Marabaixo é uma expressão artistico-cultural formada nas tradições e na identificação cultural entre as comunidades negras do Amapá. O nome remonta às mortes de escravizados em navios negreiros que eram jogados na água. Em sua homenagem, hinos de lamento eram cantados mar abaixo, mar acima. Posteriormente, o Marabaixo se integrou à vivência das comunidades negras em um ciclo de danças, cantorias com tambores e festas religiosas, recebendo, em 2018, o título de Patrimônio Cultural do Brasil.
Disponível em: http://portal.iphan.gov.br. Acesso em: 15 nov. 2021 (adaptado).
A manifestação do Marabaixo se constituiu em expressão de arte e cultura, exercendo função de
a) ressignificar episódios dramáticos em novas práticas culturais.
b) adaptar coreografias como imitação dos movimentos do mar.
c) lembrar dos mortos no passado escravista como forma de lamento.
d) perpetuar uma narrativa de apagamento dos fatos históricos traumáticos.
e) ritualizar a passagem de atos fúnebres nas produções coletivas com espírito festivo.

- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Interpretação de Texto
- História do Brasil (Cultura Afro-Brasileira, Memória da Escravidão)
- Antropologia Cultural (Rituais, Ressignificação)
- Tema/Objetivo Geral: Analisar como uma comunidade transforma uma memória de trauma e luto em uma prática cultural afirmativa e de celebração da vida.
- Nível da Questão: Médio.
- Justificativa: A questão é de nível médio porque exige que o candidato perceba um processo de transformação, e não apenas um dos estágios da manifestação. Não basta focar na origem (o lamento) ou na forma atual (a festa), mas entender a função que conecta os dois pontos: o ato de pegar um evento negativo e dar a ele um novo significado.
- Gabarito: A) ressignificar episódios dramáticos em novas práticas culturais.
- Explicação Resumida: A alternativa está correta porque o texto descreve um processo claro de ressignificação: a memória dolorosa das mortes nos navios negreiros (episódio dramático), que originalmente gerava “hinos de lamento”, foi transformada e integrada à vida comunitária como um “ciclo de danças, cantorias e festas” (novas práticas culturais).
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Em bom português, a missão é a seguinte: o texto conta a história de uma tradição chamada Marabaixo. Ela começou de um jeito triste, como um lamento pelos escravos mortos, mas com o tempo se transformou em uma festa com dança e música. A questão nos pergunta: qual foi a função, o “superpoder” dessa manifestação cultural? O que ela fez com aquela memória triste?
Simplificando, imagine que uma família perdeu sua casa em um incêndio terrível. Anos depois, todo ano, no aniversário do incêndio, em vez de chorar, eles se reúnem no mesmo local para um grande piquenique, celebrando a vida e a força que tiveram para se reerguer. O que eles fizeram? Eles pegaram um evento trágico e o transformaram em uma celebração de vida. A questão quer saber o nome técnico desse processo de transformar a dor em outra coisa.
Roteiro da Investigação (O Plano de Ataque): Para resolver este enigma, nosso plano será metódico e preciso:
- 1. Identificar a Origem Traumática: Vamos focar no ponto de partida do Marabaixo, o evento histórico que lhe deu nome.
- 2. Analisar a Transformação: Vamos observar como o Marabaixo evoluiu de sua forma original para sua forma atual.
- 3. Definir a Função do Processo: Vamos dar um nome a essa capacidade de pegar um trauma e transformá-lo em uma celebração de identidade.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a ferramenta ideal é a análise do conceito de Ressignificação.
Dossiê da Ressignificação Cultural:
- O que é? É o processo de dar um novo significado a um evento, símbolo ou prática. É pegar algo que tinha uma carga (muitas vezes negativa) e atribuir a ele uma nova carga, um novo sentido.
- Como funciona no caso do Marabaixo?
- Significado Original: A memória das “mortes de escravizados em navios negreiros”. A manifestação original era de “hinos de lamento”. O foco era na dor, na perda, no trauma.
- O Processo de Transformação: O texto diz que, “posteriormente”, a manifestação “se integrou à vivência das comunidades”.
- Novo Significado (Ressignificação): Tornou-se um “ciclo de danças, cantorias com tambores e festas religiosas”. O foco agora é na celebração da vida, na identidade comunitária, na resistência cultural e na fé.
Veredito do Detetive: O Marabaixo não apagou a memória do trauma. Ele a transformou. Pegou a energia do luto e a converteu em energia de celebração e afirmação da vida. Essa é a essência da ressignificação.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
A execução do nosso plano nos leva a ver a história do Marabaixo como uma jornada. Ele nasce de um dos episódios mais dramáticos da história brasileira: o tráfico de escravos. A reação inicial é o luto, o lamento.
No entanto, a comunidade não permaneceu presa nesse luto. O texto nos diz que, “posteriormente”, essa memória foi incorporada à vida cotidiana de uma forma diferente. Em vez de ser apenas um momento de tristeza, tornou-se uma festa que celebra a identidade negra, a fé e a comunidade.
A dor não foi esquecida, mas foi transformada em força. O ato de lembrar dos mortos deixou de ser apenas um ato de luto para se tornar um ato de resistência e celebração da sobrevivência. É o processo de pegar um “episódio dramático” e transformá-lo em uma “nova prática cultural” vibrante e afirmativa.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (C) “lembrar dos mortos no passado escravista como forma de lamento”. O erro é um reducionismo, pois foca apenas na origem da manifestação e ignora sua evolução. O texto é claro ao dizer que, “posteriormente”, o Marabaixo se tornou algo mais, um ciclo de festas e danças. A alternativa (C) descreve apenas o primeiro estágio, não a função completa e atual da prática.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação demonstra que o Marabaixo é uma manifestação cultural que evoluiu de uma expressão de luto por um trauma histórico para uma celebração vibrante de identidade, transformando o significado original da memória.
- Expectativa: A alternativa correta deve descrever esse processo de transformação de um evento negativo em uma prática cultural positiva e renovada.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Com nosso perfil da função do Marabaixo em mãos, vamos interrogar os suspeitos.
a) ressignificar episódios dramáticos em novas práticas culturais.
Análise de Correspondência: Esta é a descrição perfeita do processo. “Ressignificar” (dar novo significado) a “episódios dramáticos” (mortes nos navios) em “novas práticas culturais” (danças, cantorias e festas). A correspondência é exata.
Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
b) adaptar coreografias como imitação dos movimentos do mar.
O erro é Extrapolação / Fuga ao Tema. O texto não fornece nenhuma informação sobre as coreografias ou sua relação com os movimentos do mar.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
c) lembrar dos mortos no passado escravista como forma de lamento.
Esta é a armadilha que desarmamos. O erro é Reducionismo, pois descreve apenas a origem e ignora a transformação em festa.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
d) perpetuar uma narrativa de apagamento dos fatos históricos traumáticos.
O erro é uma Contradição Direta. O Marabaixo lembra e honra a memória dos mortos, não a apaga. Ele apenas transforma a forma de lidar com essa memória.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
e) ritualizar a passagem de atos fúnebres nas produções coletivas com espírito festivo.
O erro é Imprecisão Conceitual. O Marabaixo não é um ritual para “atos fúnebres” atuais. É uma festa que tem sua origem na memória de mortes passadas, o que é diferente. Não se trata de transformar um enterro de hoje em festa, mas de transformar uma memória de morte em celebração de vida.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Confirmamos que a alternativa A é a correta. O Marabaixo é um poderoso exemplo da capacidade humana de ressignificar episódios dramáticos, transformando a memória da dor em uma nova e vibrante prática cultural de resistência e celebração.
- Resumo-flash (A Imagem Mental): O Marabaixo pegou as lágrimas do luto e as usou para regar as sementes da festa e da identidade.
- 🧠 Para ir Além (Ponte para o Futuro): O mesmo princípio da “ressignificação” de um evento traumático em algo positivo é uma técnica central na Psicologia, especialmente na Terapia Cognitivo-Comportamental e na Logoterapia. Uma pessoa que sofreu um acidente grave (um “episódio dramático”) pode ficar presa ao trauma e ao “lamento”. A terapia ajuda essa pessoa a ressignificar o evento, não para esquecê-lo, mas para vê-lo como uma fonte de força, resiliência e um novo propósito de vida. Assim como o Marabaixo, o indivíduo aprende a transformar a memória da dor em uma “nova prática cultural” pessoal, uma nova forma de viver.