasileira de forma técnica.
  • Erro da C: O texto fala do “espírito do morto” (um ser humano que faleceu), e não de uma “divindade” (um Orixá/Deus). Além disso, o corpo de folhas é simbólico, não houve imolação (sacrifício) de um deus. Atenção aos sujeitos do texto!

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O ritual de despedida serve para transformar a dor da perda individual em um ato de coesão grupal, garantindo que o falecido seja integrado à história da comunidade (ancestralidade).
  • Expectativa: A alternativa correta deve falar sobre memória, grupo, coletividade, ancestralidade ou tradição.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) manutenção de uma memória coletiva.

  • Análise de Correspondência: Perfeita.
  • Manutenção: O ritual dura 3 dias, é repetitivo e cuidadoso.
  • Memória Coletiva: Envolve toda a comunidade (“aqueles que dançavam”, “ogãs”, “pessoas influentes”) em torno da figura do morto, perpetuando sua lembrança e importância.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

B) contestação de uma identidade étnica.

  • Diagnóstico do Erro: Interpretação Oposta.
  • Análise: O ritual afirma e reforça a identidade étnica (afro-brasileira), não a contesta ou nega. É um momento de orgulho e pertencimento.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) imolação de uma divindade africana.

  • Diagnóstico do Erro: Confusão de Elementos.
  • Análise: Imolação é sacrifício. O texto fala de um rito fúnebre para um humano (“espírito do morto”), não o sacrifício de um Deus. As folhas representam o corpo, mas não há morte de divindade.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) legitimação de uma prática pagã.

  • Diagnóstico do Erro: Termo Preconceituoso/Inadequado.
  • Análise: Como vimos na “Armadilha”, o termo “pagão” não é a categoria sociológica correta para definir religiões de matriz africana no contexto de uma prova que preza pela diversidade. Além disso, o objetivo do rito para o adepto não é “legitimar a prática” (eles já sabem que é legítima), mas sim cuidar do morto.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) promissão de uma revolta social.

  • Diagnóstico do Erro: Extrapolação Política.
  • Análise: Não há menção a conflito político, luta de classes ou revolta contra o sistema. É um rito religioso interno, de ordem espiritual e comunitária.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
A alternativa A é a correta pois reconhece que o ritual do Axexê é a ferramenta cultural pela qual a comunidade processa a morte, transformando o fim da vida biológica no início da vida ancestral na memória do grupo.

Resumo-flash:
Quem morre vira semente na memória da gente.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
O conceito de Memória Coletiva foi desenvolvido pelo sociólogo Maurice Halbwachs. Ele diz que a memória não é apenas individual (o que eu lembro), mas social (o que o grupo me ajuda a lembrar através de datas, festas e rituais). Sem o ritual do Axexê, a história do morto se perderia; com o ritual, ela se integra à história da tribo/terreiro.

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