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Questão 47 caderno azul do ENEM 2022 PPL – Dia 1

Há quinze anos, a média de cana cortada era de seis toneladas por trabalhador por dia. Hoje, os trabalhadores cortam dez toneladas. Intensificou-se o ritmo da jornada de trabalho para que o trabalhador seja competitivo. A referência dele passou a ser a máquina. As usinas, para terem um trabalhador com esse perfil, não podem tratar–lhes como os migrantes de antigamente. Ele precisa de uma comida especial. Então, melhorou o padrão de alimentação. Precisa de descanso especial, por isso os alojamentos foram melhorados.

O paradoxo no mundo do trabalho. Disponível em: http://amaivos.uol.com.br.
Acesso em: 19 maio 2013 (adaptado).

Na perspectiva apresentada no texto, as melhorias das condições de vida do trabalhador são explicadas pelo(a)

A) distribuição equitativa de terras.

B) incremento da oferta de emprego.

C) demanda de elevada qualificação.

D) exigência crescente de produtividade.

E) aperfeiçoamento do marco normativo.

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Sociologia (Mundo do Trabalho e Modos de Produção)
    • Geografia (Modernização da Agricultura)
    • Interpretação de Texto (Relação de Causa e Consequência)
  • Tema/Objetivo Geral: Identificar a lógica capitalista por trás da modernização das relações de trabalho no campo, onde a melhoria nas condições de vida é um instrumento para alcançar metas econômicas, e não um fim social em si.
  • Nível da Questão: Médio.
    • A questão exige leitura crítica. O aluno pode se deixar levar pela ideia positiva de “melhores condições” e associar isso a direitos trabalhistas ou leis (Alternativa E), falhando em perceber que o texto apresenta essas melhorias como requisitos técnicos para a exploração máxima da força de trabalho.
  • Gabarito: D
    • A alternativa está correta. O texto estabelece um vínculo direto: para que o trabalhador corte 10 toneladas (em vez de 6), ele precisa de “comida especial” e “descanso”. A melhoria é o combustível necessário para atingir a exigência crescente de produtividade.

PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: A missão é ler o texto e descobrir a motivação real por trás da bondade das usinas. Por que elas estão dando comida melhor e camas melhores para os cortadores de cana? É porque elas são boazinhas, porque a lei mandou ou porque elas precisam que esses homens trabalhem como robôs?

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine um carro de Fórmula 1. Você coloca a gasolina mais cara e pneus de alta tecnologia nele. Você faz isso porque ama o carro e quer que ele se sinta feliz? Não. Você faz isso porque quer que ele corra a 300 km/h e ganhe a corrida. Se você colocar gasolina ruim, ele quebra. No texto, o trabalhador é o carro. A “comida especial” é a gasolina aditivada. A meta é cortar 10 toneladas. A melhoria das condições é apenas manutenção da máquina humana para que ela não pife no meio do serviço.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Comparar os Números: Observar o salto de 6 para 10 toneladas (aumento de meta).
  • Identificar a Causa: O texto diz “para que o trabalhador seja competitivo”.
  • Identificar o Meio: Para ser competitivo, ele precisa de “comida especial”.
  • Concluir: A melhoria serve à produtividade.

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para mapear essa lógica, usaremos um Fluxograma de Causalidade.

FLUXOGRAMA: A LÓGICA DO LUCRO

  • A Meta (O Fim):
    • Aumentar a produção de 6 para 10 toneladas.
    • Tornar o trabalhador “competitivo” (igualar à máquina).
    ⬇️ (O Obstáculo Físico)
  • O Limite Humano:
    • Um corpo mal alimentado não aguenta esse ritmo intenso.
    • Um corpo cansado produz menos.
    ⬇️ (A Solução Estratégica)
  • O Investimento (O Meio):
    • Melhorar a comida (Combustível).
    • Melhorar o alojamento (Recarga de bateria).
    ⬇️ (A Conclusão)
  • Resultado:
    • As melhorias existem por causa da Exigência de Produtividade.

Conclusão da Ferramenta: As condições de vida não são um direito conquistado aqui, são um insumo de produção.


PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos rastrear o argumento no texto.

  • O Cenário de Pressão: O texto começa com dados: a produção quase dobrou (6 para 10). Isso significa que o esforço físico aumentou brutalmente.
  • A Desumanização: O texto diz: “A referência dele passou a ser a máquina”. Isso é crucial. A máquina não para, não reclama e não adoece (se tiver manutenção). O homem precisa tentar imitar isso.
  • A Troca:“As usinas, para terem um trabalhador com esse perfil… precisam de uma comida especial”.
    • Note a conjunção “para”: indica finalidade. A finalidade da comida boa é ter o trabalhador do perfil “máquina”.
    • Não é uma questão de lei ou de bondade (“migrantes de antigamente” eram maltratados porque a meta era menor). Agora que a meta subiu, o tratamento subiu junto para garantir a entrega.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨

A armadilha mais perigosa aqui é a alternativa E (aperfeiçoamento do marco normativo). Ao ler sobre melhorias em alimentação e alojamento, o aluno imediatamente pensa em “Direitos Trabalhistas”, “Ministério do Trabalho” ou “Leis”. É um pensamento lógico no mundo real, mas no texto não há menção a leis, sindicatos ou normas obrigatórias. O texto justifica as melhorias estritamente pela necessidade técnica de “ter um trabalhador com esse perfil” competitivo. O motor da mudança foi a eficiência econômica, não a pressão legislativa. Atenha-se ao que o texto diz, não ao que você sabe sobre leis trabalhistas.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O aumento das metas de produção (produtividade) exigiu um corpo mais forte e descansado. Portanto, as melhorias nas condições de vida foram a estratégia adotada para viabilizar essa exploração intensiva.
  • Expectativa: Uma alternativa que fale sobre “produção”, “eficiência”, “metas” ou “produtividade”.

PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) distribuição equitativa de terras.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Alucinação Temática. O texto fala de trabalhadores assalariados (cortadores) em usinas, não de pequenos agricultores ou reforma agrária. Não há menção a eles ganharem terras.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

B) incremento da oferta de emprego.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Econômica. Geralmente, quando a produtividade individual aumenta (cada um corta mais), a empresa precisa de menos trabalhadores para fazer a mesma tarefa, não mais. O texto foca na qualidade do trabalho, não na quantidade de vagas.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

C) demanda de elevada qualificação.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Confusão de Conceitos. Cortar cana exige força física, resistência e técnica, mas não é considerado trabalho de “elevada qualificação” (que geralmente implica ensino superior ou técnico complexo). O perfil exigido é físico (“competitivo” como máquina), não intelectual.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

D) exigência crescente de produtividade.

  • Análise de Correspondência: Perfeita. “Exigência crescente” traduz o salto de 6 para 10 toneladas. “Produtividade” é fazer mais em menos tempo. As melhorias são explicadas como suporte para essa nova demanda.
  • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

E) aperfeiçoamento do marco normativo.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Extrapolação. Como visto na armadilha, o texto não cita leis (marco normativo) como a causa. A causa é interna (a necessidade da usina), não externa (o Estado obrigando).
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa D é a correta. No capitalismo moderno, o bem-estar do trabalhador muitas vezes é calculado em uma planilha de Excel: quanto custa mantê-lo saudável versus quanto ele rende a mais por isso.

Resumo-flash (A Imagem Mental): O cortador de cana virou um atleta de alta performance: precisa de dieta especial para bater o recorde da empresa.

Para ir Além (A Ponte para o Futuro): Esse fenômeno é estudado na Sociologia do Trabalho sob a ótica do Taylorismo/Fordismo e, mais recentemente, do Toyotismo. A ideia de “corpo produtivo” (Bio-poder, segundo Foucault) mostra que as empresas gerenciam a vida biológica dos funcionários (sono, comida, saúde) para otimizar o lucro. Hoje, isso se vê em empresas de tecnologia que oferecem comida gourmet e salas de soneca não por bondade, mas para que o programador fique mais tempo no escritório produzindo.

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