Chiquito tinha quase trinta quando conheceu Mariana num baile de casamento na Forquilha, onde moravam uns parentes dele. Por lá foi ficando, remanchando. Fez mal à moça, como costumavam dizer, tiveram de casar às pressas. Morou uns tempos com o sogro, descombinaram. Foi só conta de colher o milho e vender. Mudou para casa do velho Chico Lourenço [seu pai]. Fumaça própria só viu subir um par de anos depois, quando o pai repartiu as terras. De tão parecidos, pai e filho nunca combinaram direito. Cada qual mais topetudo, muitas vezes dona Aparecida ouvia o marido reclamar da natureza forte do filho. Ela escutava com paciência e respondia dum jeito sempre igual:
— “Quem herda, não rouba.”
Vinha um brilho nos olhos, o velho se acalmava.
ROMANO, O. Casos de Minas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
Os ditados populares são frases de sabedoria criadas pelo povo, utilizadas em várias situações da vida. Nesse texto, a personagem emprega um ditado popular com a intenção de:
A) criticar a natureza forte do filho.
B) justificar o gênio difícil de Chiquito.
C) legitimar o direito do filho à herança.
D) conter o ânimo violento de Chico Lourenço.
E) condenar a agressividade do marido contra o filho.

✍ Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Interpretação de Texto Literário
- Linguística (Semântica, Fraseologia – Ditados Populares)
- Análise de Discurso (Inferência de Intenção)
- Tema/Objetivo Geral: Analisar o uso de um ditado popular em um contexto de diálogo para inferir a intenção comunicativa da personagem.
- Nível da Questão: Médio.
- A questão exige que o candidato compreenda o significado figurado do ditado “Quem herda, não rouba”. Um leitor que o interprete apenas em seu sentido literal (relacionado a bens materiais) cairá na armadilha da alternativa C. É preciso entender como a palavra “herança” está sendo usada metaforicamente.
- Gabarito: B
- A alternativa está correta porque, no contexto do diálogo, a “herança” a que dona Aparecida se refere não são as terras, mas o gênio, a “natureza forte” de Chiquito. Ao dizer “Quem herda, não rouba”, ela está diplomaticamente apontando que o filho herdou o temperamento difícil do próprio pai, usando o ditado como uma forma de justificar o comportamento do filho e, ao mesmo tempo, acalmar o marido.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “No texto, o pai reclama do gênio forte do filho. A mãe responde com o ditado ‘Quem herda, não rouba’. O que ela realmente quis dizer com isso? Qual era a intenção dela ao usar essa frase?”
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que você reclama com sua avó: “Vó, meu primo é muito teimoso!”. E ela responde, olhando para seu tio (o pai do primo): “Ora, meu filho, a fruta não cai longe do pé”. O que sua avó quis dizer? Ela não está falando de botânica. Ela está usando um ditado para justificar a teimosia do primo, dizendo que ele herdou essa característica do pai. Dona Aparecida, na história, está fazendo exatamente a mesma coisa.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Analisar o Conflito: Qual é o problema que o pai (Chico Lourenço) apresenta?
- Identificar a Resposta: Qual é a solução/explicação que a mãe (Dona Aparecida) oferece?
- Decifrar o Código: Usaremos um diálogo para interpretar o significado figurado do ditado popular dentro desse conflito.
- Realizar a Autópsia: Vamos analisar cada alternativa para ver qual delas melhor descreve a intenção de Dona Aparecida.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a melhor ferramenta é construir o raciocínio juntos para decifrar o ditado. Vamos usar um Diálogo Mentor-Aluno.
- 🕵️♂️ Mentor: “Detetive, vamos analisar a cena. O pai, Chico Lourenço, está reclamando de quê exatamente?”
- 🧠 Aluno: “Ele está reclamando da ‘natureza forte’ do filho, Chiquito. Diz que eles são ‘topetudos’ e nunca combinaram direito.”
- 🕵️♂️ Mentor: “Perfeito. E qual é a resposta da mãe, Dona Aparecida, a essa reclamação?”
- 🧠 Aluno: “Ela responde com o ditado: ‘Quem herda, não rouba’.”
- 🕵️♂️ Mentor: “Ótimo. Agora, a chave do caso. A ‘herança’ nesse ditado está se referindo às terras que o pai repartiu, ou a outra coisa?”
- 🧠 Aluno: “Não pode ser sobre as terras, porque ela fala isso em resposta a uma reclamação sobre o gênio do filho. A ‘herança’ aqui é o temperamento!”
- 🕵️♂️ Mentor: “Exatamente! É uma metáfora. Agora, se o filho ‘herdou’ o gênio forte e ‘não roubou’, de quem ele só pode ter herdado?”
- 🧠 Aluno: “Do próprio pai, que o texto diz ser ‘tão parecido’ e também ‘topetudo’. Ah! Então ela está dizendo: ‘Ele é assim porque puxou a você!’.”
- 🕵️♂️ Mentor: “Bingo! E ao dizer isso, qual a intenção dela? Ela está criticando o filho? Ou está explicando e ‘passando um pano’, por assim dizer?”
- 🧠 Aluno: “Ela está explicando, justificando. Está dizendo que o comportamento do filho não é um defeito aleatório, mas algo que tem uma origem clara e, portanto, é natural. E isso acalma o pai.”
- 🕵️♂️ Mentor: “Caso encerrado. A intenção é justificar o gênio do filho, mostrando que é uma herança de família. É com essa conclusão que vamos analisar os suspeitos.”
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Nosso diálogo já revelou a diplomacia de Dona Aparecida.
- O ditado funciona em dois níveis: acalma o marido (mostrando que a “culpa” também é dele) e defende o filho (mostrando que o comportamento dele não é um roubo, mas uma herança legítima).
- A palavra “herda” é a chave, usada em seu sentido figurado de herança genética/comportamental.
- A intenção não é de conflito (criticar ou condenar), mas de conciliação, de apaziguar a situação através de uma justificativa.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora é a alternativa (C), “legitimar o direito do filho à herança”. O candidato vê a palavra “herda” e a interpreta em seu sentido literal, de bens materiais. O erro é não perceber que o contexto da conversa é sobre comportamento (“natureza forte”, “gênio difícil”), e não sobre a divisão das terras, que já havia acontecido.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação mostra que o ditado é usado metaforicamente para apontar que o temperamento do filho é herdado do pai. A intenção da mãe é usar essa conexão para explicar e justificar o comportamento do filho.
- Expectativa: A alternativa correta deve focar na justificação do gênio de Chiquito.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos.
- A) criticar a natureza forte do filho.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato interpreta a fala da mãe como uma concordância com a crítica do pai.
- O “Diagnóstico do Erro”: Erro de Interpretação (Tom). A reação do pai (“vinha um brilho nos olhos, o velho se acalmava”) mostra que a fala da mãe foi apaziguadora, e não uma crítica. Ela estava defendendo o filho, não o atacando.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- B) justificar o gênio difícil de Chiquito.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. A mãe usa o ditado para dar uma razão, uma explicação, uma justificativa para o temperamento do filho, conectando-o ao do pai.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
- C) legitimar o direito do filho à herança.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato cai na “Armadilha Clássica”, interpretando “herança” de forma literal.
- O “Diagnóstico do Erro”: Erro de Contexto. O diálogo é sobre personalidade, não sobre propriedades. A herança material já havia sido resolvida (“o pai repartiu as terras”).
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- D) conter o ânimo violento de Chico Lourenço.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato foca no efeito da fala (“o velho se acalmava”).
- O “Diagnóstico do Erro”: Confundir Efeito com Intenção Principal. Embora a fala tenha o efeito de acalmar o pai, a intenção e o mecanismo para alcançar isso foi a justificativa do comportamento do filho. A justificação é a causa; a calma é a consequência. A alternativa (B) é mais precisa sobre a intenção da fala em si.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- E) condenar a agressividade do marido contra o filho.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato interpreta a fala da mãe como uma acusação velada.
- O “Diagnóstico do Erro”: Erro de Interpretação (Tom). A fala é apresentada como diplomática e conciliadora, não como uma condenação. Ela aponta a semelhança de forma a criar compreensão, não conflito.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa B é a correta. Este caso ilustra a sabedoria popular encapsulada nos ditados, que funcionam como ferramentas de mediação social, capazes de comunicar verdades complexas de forma concisa e diplomática.
Resumo-flash (A Imagem Mental): O ditado foi um espelho: a mãe o usou para mostrar ao pai que ele estava, na verdade, reclamando de seu próprio reflexo.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de usar uma analogia ou metáfora para justificar um comportamento e gerar empatia é uma técnica central na Psicologia e na Terapia. Um terapeuta, para ajudar pais a entenderem o comportamento desafiador de um filho adolescente, pode usar a metáfora da “construção de um cérebro”: “O cérebro do adolescente é como uma casa em reforma. O ‘andar de cima’, da lógica e do controle, ainda está em obras, enquanto o ‘andar de baixo’, das emoções, está a todo vapor. Por isso a impulsividade”. Essa metáfora não “condena” nem “critica”, mas justifica o comportamento, tornando-o compreensível e, assim, mais fácil de lidar. A sabedoria de Dona Aparecida é, em essência, a mesma de um bom terapeuta.