Dias depois da morte de D. Mariquinha, Seu Lula, todo de luto, reuniu os negros no pátio
da casa-grande e falou para eles. A voz não era mais aquela voz mansa de outros tempos.
Agora Seu Lula era o dono de tudo. O feitor, o negro Deodato, recebera as suas instruções
aos gritos. Seu Lula não queria vadiação naquele engenho. Agora, todas as tardes, os negros
teriam que rezar as ave-marias. Negro não podia mais andar de reza para S. Cosme e S.
Damião. Aquilo era feitiçaria. […]
E o feitor Deodato, com a proteção do senhor, começou a tratar a escravatura como um
carrasco. O chicote cantava no lombo dos negros, sem piedade. Todos os dias chegavam
negros chorando aos pés de D. Amélia, pedindo valia, proteção contra o chicote do Deodato. A
fama da maldade do feitor espalhara-se pela várzea. O senhor de engenho do Santa Fé tinha
um escravo que matava negro na peia. […] E o Santa Fé foi ficando assim o engenho sinistro
da várzea.
RÊGO, J. L. Fogo morto. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.
A condição dos trabalhadores escravizados do Santa Fé torna-se exponencialmente aflitiva após a morte da senhora do engenho. Nessa passagem, o sofrimento a que se submetem é intensificado pela reação à:
A) mania do novo senhor de se dirigir a eles aos gritos.
B) saudade do afeto antes dispensado por D. Mariquinha.
C) privação sumária de suas crenças e práticas ritualísticas.
D) inércia moral de D. Amélia ante as imposições do marido.
E) reputação do Santa Fé de lugar funesto a seus moradores.

Resolução em Texto
📚 Matórias Necessárias para a Solução da Questão
- Literatura Brasileira (Modernismo – Romance Regionalista de 30)
- Interpretação de Texto Literário
- História do Brasil (Relações Sociais no Período da Escravidão)
🎯 Tema/Objetivo Geral: Analisar um trecho do romance “Fogo Morto” para identificar qual das novas imposições do senhor de engenho, após a morte de sua esposa, intensifica o sofrimento dos escravizados.
📊 Nível da Questão: Médio.
Por quê? A questão exige uma leitura atenta para diferenciar os vários tipos de violência (física, verbal, psicológica, cultural) descritos no texto. O aluno precisa identificar qual das alternativas aponta para uma opressão específica que, somada à violência física do chicote, agrava a condição dos escravizados.
✅ Gabarito: Alternativa C.
Resumo: O texto descreve uma mudança drástica no engenho após a morte de D. Mariquinha. O novo senhor, Seu Lula, impõe uma nova ordem. Além da intensificação da violência física (“o chicote cantava”), ele ataca diretamente a cultura e a religiosidade dos escravizados: “Negro não podia mais andar de reza para S. Cosme e S. Damião. Aquilo era feitiçaria”. Essa privação de suas crenças e práticas ritualísticas representa uma violência cultural e espiritual que, somada à violência física, intensifica o sofrimento e a opressão.
Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
Transcrição Essencial 📌
“Nessa passagem, o sofrimento a que se submetem [os trabalhadores escravizados] é intensificado pela reação à…”
O que está sendo pedido?
A questão pede para identificarmos qual, entre as ações de Seu Lula, representa uma intensificação do sofrimento dos escravizados, para além da já esperada violência do sistema.
Objetivo Cristalino 💎
Nosso objetivo é ler o texto, listar as novas regras e atitudes de Seu Lula, e encontrar a alternativa que corresponda a uma dessas novas imposições que agravaram a vida dos negros do engenho.
🧠 O sofrimento dos escravizados era apenas físico? Ou a proibição de suas práticas culturais e religiosas também era uma forma de violência e opressão?
Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessários
Definição de Termos 🔖
- “Fogo Morto” (José Lins do Rego): É um dos principais romances do ciclo da cana-de-açúcar, parte do Romance Regionalista de 30. A obra retrata a decadência dos engenhos de açúcar no Nordeste, com foco nas complexas e violentas relações sociais entre senhores, feitores e escravizados (ou ex-escravizados, dependendo do período).
- Violência Simbólica/Cultural: Além da violência física (castigos, trabalho forçado), a escravidão se mantinha por meio da violência simbólica, que consiste na imposição dos valores, da cultura e da religião do dominador e na supressão e desvalorização da cultura do dominado.
- Sincretismo Religioso: A fusão de diferentes crenças e práticas religiosas. No Brasil, o culto a São Cosme e São Damião foi sincretizado com as divindades Ibejis do candomblé. A “reza para S. Cosme e S. Damião” mencionada no texto era uma prática cultural e religiosa importante para as populações afro-brasileiras.
Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
Contextualização Simplificada 💬
O texto nos mostra a vida no engenho Santa Fé piorando muito depois que a “patroa boazinha” (D. Mariquinha) morre. O novo chefe, Seu Lula, resolve “colocar ordem na casa” de um jeito brutal. O texto lista as novas regras e a nova atmosfera:
- Violência verbal: Ele agora grita com todo mundo.
- Violência física: Ele manda o feitor Deodato usar o chicote sem piedade.
- Violência cultural/religiosa: Ele impõe a reza católica (ave-marias) e proíbe as rezas populares dos negros (para S. Cosme e S. Damião), chamando-as de “feitiçaria”.
A pergunta é: qual dessas novas formas de opressão é destacada como um fator que intensifica o sofrimento?
Estratéia Geral 🗺️
Vamos analisar a lista de novas imposições de Seu Lula no primeiro parágrafo e procurar a alternativa que corresponda a uma delas.
Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
Passo a Passo Detalhado 👣
- Identificar a Mudança: A morte de D. Mariquinha marca uma virada. A “voz mansa” de Seu Lula desaparece. Ele se torna o “dono de tudo” de forma autoritária.
- Listar as Novas Imposições: O texto descreve as novas ordens de Seu Lula:
- Fim da “vadiação”.
- Obrigação de rezar as ave-marias (imposição da religião do senhor).
- Proibição das rezas para S. Cosme e S. Damião, consideradas “feitiçaria”.
- Analisar a Intensificação do Sofrimento: A violência física, simbolizada pelo chicote, é uma constante na escravidão. O que o texto mostra como novo e intensificador do sofrimento é a combinação dessa violência física com uma nova violência cultural. Ao proibir as práticas religiosas dos escravizados, Seu Lula ataca não apenas seus corpos, mas também sua identidade, sua fé e suas formas de resistência cultural e de alívio espiritual.
- Conclusão: A privação das crenças e práticas ritualísticas (“reza para S. Cosme e S. Damião”) é uma nova e cruel forma de opressão que se soma à violência física, intensificando o sofrimento dos escravizados.
A Armadilha Comum 🚨
As alternativas A, D e E descrevem aspectos do sofrimento, mas não o ponto central da nova ordem imposta. A mania de gritar (A) é um sintoma do autoritarismo, mas a proibição religiosa é uma ação concreta e profunda. A inércia de D. Amélia (D) é um fator que permite o sofrimento, mas não é a causa direta da intensificação. A reputação do engenho (E) é uma consequência do que acontece lá. A alternativa C aponta para uma ação específica de opressão cultural que foi implementada.
Fechamento e Expectativa
A análise nos leva a procurar a alternativa que trata da supressão da religiosidade dos escravizados.
Passo 5: Análise das Alternativas
🔴 A) mania do novo senhor de se dirigir a eles aos gritos.
Incorreta. Embora os gritos sejam uma manifestação do novo autoritarismo, a proibição das práticas culturais é uma forma de opressão muito mais estrutural e profunda descrita no texto.
🔴 B) saudade do afeto antes dispensado por D. Mariquinha.
Incorreta. O texto não afirma que D. Mariquinha dispensava “afeto”. Ele apenas diz que, após sua morte, a situação piorou drasticamente, o que não implica necessariamente que antes era bom. A saudade não é a causa da intensificação do sofrimento, mas sim o novo regime de terror.
🟢 C) privação sumária de suas crenças e práticas ritualísticas.
Correta. O texto é explícito ao narrar a proibição das rezas para S. Cosme e S. Damião, classificadas como “feitiçaria”. Essa supressão da cultura e da religiosidade dos escravizados é uma forma de violência que se soma à física, intensificando a opressão.
🔴 D) inércia moral de D. Amélia ante as imposições do marido.
Incorreta. O texto menciona que os negros pediam ajuda a D. Amélia, mas o foco da questão é a causa da intensificação do sofrimento, que são as ações de Seu Lula e do feitor, e não a omissão de D. Amélia.
🔴 E) reputação do Santa Fé de lugar funesto a seus moradores.
Incorreta. A reputação (“o engenho sinistro”) é o resultado, a consequência das maldades que ocorrem lá, e não a causa da intensificação do sofrimento.
Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
Resumo do Raciocínio 📝
O trecho de “Fogo Morto” descreve como, após a morte da matriarca, o senhor do engenho, Seu Lula, institui um novo regime de terror. Além da intensificação da violência física, através do chicote do feitor Deodato, o narrador destaca uma nova forma de opressão: a violência cultural. Seu Lula proíbe as práticas religiosas dos escravizados (“reza para S. Cosme e S. Damião”), rotulando-as de “feitiçaria” e impondo em seu lugar os rituais católicos. Essa privação das crenças e rituais, que eram uma fonte de identidade e resistência, intensifica a condição de sofrimento dos trabalhadores.
Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a C.
Resumo Final para Revisão 🔍
Lembre-se que a opressão da escravidão não era apenas física. Atacar a cultura, a religião e a identidade de um povo (violência simbólica) era uma ferramenta de dominação tão ou mais poderosa que o chicote.