Os grupos dominantes são beneficiados em termos de credibilidade e podem, com isso, controlar falas de membros de outros grupos, descredibilizando seus testemunhos com base em concepções compartilhadas de preconceito de identidade (gênero e raça). Algumas formas de preconceito tornam as declarações das pessoas menos importantes devido ao seu pertencimento a determinado grupo social. Assim, um falante recebe menos credibilidade devido ao preconceito do ouvinte.
KUHNEN, T. Resenha de The Power and Ethics of Knowing, de Miranda Fricker. Revista Princípios, n. 33, 2013.
Com base na reflexão suscitada no texto, o preconceito de identidade é responsável por um tipo de injustiça
A) estética, que normatiza os padrões corporais.
B) sensorial, que privilegia as habilidades visuais.
C) afetiva, que impede as expressões emocionais.
D) epistêmica, que prejudica as trocas informacionais.
E) econômica, que perpetua as desigualdades materiais.

✍ “Resolução Em Texto”
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
Filosofia (Epistemologia e Ética).
Sociologia (Preconceito e Estratificação Social).
Interpretação de Texto (Vocabulário Filosófico).
Tema/Objetivo Geral:
Compreender o conceito de Injustiça Epistêmica (termo cunhado pela filósofa Miranda Fricker), que descreve como o preconceito social afeta a credibilidade da fala e a produção de conhecimento de certos grupos.
Nível da Questão
Médio.
A questão exige vocabulário específico. O aluno precisa saber (ou deduzir) o significado da palavra “epistêmica” (relativa ao conhecimento/saber) para conectá-la ao problema descrito no texto (descredibilizar testemunhos).
Gabarito
Letra D.
O texto descreve a situação onde a palavra de alguém é desvalorizada não porque é falsa, mas por causa da identidade de quem fala (gênero, raça). Isso fere a troca de saber (informação), configurando uma injustiça no campo do conhecimento (episteme).
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo:
A questão descreve um fenômeno: você fala a verdade, mas ninguém acredita em você só porque você é mulher, negro ou pobre. O comando pede o nome técnico desse tipo de injustiça. Em qual campo da vida ela ocorre? No campo do dinheiro? Da beleza? Ou no campo da verdade e do saber?
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine um tribunal.
Uma testemunha sobe ao estrado. Ela viu o crime. Ela tem as provas. Mas, assim que ela abre a boca, o júri tapa os ouvidos porque não gosta da roupa dela ou da cor da pele dela.
O crime que o júri cometeu não foi roubar o dinheiro dela (econômico), nem chamá-la de feia (estético). O crime foi matar a verdade que ela trazia. O júri impediu que o conhecimento circulasse. O desafio é lembrar que a palavra grega para “conhecimento/ciência” é Episteme.
Nosso Plano de Ataque será o seguinte:
- Identificar o Dano: O texto fala de “descredibilizar testemunhos”, “falante”, “ouvinte”. Isso é comunicação/saber.
- Traduzir as Alternativas: Descobrir o significado de “Estética”, “Afetiva”, “Epistêmica”.
- Ligar os Pontos: Se o problema é na troca de informações, a injustiça é informacional (epistêmica).
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Vamos usar a ferramenta da Etimologia (Origem das Palavras).
Para resolver essa questão, você precisa do seu “Dicionário Filosófico Mental”.
Dossiê dos Tipos de Injustiça:
| Tipo | Raiz da Palavra | O que ela afeta? | Exemplo |
| Estética | Aisthesis (Sensação/Beleza) | A aparência, o corpo. | Julgar alguém por ser “feio” ou fora do padrão. |
| Afetiva | Afeto/Sentimento | As emoções. | Não retribuir o amor de alguém. |
| Econômica | Oikos (Casa/Gestão) | O dinheiro, bens materiais. | Pagar salário menor. |
| Epistêmica | Episteme (Conhecimento/Ciência) | A verdade, a informação, a credibilidade. | Não acreditar em alguém por preconceito. |
Conceito-Chave:
Injustiça Testimonial: É um subtipo da injustiça epistêmica. Acontece quando o ouvinte rebaixa a credibilidade da palavra do falante devido a um preconceito identitário. É o “desligar o microfone” do outro socialmente.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos analisar os termos usados no texto:
- “Descredibilizando seus testemunhos”: Testemunho é uma forma de passar informação. Se tiro o crédito, bloqueio a informação.
- “Declarações das pessoas”: Declaração é ato de fala/saber.
- “Falante recebe menos credibilidade”: Credibilidade é a moeda do conhecimento. Se você não tem, sua “verdade” não vale nada.
Síntese:
O texto não está falando que as pessoas estão ficando mais pobres (economia) ou mais tristes (afeto), embora isso possa ser consequência. O texto foca no ato de falar e ser ouvido. O bloqueio ocorre na troca informacional.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com a alternativa C (Afetiva).
Muitos alunos pensam: “Ah, preconceito magoa, fere os sentimentos, então é afetivo”.
Atenção: O preconceito causa dor afetiva, sim. Mas a questão pergunta sobre o tipo de injustiça descrita no funcionamento da relação falante-ouvinte. O texto diz explicitamente: “descredibilizando testemunhos”. O foco é na validade do que é dito, não (apenas) na emoção de quem diz. Em filosofia, foque na função lógica descrita, não apenas na consequência emocional.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O preconceito ataca a capacidade do sujeito de ser visto como um portador de conhecimento válido. Isso corrompe a troca de informações e a construção da verdade coletiva.
- Expectativa: A alternativa correta deve conter palavras como “conhecimento”, “saber”, “informação”, “verdade” ou o termo técnico “epistêmico”.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
A) estética, que normatiza os padrões corporais.
- Diagnóstico do Erro: Fuga ao Tema.
- Análise: Injustiça estética seria dizer que o corpo de alguém é errado ou feio. O texto fala sobre a fala e a verdade de alguém, não sobre sua aparência física.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
B) sensorial, que privilegia as habilidades visuais.
- Diagnóstico do Erro: Invenção de Conceito.
- Análise: O texto não discute os cinco sentidos (visão, audição, tato). Ele discute “testemunho” (conteúdo intelectual), não percepção sensorial física.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
C) afetiva, que impede as expressões emocionais.
- Diagnóstico do Erro: Confusão Causa/Consequência.
- Análise: Como vimos na “Armadilha”, o preconceito pode até impedir a expressão emocional, mas o foco do texto é a credibilidade. Credibilidade tem a ver com “acreditar na verdade do outro”, o que é um ato cognitivo (epistêmico), não puramente emocional.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
D) epistêmica, que prejudica as trocas informacionais.
- Análise de Correspondência: Perfeita.
- Epistêmica: Relativa ao conhecimento (Episteme).
- Trocas informacionais: O texto fala de “falante”, “ouvinte” e “testemunhos”. Quando o preconceito impede que o ouvinte acredite no falante, a informação não passa. A troca de saber é prejudicada.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
E) econômica, que perpetua as desigualdades materiais.
- Diagnóstico do Erro: Extrapolação.
- Análise: O preconceito gera pobreza? Sim. Mas o texto específico analisa o momento da fala e da escuta (“descredibilizando testemunhos”). O foco é a desigualdade de voz, não a desigualdade de carteira.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
A alternativa D é a correta pois identifica que negar credibilidade a alguém por preconceito é um atentado contra a construção do saber, configurando a Injustiça Epistêmica.
Resumo-flash:
Silenciar a voz do outro é apagar uma parte da verdade do mundo.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Um exemplo clássico de Injustiça Epistêmica na literatura é o livro “O Sol é Para Todos” (Harper Lee). No julgamento de Tom Robinson, um homem negro acusado injustamente, o júri (branco) ignora todas as evidências lógicas e o testemunho dele simplesmente por causa de sua raça. Eles cometem uma injustiça epistêmica (ignoram a verdade dele) que leva a uma injustiça jurídica (condenação) e física (morte).