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Questão 40, caderno azul do ENEM 2010

Homens da Inglaterra, por que arar para os senhores que vos mantêm na miséria? Por que tecer com esforços e cuidado as ricas roupas que vossos tiranos vestem? Por que alimentar, vestir e poupar do berço até o túmulo esses parasitas ingratos que exploram vosso suor — ah, que bebem vosso sangue?

SHELLEY. Os homens da Inglaterra. Apud HUBERMAN, L.
História da Riqueza do Homem. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.

A análise do trecho permite identificar que o poeta romântico Shelley (1792-1822) registrou uma contradição nas condições socioeconômicas da nascente classe trabalhadora inglesa durante a Revolução Industrial. Tal contradição está identificada:

A) na pobreza dos empregados, que estava dissociada da riqueza dos patrões.

B) no salário dos operários, que era proporcional aos seus esforços nas indústrias.

C) na burguesia, que tinha seus negócios financiados pelo proletariado.

D) no trabalho, que era considerado uma garantia de liberdade.

E) na riqueza, que não era usufruída por aqueles que a produziam.

Resolução em Texto

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • História (Revolução Industrial, Movimentos Operários)
  • Sociologia (Luta de Classes, Exploração do Trabalho)
  • Literatura (Romantismo Inglês)
  • Interpretação de Texto Poético

🎯 Tema/Objetivo Geral: Análise de um poema de Percy Shelley para identificar a crítica central à exploração da classe trabalhadora durante a Revolução Industrial.

📊 Nível da Questão: Fácil.

  • Por quê? O poema utiliza uma série de perguntas retóricas que expõem de forma muito direta e emocional a contradição central do sistema capitalista industrial: a classe que produz toda a riqueza (comida, roupas, etc.) é a mesma que vive na miséria. A alternativa correta é uma paráfrase direta dessa ideia.

✅ Gabarito: Alternativa E.

  • Resumo: O poema de Shelley questiona por que os trabalhadores ingleses produzem toda a riqueza (aram, tecem, alimentam) para os “senhores” e “tiranos”, enquanto eles mesmos permanecem na miséria. A contradição fundamental apontada é que a riqueza, fruto do trabalho operário, não é usufruída por aqueles que a produzem, mas sim apropriada pela classe dominante.

Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

Transcrição Essencial 📌
“A análise do trecho permite identificar que o poeta […] registrou uma contradição nas condições socioeconômicas da nascente classe trabalhadora […]. Tal contradição está identificada…”

O que está sendo pedido?
A questão pede para identificarmos qual é a principal contradição (paradoxo, injustiça) da situação dos trabalhadores ingleses que o poema de Shelley denuncia.

Objetivo Cristalino
Nosso objetivo é ler as perguntas retóricas do poema e entender qual é a injustiça fundamental que elas apontam na relação entre trabalhadores e patrões.

🧠 O poeta pergunta: “Por que vocês trabalham tanto para produzir coisas (comida, roupas) que vocês mesmos não podem aproveitar?”. A resposta a essa pergunta é a contradição que estamos procurando.


Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessários

Definição de Termos 🔖

  • Revolução Industrial: Período de grandes transformações na Inglaterra (e depois no mundo) a partir do século XVIII, marcado pela passagem da produção artesanal para a industrial (fábricas).
  • Condições da Classe Trabalhadora (Proletariado): A nascente classe operária industrial vivia em condições de extrema exploração:
    • Jornadas de trabalho exaustivas (14-16 horas por dia).
    • Salários de miséria, insuficientes para a subsistência.
    • Ambientes de trabalho insalubres e perigosos.
    • Moradias precárias em cidades superpovoadas e sem saneamento.
  • Conceito de Mais-Valia (Marx): Embora Shelley seja um romântico pré-marxista, seu poema intui o conceito de mais-valia. A ideia é que o trabalhador, com sua força de trabalho, produz um valor muito maior do que aquele que ele recebe de volta como salário. A diferença entre o valor produzido e o salário pago é o lucro do patrão, que se apropria da riqueza gerada pelo trabalhador.

Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

Contextualização Simplificada 💬
O poeta Shelley está “colocando o dedo na ferida” da sociedade industrial. Ele olha para os trabalhadores e grita:

  • “Vocês plantam a comida, mas passam fome!”
  • “Vocês tecem as roupas chiques, mas andam com farrapos!”
  • “Vocês sustentam os ricos com seu suor e sangue, e eles não fazem nada!”
    A pergunta é: qual a grande injustiça, a grande contradição, nisso tudo?

Estratégia Geral 🗺️
Vamos analisar cada pergunta do poema e ver qual é o padrão que se repete em todas elas.


Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

Passo a Passo Detalhado 👣

  1. Primeira Pergunta: “Por que arar para os senhores que vos mantêm na miséria?”
    • Ação do Trabalhador: Produzir comida (arar).
    • Resultado para o Patrão: Riqueza.
    • Resultado para o Trabalhador: Miséria.
    • Contradição: Quem produz a comida não a tem.
  2. Segunda Pergunta: “Por que tecer […] as ricas roupas que vossos tiranos vestem?”
    • Ação do Trabalhador: Produzir roupas (tecer).
    • Resultado para o Patrão: Roupas ricas.
    • Resultado para o Trabalhador: (implícito) farrapos.
    • Contradição: Quem produz o luxo não o usufrui.
  3. Terceira Pergunta: “Por que alimentar, vestir e poupar […] esses parasitas ingratos que exploram vosso suor […] bebem vosso sangue?”
    • Ação do Trabalhador: Sustentar toda a vida da classe dominante.
    • Resultado para o Patrão: Vida de luxo e ociosidade (“parasitas”).
    • Resultado para o Trabalhador: Exploração extrema (“bebem vosso sangue”).
    • Contradição: Quem gera toda a riqueza vive explorado.
  4. Síntese da Contradição: Em todos os casos, a contradição é a mesma: há uma separação radical entre quem produz a riqueza e quem se apropria dela. A riqueza não fica com quem a produz.

Procuramos a alternativa que expresse essa ideia de que os produtores da riqueza são excluídos de seu usufruto.


Passo 5: Análise das Alternativas

🔴 A) na pobreza dos empregados, que estava dissociada da riqueza dos patrões.
Incorreta. É o oposto. A pobreza dos empregados estava diretamente associada (era a causa) da riqueza dos patrões.

🔴 B) no salário dos operários, que era proporcional aos seus esforços nas indústrias.
Incorreta. O poema denuncia exatamente o contrário: o esforço é enorme, mas o retorno (salário) é a miséria, não há proporcionalidade.

🔴 C) na burguesia, que tinha seus negócios financiados pelo proletariado.
Incorreta. A burguesia era a dona dos meios de produção. O proletariado financiava os negócios com sua força de trabalho (mais-valia), não com dinheiro. A alternativa E é muito mais precisa.

🔴 D) no trabalho, que era considerado uma garantia de liberdade.
Incorreta. O trabalho nas fábricas era visto como uma forma de escravidão assalariada, não como liberdade.

🟢 E) na riqueza, que não era usufruída por aqueles que a produziam.
Correta. Esta alternativa sintetiza perfeitamente a contradição apontada em todas as perguntas do poema. Os trabalhadores (aqueles que a produziam) geravam a riqueza (comida, roupas, etc.), mas essa riqueza era apropriada e usufruída pelos patrões, não por eles.


Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

Resumo do Raciocínio 📝
O poema de Percy Shelley, por meio de uma série de perguntas retóricas, expõe a contradição fundamental da exploração capitalista na Revolução Industrial. Ele questiona por que os trabalhadores, que são os produtores de toda a riqueza da sociedade (alimentos, roupas, etc.), vivem em condições de miséria, enquanto a classe dos proprietários (“senhores”, “tiranos”, “parasitas”) usufrui dessa riqueza sem trabalhar. A contradição central, portanto, reside no fato de que a riqueza não era desfrutada por aqueles que a produziam.

Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a E.

Resumo Final para Revisão
Lembre-se da crítica central ao capitalismo industrial: a separação entre o produtor e o produto de seu trabalho. O trabalhador produz algo que não lhe pertence e cujo valor ele não controla. A riqueza gerada por seu esforço é apropriada pelo dono dos meios de produção. O poema de Shelley é uma expressão artística dessa análise.

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