São Paulo vai se recensear. O governo quer saber quantas pessoas governa. A indagação atingirá a fauna e a flora domesticadas. Bois, mulheres e algodoeiros serão reduzidos a números e invertidos em estatísticas. O homem do censo entrará pelos bangalôs, pelas pensões, pelas casas de barro e de cimento armado, pelo sobradinho e pelo apartamento, pelo cortiço e pelo hotel, perguntando:
— Quantos são aqui?
Pergunta triste, de resto. Um homem dirá:
— Aqui havia mulheres e criancinhas. Agora, felizmente, só há pulgas e ratos.
E outro:
— Amigo, tenho aqui esta mulher, este papagaio, esta sogra e algumas baratas. Tome nota dos seus nomes, se quiser. Querendo levar todos, é favor… (…)
E outro:
— Dois, cidadão, somos dois. Naturalmente o sr. não a vê. Mas ela está aqui, está, está! A sua saudade jamais sairá de meu quarto e de meu peito!
Rubem Braga. Para gostar de ler. v. 3. São Paulo: Ática, 1998, p. 32-3 (fragmento).
O fragmento acima, em que há referência a um fato sócio-histórico — o recenseamento —, apresenta característica marcante do gênero crônica ao
a) expressar o tema de forma abstrata, evocando imagens e buscando apresentar a idéia de uma coisa por meio de outra.
b) manter-se fiel aos acontecimentos, retratando os personagens em um só tempo e um só espaço.
c) contar história centrada na solução de um enigma, construindo os personagens psicologicamente e revelando-os pouco a pouco.
d) evocar, de maneira satírica, a vida na cidade, visando transmitir ensinamentos práticos do cotidiano, para manter as pessoas informadas.
e) valer-se de tema do cotidiano como ponto de partida para a construção de texto que recebe tratamento estético.

- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Interpretação de Textos Literários
- Gêneros Literários (Características da Crônica)
- Figuras de Linguagem (Ironia, Metáfora)
- Tema/Objetivo Geral: Identificar as características estruturais e estilísticas do gênero crônica a partir da análise de um fragmento de texto.
- Nível da Questão: Médio.
- Detalhe: A questão é classificada como média porque exige mais do que uma simples leitura. O candidato precisa ter um conhecimento prévio do que define o gênero crônica para conseguir reconhecer seus traços no texto e diferenciá-lo de outros gêneros narrativos, como o conto ou a reportagem.
- Gabarito:Letra E
- Explicação: A alternativa descreve perfeitamente o modus operandi da crônica: pegar um evento banal do dia a dia (o recenseamento) e usá-lo como um trampolim para uma reflexão mais profunda, com linguagem elaborada e poética (tratamento estético).
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
- Decodificação do Objetivo: A missão é ler o texto de Rubem Braga sobre um censo e identificar qual das cinco alternativas descreve a “fórmula secreta” que o autor usa, uma fórmula que é a marca registrada do gênero crônica.
- Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense em um fotógrafo. Um fotojornalista tiraria uma foto clara e objetiva do recenseador fazendo seu trabalho. Um artista (como Rubem Braga) usaria o mesmo evento para criar uma foto cheia de sombras, ângulos e emoção, que fala não apenas sobre o censo, mas sobre solidão, amor e o que significa ser humano. O verdadeiro desafio aqui é identificar a alternativa que descreve essa transformação de um fato comum em arte.
- Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Identificar o Ponto de Partida: Qual é o fato real, do dia a dia, que ancora o texto?
- Identificar o Tratamento Artístico: Como o autor transforma esse fato? Que tipo de linguagem, diálogos e reflexões ele adiciona?
- Encontrar a “Receita”: Qual alternativa descreve corretamente essa mistura de “fato real” com “toque artístico”?
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para entender a “fórmula secreta”, precisamos do dossiê completo do gênero em questão.
- DOSSIÊ DO GÊNERO: A Crônica
- Matéria-Prima: O cotidiano. Um evento banal, uma notícia de jornal, uma observação na rua (no nosso caso, o recenseamento).
- Ferramenta Principal: O olhar do cronista. É um texto pessoal, subjetivo, opinativo e, muitas vezes, confessional.
- Técnica de Construção: Tratamento literário/estético. O autor usa a linguagem de forma poética, irônica, humorística ou melancólica para dar uma nova dimensão ao fato.
- Objetivo: Não é apenas informar, mas provocar reflexão, emoção e entretenimento a partir de algo que, à primeira vista, não teria nada de especial. É a arte de ver o extraordinário no ordinário.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Agora, vamos aplicar nosso dossiê ao texto de Rubem Braga.
- Execução do Plano:
- Ponto de Partida (O Cotidiano): O texto começa com um fato claro e objetivo: “São Paulo vai se recensear. O governo quer saber quantas pessoas governa.” Este é o gancho com a realidade.
- Tratamento Artístico (A Mágica do Cronista): Braga imediatamente abandona o tom jornalístico e começa a “embelezar” o fato com sua visão crítica e poética.
- Dehumanização Irônica: Ele diz que “Bois, mulheres e algodoeiros serão reduzidos a números”, misturando seres humanos com animais e plantas para criticar a frieza da estatística.
- Diálogos Fictícios e Emotivos: Ele inventa respostas para a pergunta “Quantos são aqui?”. Essas respostas transformam a contagem em drama humano:
- Tragédia: “Aqui havia mulheres e criancinhas. Agora, felizmente, só há pulgas e ratos.”
- Humor: “Amigo, tenho aqui esta mulher, este papagaio, esta sogra e algumas baratas.”
- Lirismo: “Dois, cidadão, somos dois […] A sua saudade jamais sairá de meu quarto e de meu peito!”
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O erro mais comum é confundir crônica com reportagem ou com conto. Uma reportagem (Alternativa B) se manteria fiel aos fatos, descrevendo o censo objetivamente. Um conto (Alternativa C) provavelmente criaria uma trama com enigma e desenvolvimento de personagens, sem necessariamente partir de um evento real e imediato. A crônica vive nesse espaço mágico entre os dois.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O texto pega um fato do cotidiano (o censo) e o utiliza como pretexto para criar um mosaico de reflexões e emoções humanas, usando uma linguagem altamente literária e subjetiva.
- Expectativa: A alternativa correta deve, obrigatoriamente, mencionar essa dualidade: partir de um tema do cotidiano para uma construção estética/literária.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos interrogar cada alternativa.
- Alternativa A: expressar o tema de forma abstrata, evocando imagens e buscando apresentar a ideia de uma coisa por meio de outra.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato foca apenas no aspecto metafórico.
- O “Diagnóstico do Erro”: Incompleto. Embora use metáforas, o texto não é “abstrato”; ele parte de algo muito concreto. A alternativa ignora o ponto de partida do cotidiano.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- Alternativa B: manter-se fiel aos acontecimentos, retratando os personagens em um só tempo e um só espaço.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato confunde crônica com jornalismo.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O autor claramente inventa diálogos e não se mantém “fiel aos acontecimentos” de forma documental.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- Alternativa C: contar história centrada na solução de um enigma, construindo os personagens psicologicamente e revelando-os pouco a pouco.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato confunde crônica com conto ou romance.
- O “Diagnóstico do Erro”: Confusão de Gênero Textual. O texto não tem uma trama, um enigma ou um desenvolvimento psicológico profundo dos personagens. Ele apresenta flashes, fragmentos.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- Alternativa D: evocar, de maneira satírica, a vida na cidade, visando transmitir ensinamentos práticos do cotidiano, para manter as pessoas informadas.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato foca na ironia e no objetivo de informar.
- O “Diagnóstico do Erro”: Descrever o Meio, não o Fim. Há sátira, mas o objetivo final não é “transmitir ensinamentos práticos” ou “informar” (isso seria papel do jornalismo). O objetivo é estético e reflexivo.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- Alternativa E: valer-se de tema do cotidiano como ponto de partida para a construção de texto que recebe tratamento estético.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa “Expectativa” e a definição perfeita do que Braga faz. “Tema do cotidiano” = o censo. “Ponto de partida” = o gancho. “Construção de texto que recebe tratamento estético” = a linguagem poética, os diálogos inventados, a reflexão. Bingo.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
- Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa E é a correta, pois ela captura com precisão a essência do gênero crônica: a alquimia de transformar o chumbo do cotidiano no ouro da literatura.
- Resumo-flash (A Imagem Mental): “A crônica é o poema que um jornalista escreveria sobre a notícia de ontem.”
- 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): A técnica da crônica de encontrar o universal no particular tem um paralelo direto com o método de estudo de caso na Psicologia e no Direito. Um psicólogo pode analisar a história de um único paciente (o “cotidiano”) para extrair insights sobre a condição humana em geral (o “tratamento estético”/analítico). Da mesma forma, um advogado pode usar os detalhes de um único caso judicial para estabelecer um precedente que se aplicará a muitos outros. Em todos esses campos, um pequeno evento do dia a dia se torna a lente através da qual examinamos grandes verdades.