A questão 47 do Enem 2021 PPL (caderno azul, Dia 1) é de Ciências Humanas (Geografia) e cobra a cartografia como ferramenta ideológica. O gabarito é a alternativa B. Abaixo você confere o enunciado, a resolução passo a passo e por que cada alternativa errada engana tantos candidatos.
Enunciado da questão 47 do Enem 2021 PPL
A imagem ou modelo, ou seja, toda construção da realidade, é um instrumento de poder e isso desde as origens do homem. Uma imagem, um guia de ação, que tomou as mais diversas formas. Até fizemos da imagem um objeto em si e adquirimos, com o tempo, o hábito de agir mais sobre as imagens, simulacros dos objetos, do que sobre os próprios objetos. Poderíamos imaginar o estudo dos sistemas de representação em ligação com as classes que detinham o poder ao longo da história.
RAFFESTIN, C. Por uma geografia do poder. São Paulo: Ática, 1993 (adaptado).
A cartografia moderna, na perspectiva descrita no texto, passou a representar a Terra dando ênfase aos(as):
a) escalas de tamanho grande.
b) áreas de domínio hegemônico.
c) aspectos da teoria geocêntrica.
d) projeções cilíndricas equivalentes.
e) diferenciações de legendas coloridas.

Resolução comentada da questão 47
Matérias necessárias para resolver a questão
Matérias Necessárias para a Solução da Questão: Geografia (Cartografia Temática e Histórica) e Geopolítica (Relações de Poder).
Tema e objetivo geral
Tema/Objetivo Geral: Compreender a cartografia não como uma ciência neutra e exata, mas como uma ferramenta ideológica utilizada para expressar e consolidar o poder de nações e grupos dominantes ao longo da história.
Nível da questão
Nível da Questão:Médio.
Por que Médio? A questão exige uma leitura crítica. O aluno precisa abandonar a ideia de que “mapa é apenas um desenho do chão” e adotar a visão sociológica de que “mapa é um discurso político”. É necessário conectar o conceito abstrato de “imagem como poder” à prática concreta de desenhar fronteiras e impérios.
Gabarito da questão 47: alternativa B
Gabarito:B (áreas de domínio hegemônico).
A alternativa está correta pois, historicamente, a Cartografia Moderna (nascida com as Grandes Navegações e o Colonialismo) serviu para demarcar territórios conquistados, colocar a Europa no centro do mundo (Eurocentrismo) e legitimar a posse de terras, ou seja, destacar a hegemonia.

Passo 1: o que a questão pede (o mapa da mina)
Decodificação do Objetivo:
A questão quer que você identifique qual era a intenção por trás dos mapas feitos na era moderna, segundo o texto.
O texto diz: “A imagem é um instrumento de poder”.
Logo, a pergunta é: O que os donos do poder queriam mostrar nos mapas para provar que eram poderosos?
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine um mapa como uma Selfie no Instagram.
- Quando você tira uma selfie, você escolhe o melhor ângulo, usa filtros e corta o que é feio. Você constrói uma imagem de sucesso.
- Quando um Rei ou um Império desenha um mapa, ele faz a mesma coisa: ele se coloca no centro, desenha suas terras maiores do que são e apaga os inimigos.
- O mapa não é a realidade; é a “selfie” do poder.
Plano de Ataque:
- Interpretar o Texto: O texto diz que imagens são “simulacros” (cópias/invenções) ligadas às classes dominantes.
- Analisar a Cartografia: Para que serviam os mapas antigos? Para guerra, navegação e posse de terra.
- Conectar: O mapa destaca quem manda (Hegemonia).
Passo 2: cartografia e ideologia
Vamos usar o conceito de Ideologia Cartográfica.
Ferramenta 1: A Projeção de Mercator (O Exemplo Clássico)
Criada em 1569 (Cartografia Moderna).
- O que faz: Estica os países do Norte (Europa/EUA) e encolhe os do Sul (África/América do Sul).
- Mensagem Subliminar: “A Europa é gigante e poderosa; o resto é pequeno e colônia.” Isso é uma representação de Hegemonia.
Ferramenta 2: O Conceito de Hegemonia
Significa supremacia, liderança ou domínio de um povo sobre outros. Um mapa hegemônico é aquele que diz “Isso tudo aqui é meu”.
Passo 3: resolução passo a passo (mão na massa)
Vamos dissecar o texto de Raffestin:
- “Toda construção da realidade é um instrumento de poder”: O mapa não é o território. O mapa é uma ferramenta política.
- “Estudo dos sistemas de representação em ligação com as classes que detinham o poder”: Quem tinha o poder na modernidade? As metrópoles europeias (Portugal, Espanha, Inglaterra).
- A Consequência: Se o mapa serve ao poderoso, o que ele destaca?
- Destaca o tamanho do papel? (Não).
- Destaca a beleza das cores? (Não).
- Destaca as terras que ele domina. Ele pinta o mapa com a cor do seu império.

O Mundo Segundo os Poderosos: A Ilusão de Mercator.
A imagem satiriza a Projeção de Mercator, criada na época das Grandes Navegações. Note como a Europa e a América do Norte aparecem maiores, sugerindo superioridade e poder, enquanto o Sul Global (África e América do Sul) é visualmente diminuído. Isso exemplifica como a cartografia pode ser manipulada para reforçar a hegemonia geopolítica.
Síntese do Detetive:
A Cartografia Moderna não estava preocupada em ser “justa” ou “bonita”, mas em mostrar quem mandava no mundo.
Expectativa: Procurar a alternativa que fale sobre poder, domínio, império ou controle.
Passo 4: alternativas comentadas (a autópsia)
- A) escalas de tamanho grande.
- Diagnóstico do Erro: 🔴 INCORRETA. Escala grande (muito zoom/detalhe) ou pequena (pouco zoom/mundo todo) são escolhas técnicas, dependendo se você quer ver uma rua ou um continente. Não é isso que define o poder político do mapa em si.
- Conclusão: Foco técnico irrelevante.
- B) áreas de domínio hegemônico.
- Análise: 🟢 CORRETA. A “Hegemonia” refere-se ao poder dominante. A cartografia moderna (especialmente a colonial) focava em delimitar fronteiras, posses e zonas de influência das potências europeias, visualizando o seu poder sobre o globo.
- Conclusão: Gabarito.
- C) aspectos da teoria geocêntrica.
- Diagnóstico do Erro: 🔴 INCORRETA. A teoria Geocêntrica (Terra no centro do universo) é medieval e antiga. A Cartografia Moderna surge justamente com o Renascimento e a aceitação do Heliocentrismo. Além disso, isso é astronomia, não geopolítica de poder terrestre.
- Conclusão: Erro histórico.
- D) projeções cilíndricas equivalentes.
- Diagnóstico do Erro: 🟡 DISTRATOR (Conceito Técnico). Projeções cilíndricas (como a de Peters) que são equivalentes (mantêm o tamanho real das áreas) surgiram mais tarde justamente para criticar o poder europeu. A cartografia do poder tradicional usava projeções conformes (como Mercator), que distorciam tamanhos para favorecer a Europa.
- Conclusão: Termo técnico mal aplicado.
- E) diferenciações de legendas coloridas.
- Diagnóstico do Erro: 🔴 INCORRETA. Legendas e cores são recursos estéticos e técnicos. Embora usados para diferenciar países, o texto de Raffestin é profundo/filosófico (“instrumento de poder”), não sobre design gráfico básico.
- Conclusão: Superficialidade.
Passo 5: resumo e aprendizagem expandida
Frase de Fechamento:
A cartografia nunca é neutra; ao longo da história moderna, ela funcionou como uma tecnologia de poder utilizada pelas nações centrais para demarcar, visualizar e legitimar suas áreas de influência e domínio hegemônico sobre os territórios colonizados.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
“O Mapa-Múndi na parede da escola não é uma foto da Terra; é um quadro pintado pelo vencedor da guerra.”
🧠 Para ir Além (História da Arte/Cinema):
Já viu o filme de Charlie Chaplin, “O Grande Ditador”? Tem uma cena famosa onde ele brinca com um globo terrestre inflável.
Aquilo é a representação perfeita do texto: o ditador não vê o mundo real, ele vê uma imagem (o globo) que ele pode manipular, chutar e dominar. A imagem substitui a realidade.
Resolução elaborada por
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