15% off para você conhecer a Plataforma Assaad

Didática mágica, resultados garantidos. Aproveite mais de 15% de desconto na Plataforma Assaad e garanta sua aprovação em Medicina ainda em 2025.

Questão 44, caderno azul do ENEM 2020 DIGITAL

Dias depois da morte de D. Mariquinha, Seu Lula, todo de luto, reuniu os negros no pátio
da casa-grande e falou para eles. A voz não era mais aquela voz mansa de outros tempos.
Agora Seu Lula era o dono de tudo. O feitor, o negro Deodato, recebera as suas instruções
aos gritos. Seu Lula não queria vadiação naquele engenho. Agora, todas as tardes, os negros
teriam que rezar as ave-marias. Negro não podia mais andar de reza para S. Cosme e S.
Damião. Aquilo era feitiçaria. […]

E o feitor Deodato, com a proteção do senhor, começou a tratar a escravatura como um
carrasco. O chicote cantava no lombo dos negros, sem piedade. Todos os dias chegavam
negros chorando aos pés de D. Amélia, pedindo valia, proteção contra o chicote do Deodato. A
fama da maldade do feitor espalhara-se pela várzea. O senhor de engenho do Santa Fé tinha
um escravo que matava negro na peia. […] E o Santa Fé foi ficando assim o engenho sinistro
da várzea.

RÊGO, J. L. Fogo morto. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.

A condição dos trabalhadores escravizados do Santa Fé torna-se exponencialmente aflitiva após a morte da senhora do engenho. Nessa passagem, o sofrimento a que se submetem é intensificado pela reação à:

A) mania do novo senhor de se dirigir a eles aos gritos.

B) saudade do afeto antes dispensado por D. Mariquinha.

C) privação sumária de suas crenças e práticas ritualísticas.

D) inércia moral de D. Amélia ante as imposições do marido.

E) reputação do Santa Fé de lugar funesto a seus moradores.

Resolução em Texto

📚 Matórias Necessárias para a Solução da Questão

  • Literatura Brasileira (Modernismo – Romance Regionalista de 30)
  • Interpretação de Texto Literário
  • História do Brasil (Relações Sociais no Período da Escravidão)

🎯 Tema/Objetivo Geral: Analisar um trecho do romance “Fogo Morto” para identificar qual das novas imposições do senhor de engenho, após a morte de sua esposa, intensifica o sofrimento dos escravizados.

📊 Nível da Questão: Médio.
Por quê? A questão exige uma leitura atenta para diferenciar os vários tipos de violência (física, verbal, psicológica, cultural) descritos no texto. O aluno precisa identificar qual das alternativas aponta para uma opressão específica que, somada à violência física do chicote, agrava a condição dos escravizados.

✅ Gabarito: Alternativa C.
Resumo: O texto descreve uma mudança drástica no engenho após a morte de D. Mariquinha. O novo senhor, Seu Lula, impõe uma nova ordem. Além da intensificação da violência física (“o chicote cantava”), ele ataca diretamente a cultura e a religiosidade dos escravizados: “Negro não podia mais andar de reza para S. Cosme e S. Damião. Aquilo era feitiçaria”. Essa privação de suas crenças e práticas ritualísticas representa uma violência cultural e espiritual que, somada à violência física, intensifica o sofrimento e a opressão.


Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

Transcrição Essencial 📌
“Nessa passagem, o sofrimento a que se submetem [os trabalhadores escravizados] é intensificado pela reação à…”

O que está sendo pedido?
A questão pede para identificarmos qual, entre as ações de Seu Lula, representa uma intensificação do sofrimento dos escravizados, para além da já esperada violência do sistema.

Objetivo Cristalino 💎
Nosso objetivo é ler o texto, listar as novas regras e atitudes de Seu Lula, e encontrar a alternativa que corresponda a uma dessas novas imposições que agravaram a vida dos negros do engenho.

🧠 O sofrimento dos escravizados era apenas físico? Ou a proibição de suas práticas culturais e religiosas também era uma forma de violência e opressão?


Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessários

Definição de Termos 🔖

  • “Fogo Morto” (José Lins do Rego): É um dos principais romances do ciclo da cana-de-açúcar, parte do Romance Regionalista de 30. A obra retrata a decadência dos engenhos de açúcar no Nordeste, com foco nas complexas e violentas relações sociais entre senhores, feitores e escravizados (ou ex-escravizados, dependendo do período).
  • Violência Simbólica/Cultural: Além da violência física (castigos, trabalho forçado), a escravidão se mantinha por meio da violência simbólica, que consiste na imposição dos valores, da cultura e da religião do dominador e na supressão e desvalorização da cultura do dominado.
  • Sincretismo Religioso: A fusão de diferentes crenças e práticas religiosas. No Brasil, o culto a São Cosme e São Damião foi sincretizado com as divindades Ibejis do candomblé. A “reza para S. Cosme e S. Damião” mencionada no texto era uma prática cultural e religiosa importante para as populações afro-brasileiras.

Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

Contextualização Simplificada 💬
O texto nos mostra a vida no engenho Santa Fé piorando muito depois que a “patroa boazinha” (D. Mariquinha) morre. O novo chefe, Seu Lula, resolve “colocar ordem na casa” de um jeito brutal. O texto lista as novas regras e a nova atmosfera:

  1. Violência verbal: Ele agora grita com todo mundo.
  2. Violência física: Ele manda o feitor Deodato usar o chicote sem piedade.
  3. Violência cultural/religiosa: Ele impõe a reza católica (ave-marias) e proíbe as rezas populares dos negros (para S. Cosme e S. Damião), chamando-as de “feitiçaria”.
    A pergunta é: qual dessas novas formas de opressão é destacada como um fator que intensifica o sofrimento?

Estratéia Geral 🗺️
Vamos analisar a lista de novas imposições de Seu Lula no primeiro parágrafo e procurar a alternativa que corresponda a uma delas.


Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

Passo a Passo Detalhado 👣

  1. Identificar a Mudança: A morte de D. Mariquinha marca uma virada. A “voz mansa” de Seu Lula desaparece. Ele se torna o “dono de tudo” de forma autoritária.
  2. Listar as Novas Imposições: O texto descreve as novas ordens de Seu Lula:
    • Fim da “vadiação”.
    • Obrigação de rezar as ave-marias (imposição da religião do senhor).
    • Proibição das rezas para S. Cosme e S. Damião, consideradas “feitiçaria”.
  3. Analisar a Intensificação do Sofrimento: A violência física, simbolizada pelo chicote, é uma constante na escravidão. O que o texto mostra como novo e intensificador do sofrimento é a combinação dessa violência física com uma nova violência cultural. Ao proibir as práticas religiosas dos escravizados, Seu Lula ataca não apenas seus corpos, mas também sua identidade, sua fé e suas formas de resistência cultural e de alívio espiritual.
  4. Conclusão: A privação das crenças e práticas ritualísticas (“reza para S. Cosme e S. Damião”) é uma nova e cruel forma de opressão que se soma à violência física, intensificando o sofrimento dos escravizados.

A Armadilha Comum 🚨
As alternativas A, D e E descrevem aspectos do sofrimento, mas não o ponto central da nova ordem imposta. A mania de gritar (A) é um sintoma do autoritarismo, mas a proibição religiosa é uma ação concreta e profunda. A inércia de D. Amélia (D) é um fator que permite o sofrimento, mas não é a causa direta da intensificação. A reputação do engenho (E) é uma consequência do que acontece lá. A alternativa C aponta para uma ação específica de opressão cultural que foi implementada.

Fechamento e Expectativa
A análise nos leva a procurar a alternativa que trata da supressão da religiosidade dos escravizados.


Passo 5: Análise das Alternativas

🔴 A) mania do novo senhor de se dirigir a eles aos gritos.
Incorreta. Embora os gritos sejam uma manifestação do novo autoritarismo, a proibição das práticas culturais é uma forma de opressão muito mais estrutural e profunda descrita no texto.

🔴 B) saudade do afeto antes dispensado por D. Mariquinha.
Incorreta. O texto não afirma que D. Mariquinha dispensava “afeto”. Ele apenas diz que, após sua morte, a situação piorou drasticamente, o que não implica necessariamente que antes era bom. A saudade não é a causa da intensificação do sofrimento, mas sim o novo regime de terror.

🟢 C) privação sumária de suas crenças e práticas ritualísticas.
Correta. O texto é explícito ao narrar a proibição das rezas para S. Cosme e S. Damião, classificadas como “feitiçaria”. Essa supressão da cultura e da religiosidade dos escravizados é uma forma de violência que se soma à física, intensificando a opressão.

🔴 D) inércia moral de D. Amélia ante as imposições do marido.
Incorreta. O texto menciona que os negros pediam ajuda a D. Amélia, mas o foco da questão é a causa da intensificação do sofrimento, que são as ações de Seu Lula e do feitor, e não a omissão de D. Amélia.

🔴 E) reputação do Santa Fé de lugar funesto a seus moradores.
Incorreta. A reputação (“o engenho sinistro”) é o resultado, a consequência das maldades que ocorrem lá, e não a causa da intensificação do sofrimento.


Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

Resumo do Raciocínio 📝
O trecho de “Fogo Morto” descreve como, após a morte da matriarca, o senhor do engenho, Seu Lula, institui um novo regime de terror. Além da intensificação da violência física, através do chicote do feitor Deodato, o narrador destaca uma nova forma de opressão: a violência cultural. Seu Lula proíbe as práticas religiosas dos escravizados (“reza para S. Cosme e S. Damião”), rotulando-as de “feitiçaria” e impondo em seu lugar os rituais católicos. Essa privação das crenças e rituais, que eram uma fonte de identidade e resistência, intensifica a condição de sofrimento dos trabalhadores.

Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a C.

Resumo Final para Revisão 🔍
Lembre-se que a opressão da escravidão não era apenas física. Atacar a cultura, a religião e a identidade de um povo (violência simbólica) era uma ferramenta de dominação tão ou mais poderosa que o chicote.

Encontrou algum erro?

Clique no botão abaixo e reporte para os nossos corretores.