Dizem que Humboldt, naturalista do século XIX, maravilhado pela geografia, flora e fauna da região sul-americana, via seus habitantes como se fossem mendigos sentados sobre um saco de ouro, referindo-se a suas incomensuráveis riquezas naturais não exploradas. De alguma maneira, o cientista ratificou nosso papel de exportadores de natureza no que seria o mundo depois da colonização ibérica: enxergou-nos como territórios condenados a aproveitar os recursos naturais existentes.
ACOSTA, A. Bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo: Elefante, 2016 (adaptado).
A relação entre ser humano e natureza ressaltada no texto refletia a permanência da seguinte corrente filosófica:
A) Relativismo cognitivo.
B) Materialismo dialético.
C) Racionalismo cartesiano.
D) Pluralismo epistemológico.
E) Existencialismo fenomenológico.

✍ “Resolução Em Texto”
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
Filosofia Moderna (Racionalismo e René Descartes).
Sociologia/História (Pensamento Colonial e Eurocentrismo).
Meio Ambiente (Relação Homem-Natureza).
Tema/Objetivo Geral:
Identificar a base filosófica que justifica a visão utilitarista da natureza (a natureza como um objeto a ser explorado), típica do pensamento ocidental moderno.
Nível da Questão
Difícil.
Exige que o aluno faça uma conexão abstrata entre uma crítica histórica (a visão de Humboldt sobre a América) e um conceito filosófico do século XVII (o método cartesiano), sem que o nome de Descartes seja citado explicitamente no texto.
Gabarito
Letra C.
A alternativa está correta pois o Racionalismo Cartesiano (iniciado por René Descartes) foi a corrente que separou o ser humano (sujeito pensante) da natureza (objeto extenso), estabelecendo a ideia de que o homem deve ser “mestre e possuidor da natureza”.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo:
A questão quer saber qual é o “software” filosófico instalado na mente dos europeus do século XIX (como Humboldt) que os fazia olhar para uma floresta e não ver “vida”, mas sim “dinheiro parado” ou “recurso não explorado”. Qual filosofia ensinou o homem a ver a natureza como um objeto morto à sua disposição?
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine um jogador de Minecraft.
Quando ele olha para uma árvore, ele não pensa na biologia da árvore ou na beleza dela. Ele pensa: “Isso é Madeira. Tenho que bater nela para pegar recursos e construir minha casa”.
Essa visão de que o mundo é apenas um armazém de materiais para nosso uso tem um “pai” na filosofia. Quem é ele?
Plano de Ataque:
- Analisar a metáfora do texto (“mendigos em cima de um saco de ouro”).
- Identificar a ruptura: O texto mostra uma separação total entre o homem (o explorador racional) e a natureza (a coisa a ser explorada).
- Localizar o culpado: Buscar nas alternativas a corrente filosófica que prega a superioridade da razão humana sobre a matéria natural.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para resolver esse caso, precisamos abrir o Dossiê da Modernidade. O principal suspeito é René Descartes.
O Mecanicismo Cartesiano (A Divisão do Mundo):
Descartes dividiu a realidade em duas caixas separadas:
- Res Cogitans (Coisa Pensante): A mente humana, a razão, a alma. É superior.
- Res Extensa (Coisa Extensa/Matéria): O corpo, os animais, as plantas, o planeta. É apenas matéria mecânica, sem alma, sem propósito próprio.
A Consequência:
Se a natureza é apenas “matéria extensa” (máquina), então o ser humano (racional) tem o direito e o dever de dominá-la. Descartes escreveu explicitamente que a ciência deveria nos tornar “senhores e possuidores da natureza”.
Aplicação ao Texto:
Quando Humboldt diz que estamos sentados em um “saco de ouro”, ele está aplicando a lógica cartesiana: a natureza não tem valor em si mesma (como casa ou vida), ela só tem valor se for transformada em riqueza pela razão/técnica humana.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos dissecar o pensamento de Humboldt apresentado no texto:
- “Mendigos sentados sobre um saco de ouro”: O “saco de ouro” é a natureza. Para Humboldt, se você não explora a natureza (vende o ouro), você é pobre (mendigo). Ele não concebe que a natureza possa ser “riqueza” apenas por existir preservada.
- “Exportadores de natureza”: O texto critica como fomos reduzidos a fornecedores de matéria-prima.
- A Lógica Subjacente: Para que essa exploração ocorra, é necessário objetificar a natureza. É preciso tirar o caráter sagrado ou vivo dela e transformá-la em mercadoria.
Essa objetificação é a assinatura clássica do Racionalismo. A razão instrumental (o uso da mente para obter lucro/vantagem) dita as regras, e a natureza obedece.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! É muito comum o aluno marcar Materialismo Dialético (B) porque o texto fala em “riqueza”, “recursos” e “exploração”, termos muito usados no Marxismo.
- Por que não é? O Materialismo Dialético critica a exploração capitalista. A questão pergunta qual corrente refletia a permanência dessa visão exploratória descrita por Humboldt. Humboldt não era marxista; ele era um homem da ciência moderna, herdeiro de Descartes. O texto busca a origem epistemológica da visão, não a crítica econômica dela.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O texto descreve a natureza sendo vista como objeto inerte de exploração. A filosofia que inaugurou a visão da natureza como objeto mecânico foi o Racionalismo do século XVII.
- Expectativa: A alternativa deve citar Descartes, Racionalismo ou Mecanicismo.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
A) Relativismo cognitivo.
- Diagnóstico do Erro: Oposto do que ocorreu.
- Análise: O relativismo diria: “A visão dos indígenas sobre a natureza é tão válida quanto a dos europeus”. Humboldt fez o contrário: impôs a visão europeia (exploração) como a única correta (“saco de ouro”), ignorando a sabedoria local.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
B) Materialismo dialético.
- Diagnóstico do Erro: Anacronismo e confusão de Conceito.
- Análise: Corrente ligada a Karl Marx e Engels. Embora analise a economia, o Materialismo Dialético foca na luta de classes e na história. A visão de “homem dominando a natureza” é anterior a Marx; é uma herança da revolução científica burguesa. Além disso, o texto descreve a mentalidade liberal-burguesa de exploração, não a crítica comunista a ela.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
C) Racionalismo cartesiano.
- Análise de Correspondência: Perfeita.
- Análise: O Racionalismo (Descartes) estabeleceu o dualismo: Sujeito (Homem) vs. Objeto (Natureza). Essa filosofia tirou o encantamento do mundo e o transformou em uma loja de recursos. É exatamente essa “frieza” racional que permite a Humboldt ver a floresta amazônica apenas como um “saco de ouro” a ser aberto.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
D) Pluralismo epistemológico.
- Diagnóstico do Erro: Contradição direta.
- Análise: Pluralismo significa aceitar várias formas de conhecimento. O texto mostra uma visão hegemônica (dominante) e eurocêntrica, que desvaloriza o modo de vida local (chamando-os de mendigos). Não há pluralismo aqui, há imposição de uma única verdade.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
E) Existencialismo fenomenológico.
- Diagnóstico do Erro: Anacronismo (Século XX).
- Análise: Corrente de Sartre e Heidegger, focada na angústia, na liberdade e na existência humana subjetiva. Não tem relação com a visão utilitarista de recursos naturais do século XIX.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
A visão de Humboldt é filha legítima do Racionalismo Cartesiano, que ao dizer “Penso, logo existo”, colocou o homem no trono e rebaixou a natureza à condição de súdita muda e explorável.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
Descartes separou o mundo em dois: a Mente (Piloto) e a Natureza (Máquina). Humboldt queria ligar essa máquina.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Essa questão é a chave para entender a Crise Climática Atual. O “Bem Viver” (citado na referência do texto, Acosta) é justamente uma tentativa contemporânea, vinda dos povos andinos (Sumak Kawsay), de superar o Racionalismo Cartesiano, propondo que a natureza não é um objeto, mas um sujeito de direitos (Pachamama).