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Questão 39, caderno branco do ENEM 2011 PPL

Escrevendo em jornais, entrando para a política, fugindo para quilombos, montando pecúlios para comprar alforrias… Os negros brasileiros não esperaram passivamente pela libertação. Em vez disso, lutaram em diversas frentes contra a escravidão, a ponto de conseguir que, à época em que a Lei Áurea foi assinada, apenas uma pequena minoria continuasse formalmente a ser propriedade.

Antes da Lei Áurea. Liberdade Conquistada. Revista Nossa História. Ano 2, nº 19. São Paulo: Vera Cruz, 2005.

No que diz respeito à Abolição, o texto apresenta uma análise historiográfica realizada nas últimas décadas por historiadores, brasileiros e brasilianistas, que se diferencia das análises mais tradicionais. Essa análise recente apresenta a extinção do regime escravista, em grande parte, como resultado:

A) da ação benevolente da Princesa Isabel, que, assessorada por intelectuais e políticos negros, tomou a abolição como uma causa pessoal.

B) da ação da imprensa engajada que, controlada por intelectuais brancos sensíveis à causa da liberdade, levantou a bandeira abolicionista. 

C) das necessidades do capitalismo inglês de substituir o trabalho escravo pelo assalariado, visando ampliar o mercado consumidor no Brasil.

D) da luta dos próprios negros, escravos ou libertos, que empreenderam um conjunto de ações que tornaram o regime escravista incapaz de se sustentar.

E) do espírito humanitário de uma moderna camada proprietária que, influenciada pelo liberalismo, tomou atitudes individuais, libertando seus escravos.

Resolução em Texto

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • História do Brasil (Segundo Reinado, Crise da Escravidão, Movimento Abolicionista)
  • Historiografia (Diferentes interpretações sobre a Abolição)
  • Sociologia (Movimentos Sociais, Protagonismo Negro)

🎯 Tema/Objetivo Geral: Análise de uma nova perspectiva historiográfica sobre o processo de Abolição da Escravidão no Brasil, com foco no protagonismo negro.

📊 Nível da Questão: Médio.

  • Por quê? A questão exige a diferenciação entre a visão “tradicional” da Abolição (focada na Princesa Isabel, nos abolicionistas brancos ou na pressão inglesa) e a visão “recente” (focada na resistência negra). É preciso ter conhecimento dessas diferentes correntes historiográficas para responder corretamente.

✅ Gabarito: Alternativa D.

  • Resumo: O texto reflete a historiografia contemporânea que revisou o processo de Abolição. Essa nova análise destaca que a escravidão não acabou apenas por concessão das elites ou por pressões externas, mas foi fundamentalmente minada pela resistência contínua e multifacetada dos próprios negros, que, através de fugas, revoltas, ações judiciais e compra de alforrias, tornaram a manutenção do sistema insustentável.

Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

Transcrição Essencial 📌
“No que diz respeito à Abolição, o texto apresenta uma análise historiográfica […] recente […] que se diferencia das análises mais tradicionais. Essa análise recente apresenta a extinção do regime escravista, em grande parte, como resultado…”

O que está sendo pedido?
A questão pede para identificarmos qual é a causa principal da Abolição segundo a nova visão dos historiadores, que é a visão apresentada no texto.

Objetivo Cristalino
Nosso objetivo é ler o texto, entender qual grupo ele coloca como o principal agente da mudança (“quem fez a abolição acontecer?”) e encontrar a alternativa que reflete essa perspectiva de protagonismo.

🧠 O texto começa dizendo: “Os negros brasileiros não esperaram passivamente pela libertação. Em vez disso, lutaram…”. Essa frase já contém a resposta.


Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessários

Definição de Termos 🔖

  • Historiografia: É o estudo de como a história é escrita. A forma de contar a história muda com o tempo, com novas pesquisas, novas fontes e novas perspectivas.
  • Análises “Tradicionais” da Abolição: Por muito tempo, a história da Abolição foi contada de três formas principais, que colocavam os negros como passivos:
    1. Visão “Princesa Isabel”: A abolição foi um ato de bondade da princesa, a “Redentora”.
    2. Visão “Abolicionistas Brancos”: A abolição foi fruto da luta de intelectuais e políticos brancos (Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, etc.).
    3. Visão “Pressão Inglesa”: A abolição foi uma imposição da Inglaterra por interesses econômicos (ampliar o mercado consumidor).
  • Análise “Recente” (Protagonismo Negro): A partir dos anos 1980, novas pesquisas, impulsionadas pelo Movimento Negro, começaram a reescrever essa história. Essa nova visão, apresentada no texto, não nega a importância dos fatores acima, mas coloca no centro do processo a agência e a resistência dos próprios escravizados e libertos.
    • Formas de Luta (citadas no texto): “Escrevendo em jornais”, “entrando para a política”, “fugindo para quilombos”, “montando pecúlios para comprar alforrias”.
    • Consequência: Essas diversas formas de luta criaram um clima de instabilidade, prejuízo econômico e ingovernabilidade que tornou a manutenção da escravidão impossível para a elite.

Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

Contextualização Simplificada 💬
A questão nos diz que a forma como a gente conta a história da Abolição mudou.

  • História Antiga: A princesa boazinha libertou os escravos coitadinhos.
  • História Nova (do texto): Os escravos não eram coitadinhos e não ficaram esperando. Eles lutaram de todos os jeitos possíveis (fugindo, comprando a liberdade, se revoltando) e bagunçaram tanto o “coreto” da escravidão que o sistema quebrou por dentro. A Lei Áurea foi só o “atestado de óbito” de um sistema que já estava morrendo por causa da luta dos próprios negros.

A pergunta é: qual alternativa resume essa “História Nova”?

Estratégia Geral 🗺️
Vamos analisar cada alternativa e ver se ela representa a visão “tradicional” (com protagonismo branco/externo) ou a visão “recente” (com protagonismo negro), conforme descrito no texto.


Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

Passo a Passo Detalhado 👣

  1. A Tese do Texto: A primeira frase já estabelece a tese: “Os negros brasileiros não esperaram passivamente […] lutaram em diversas frentes”.
  2. As Provas: O texto lista as formas de luta: imprensa, política, quilombos, compra de alforria.
  3. O Resultado da Luta: A luta foi tão eficaz que, na época da Lei Áurea, a escravidão já estava em seus momentos finais (“apenas uma pequena minoria continuasse formalmente a ser propriedade”).
  4. A Conclusão Lógica: A análise do texto mostra que a extinção do regime escravista foi, em grande parte, o resultado da luta dos próprios negros. Eles não foram meros objetos da história, mas sujeitos ativos de sua própria libertação.

Análise das Alternativas com Base nessa Conclusão:

  • A) ação benevolente da Princesa Isabel: Visão tradicional, paternalista.
  • B) ação da imprensa engajada […] por intelectuais brancos: Visão tradicional, que ignora a imprensa e os intelectuais negros.
  • C) necessidades do capitalismo inglês: Visão tradicional, que foca em fatores externos.
  • D) luta dos próprios negros: Visão recente, centrada no protagonismo negro, exatamente como descrito no texto.
  • E) espírito humanitário de uma moderna camada proprietária: Visão tradicional, que foca na benevolência de uma minoria da elite.

Passo 5: Análise das Alternativas

🔴 A) da ação benevolente da Princesa Isabel, que, assessorada por intelectuais e políticos negros, tomou a abolição como uma causa pessoal.
Incorreta. Esta é a visão tradicional e romantizada. O texto enfatiza a luta, não a benevolência.

🔴 B) da ação da imprensa engajada que, controlada por intelectuais brancos sensíveis à causa da liberdade, levantou a bandeira abolicionista.
Incorreta. Esta é uma visão parcial e tradicional, que apaga o protagonismo da imprensa negra (que existiu) e dos próprios escravizados.

🔴 C) das necessidades do capitalismo inglês de substituir o trabalho escravo pelo assalariado, visando ampliar o mercado consumidor no Brasil.
Incorreta. Esta é uma das visões tradicionais, que atribui a causa a fatores externos, e não à luta interna.

🟢 D) da luta dos próprios negros, escravos ou libertos, que empreenderam um conjunto de ações que tornaram o regime escravista incapaz de se sustentar.
Correta. Esta alternativa resume perfeitamente a tese apresentada no texto. Ela coloca os negros como sujeitos da história, cuja luta multifacetada (“conjunto de ações”) minou as bases do sistema escravista até seu colapso.

🔴 E) do espírito humanitário de uma moderna camada proprietária que, influenciada pelo liberalismo, tomou atitudes individuais, libertando seus escravos.
Incorreta. Esta foi uma ação minoritária e não a causa principal do fim do regime. A maioria dos proprietários resistiu à abolição até o fim.


Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

Resumo do Raciocínio 📝
O texto apresenta uma perspectiva historiográfica moderna sobre o fim da escravidão no Brasil, que se contrapõe às visões tradicionais. Essa nova análise enfatiza o protagonismo dos próprios negros no processo abolicionista. Segundo o texto, eles não foram agentes passivos que receberam a liberdade, mas sim sujeitos ativos que, através de diversas estratégias de resistência (quilombos, compra de alforrias, participação política, etc.), lutaram ativamente contra o sistema, desgastando-o a ponto de torná-lo insustentável.

Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a D.

Resumo Final para Revisão
Lembre-se da mudança de perspectiva na história da Abolição:

  • Visão Antiga: “A liberdade foi dada.” (Pela princesa, pelos brancos, pela Inglaterra).
  • Visão Nova: “A liberdade foi conquistada.” (Pela luta incessante dos negros).
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