A imagem ou modelo, ou seja, toda construção da realidade, é um instrumento de poder e isso desde as origens do homem. Uma imagem, um guia de ação, que tomou as mais diversas formas. Até fizemos da imagem um objeto em si e adquirimos, com o tempo, o hábito de agir mais sobre as imagens, simulacros dos objetos, do que sobre os próprios objetos. Poderíamos imaginar o estudo dos sistemas de representação em ligação com as classes que detinham o poder ao longo da história.
RAFFESTIN, C. Por uma geografia do poder. São Paulo: Ática, 1993 (adaptado).
A cartografia moderna, na perspectiva descrita no texto, passou a representar a Terra dando ênfase aos(as):
a) escalas de tamanho grande.
b) áreas de domínio hegemônico.
c) aspectos da teoria geocêntrica.
d) projeções cilíndricas equivalentes.
e) diferenciações de legendas coloridas.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão: Geografia (Cartografia Temática e Histórica) e Geopolítica (Relações de Poder).
Tema/Objetivo Geral: Compreender a cartografia não como uma ciência neutra e exata, mas como uma ferramenta ideológica utilizada para expressar e consolidar o poder de nações e grupos dominantes ao longo da história.
Nível da Questão: Médio.
Por que Médio? A questão exige uma leitura crítica. O aluno precisa abandonar a ideia de que “mapa é apenas um desenho do chão” e adotar a visão sociológica de que “mapa é um discurso político”. É necessário conectar o conceito abstrato de “imagem como poder” à prática concreta de desenhar fronteiras e impérios.
Gabarito: B (áreas de domínio hegemônico).
A alternativa está correta pois, historicamente, a Cartografia Moderna (nascida com as Grandes Navegações e o Colonialismo) serviu para demarcar territórios conquistados, colocar a Europa no centro do mundo (Eurocentrismo) e legitimar a posse de terras, ou seja, destacar a hegemonia.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo:
A questão quer que você identifique qual era a intenção por trás dos mapas feitos na era moderna, segundo o texto.
O texto diz: “A imagem é um instrumento de poder”.
Logo, a pergunta é: O que os donos do poder queriam mostrar nos mapas para provar que eram poderosos?
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine um mapa como uma Selfie no Instagram.
- Quando você tira uma selfie, você escolhe o melhor ângulo, usa filtros e corta o que é feio. Você constrói uma imagem de sucesso.
- Quando um Rei ou um Império desenha um mapa, ele faz a mesma coisa: ele se coloca no centro, desenha suas terras maiores do que são e apaga os inimigos.
- O mapa não é a realidade; é a “selfie” do poder.
Plano de Ataque:
- Interpretar o Texto: O texto diz que imagens são “simulacros” (cópias/invenções) ligadas às classes dominantes.
- Analisar a Cartografia: Para que serviam os mapas antigos? Para guerra, navegação e posse de terra.
- Conectar: O mapa destaca quem manda (Hegemonia).
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Vamos usar o conceito de Ideologia Cartográfica.
Ferramenta 1: A Projeção de Mercator (O Exemplo Clássico)
Criada em 1569 (Cartografia Moderna).
- O que faz: Estica os países do Norte (Europa/EUA) e encolhe os do Sul (África/América do Sul).
- Mensagem Subliminar: “A Europa é gigante e poderosa; o resto é pequeno e colônia.” Isso é uma representação de Hegemonia.
Ferramenta 2: O Conceito de Hegemonia
Significa supremacia, liderança ou domínio de um povo sobre outros. Um mapa hegemônico é aquele que diz “Isso tudo aqui é meu”.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos dissecar o texto de Raffestin:
- “Toda construção da realidade é um instrumento de poder”: O mapa não é o território. O mapa é uma ferramenta política.
- “Estudo dos sistemas de representação em ligação com as classes que detinham o poder”: Quem tinha o poder na modernidade? As metrópoles europeias (Portugal, Espanha, Inglaterra).
- A Consequência: Se o mapa serve ao poderoso, o que ele destaca?
- Destaca o tamanho do papel? (Não).
- Destaca a beleza das cores? (Não).
- Destaca as terras que ele domina. Ele pinta o mapa com a cor do seu império.

O Mundo Segundo os Poderosos: A Ilusão de Mercator.
A imagem satiriza a Projeção de Mercator, criada na época das Grandes Navegações. Note como a Europa e a América do Norte aparecem maiores, sugerindo superioridade e poder, enquanto o Sul Global (África e América do Sul) é visualmente diminuído. Isso exemplifica como a cartografia pode ser manipulada para reforçar a hegemonia geopolítica.
Síntese do Detetive:
A Cartografia Moderna não estava preocupada em ser “justa” ou “bonita”, mas em mostrar quem mandava no mundo.
Expectativa: Procurar a alternativa que fale sobre poder, domínio, império ou controle.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
- A) escalas de tamanho grande.
- Diagnóstico do Erro: 🔴 INCORRETA. Escala grande (muito zoom/detalhe) ou pequena (pouco zoom/mundo todo) são escolhas técnicas, dependendo se você quer ver uma rua ou um continente. Não é isso que define o poder político do mapa em si.
- Conclusão: Foco técnico irrelevante.
- B) áreas de domínio hegemônico.
- Análise: 🟢 CORRETA. A “Hegemonia” refere-se ao poder dominante. A cartografia moderna (especialmente a colonial) focava em delimitar fronteiras, posses e zonas de influência das potências europeias, visualizando o seu poder sobre o globo.
- Conclusão: Gabarito.
- C) aspectos da teoria geocêntrica.
- Diagnóstico do Erro: 🔴 INCORRETA. A teoria Geocêntrica (Terra no centro do universo) é medieval e antiga. A Cartografia Moderna surge justamente com o Renascimento e a aceitação do Heliocentrismo. Além disso, isso é astronomia, não geopolítica de poder terrestre.
- Conclusão: Erro histórico.
- D) projeções cilíndricas equivalentes.
- Diagnóstico do Erro: 🟡 DISTRATOR (Conceito Técnico). Projeções cilíndricas (como a de Peters) que são equivalentes (mantêm o tamanho real das áreas) surgiram mais tarde justamente para criticar o poder europeu. A cartografia do poder tradicional usava projeções conformes (como Mercator), que distorciam tamanhos para favorecer a Europa.
- Conclusão: Termo técnico mal aplicado.
- E) diferenciações de legendas coloridas.
- Diagnóstico do Erro: 🔴 INCORRETA. Legendas e cores são recursos estéticos e técnicos. Embora usados para diferenciar países, o texto de Raffestin é profundo/filosófico (“instrumento de poder”), não sobre design gráfico básico.
- Conclusão: Superficialidade.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
A cartografia nunca é neutra; ao longo da história moderna, ela funcionou como uma tecnologia de poder utilizada pelas nações centrais para demarcar, visualizar e legitimar suas áreas de influência e domínio hegemônico sobre os territórios colonizados.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
“O Mapa-Múndi na parede da escola não é uma foto da Terra; é um quadro pintado pelo vencedor da guerra.”
🧠 Para ir Além (História da Arte/Cinema):
Já viu o filme de Charlie Chaplin, “O Grande Ditador”? Tem uma cena famosa onde ele brinca com um globo terrestre inflável.
Aquilo é a representação perfeita do texto: o ditador não vê o mundo real, ele vê uma imagem (o globo) que ele pode manipular, chutar e dominar. A imagem substitui a realidade.