15% off para você conhecer a Plataforma Assaad

Didática mágica, resultados garantidos. Aproveite mais de 15% de desconto na Plataforma Assaad e garanta sua aprovação em Medicina ainda em 2025.

Questão 32, caderno azul do ENEM 2020 DIGITAL

 Carlos é hoje um homem dividido, Mário, e isso graças às suas cartas.
Às vezes ele torce pelas palmeiras paródicas do Oswald de Andrade (a ninguém cá da terra passou despercebido o título que quer dar ao seu primeiro livro de poemas — Minha terra tem palmeiras). Às vezes não quer esquecer o gélido cinzel de Bilac e a prosa clássica dos decadentistas franceses, e à noite, ao ouvir o chamado da moça-fantasma, fica cismando ismálias em decassílabos rimados. Às vezes sucumbe ao trato cristão da condição humana e, à sombra dos rodapés de Tristão de Ataíde, tem uma recaída jacksoniana. Às vezes não sabe se prefere o barulho do motor do carro em disparada, ou se fica contemplando o sinal vermelho que impõe stop ao trânsito e silêncio ao cidadão. Às vezes entoa loas à vida besta, que devia jazer para sempre abandonada em Itabira. Mas na maioria das vezes sai saracoteando ironicamente pela rua macadamizada da poesia, que nem um pernóstico malandro escondido por detrás dos óculos e dos bigodes, ou melhor, que nem a foliona negra que você tanto admirou no Rio de Janeiro por ocasião das bacanais de Momo.

SANTIAGO, S. Contos antológicos de Silviano Santiago. São Paulo: Nova Alexandria, 2006.

Inspirado nas cartas de Mário de Andrade para Carlos Drummond de Andrade, o autor dá a esse material uma releitura criativa, atribuindo-lhe um remetente ficcional. O resultado é um texto de expressividade centrada na:

A) hesitação na escolha de um modelo literário ideal.

B) colagem de estilos e estéticas na formação do escritor.

C) confluência de vozes narrativas e de referências biográficas.

D) fragmentação do discurso na origem da representação poética.

E) correlação entre elementos da cultura popular e de origem erudita.

Resolução em Texto

 Matórias Necessárias para a Solução da Questão

  • Literatura Brasileira (Modernismo: 1ª e 2ª Gerações, Parnasianismo, Simbolismo)
  • Teoria Literária (Intertextualidade, Formação do Escritor)
  • Interpretação de Texto Literário

🎯 Tema/Objetivo Geral: Analisar a representação ficcional do processo de formação de um escritor (Carlos Drummond de Andrade), identificando as múltiplas e contraditórias influências literárias que compõem sua identidade.

📊 Nível da Questão: Difícil.
Por quê? A questão exige um alto grau de conhecimento literário prévio para decodificar as inúmeras referências (Oswald de Andrade, Bilac, Tristão de Ataíde, Jackson de Figueiredo, “ismálias”, “macadamizada”). Além disso, a resposta correta (“colagem de estilos”) é um conceito sofisticado que descreve a essência da poética modernista de Drummond, que não escolhe um único caminho, mas sintetiza vários. É uma questão que testa tanto a interpretação do texto quanto o repertório cultural do aluno.

✅ Gabarito: Alternativa B.
Resumo: O texto descreve um “Carlos” (Drummond) dividido entre múltiplas influências literárias e culturais que parecem opostas: a vanguarda modernista (“palmeiras paródicas de Oswald”), o rigor formal do Parnasianismo (“gélido cinzel de Bilac”), o espiritualismo católico (“Tristão de Ataíde”), a modernidade urbana (“motor do carro”) e a memória da província (“Itabira”). Ele não escolhe uma delas, mas transita por todas. Essa mistura, essa sobreposição de referências diversas, é o que se pode chamar de uma colagem de estilos e estéticas, que caracteriza a complexa formação do escritor moderno.


Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

Transcrição Essencial 📌
“Inspirado nas cartas de Mário de Andrade para Carlos Drummond de Andrade, o autor dá a esse material uma releitura criativa […]. O resultado é um texto de expressividade centrada na…”

O que está sendo pedido?
A questão pede para identificarmos a principal característica expressiva do texto. Em que se baseia a força do retrato que Silviano Santiago faz de Carlos Drummond?

Objetivo Cristalino 💎
Nosso objetivo é analisar a lista de “dúvidas” e “tentações” do personagem Carlos para entender como sua identidade de escritor é construída no texto. Ele é retratado como alguém que segue um caminho único ou como um mosaico de influências?

🧠 Quando o texto diz que Carlos “às vezes” faz uma coisa e “às vezes” faz outra completamente diferente, isso sugere uma dúvida que será resolvida com uma escolha, ou sugere que a identidade dele é feita justamente dessa mistura contraditória?


Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessários

Definição de Termos 🔖 (As Referências Literárias)

  • “palmeiras paródicas do Oswald de Andrade”: Refere-se ao Modernismo da 1ª Geração, radical, iconoclasta, que parodiava os símbolos nacionais (como a palmeira de Gonçalves Dias). Representa a vanguarda.
  • “gélido cinzel de Bilac”: Refere-se ao Parnasianismo de Olavo Bilac, uma escola literária anterior ao Modernismo, marcada pelo rigor formal, pelo perfeccionismo (“cinzel”) e pela objetividade (“gélido”). Representa a tradição formal.
  • “ismálias em decassílabos rimados”: “Ismália” é o poema mais famoso de Alphonsus de Guimaraens, um poeta Simbolista. O Simbolismo valorizava a musicalidade e o mistério. Representa outra tradição, mais espiritualizada.
  • “Tristão de Ataíde” e “recaída jacksoniana”: Tristão de Ataíde (pseudônimo de Alceu Amoroso Lima) e Jackson de Figueiredo foram importantes intelectuais católicos e conservadores. Representam a influência do pensamento católico e espiritualista.
  • “barulho do motor do carro” vs. “vida besta […] em Itabira”: A oposição entre a modernidade urbana e tecnológica e a memória da província.

Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

Contextualização Simplificada 💬
O texto é como se fosse um “diagnóstico” do jovem poeta Carlos Drummond de Andrade. O “médico” (narrador) diz: “Este rapaz tem múltiplas personalidades poéticas!”.

  • “Às vezes” ele é um modernista radical como Oswald de Andrade.
  • “Às vezes” ele é um poeta clássico e formal como Bilac.
  • “Às vezes” ele é um católico fervoroso.
  • “Às vezes” ele é um cara da cidade grande, fascinado por carros.
  • “Às vezes” ele é um cara do interior, preso às memórias de Itabira.
    Ele não consegue (ou não quer) escolher um único caminho. Ele é a soma de todas essas coisas ao mesmo tempo. A pergunta é: qual o nome que damos para essa técnica de juntar um monte de pedaços diferentes para formar uma nova imagem?

Estratéia Geral 🗺️
Vamos focar na estrutura repetitiva do texto (“Às vezes… Às vezes… Às vezes…”) e na diversidade de referências. A expressividade do texto não vem de uma única ideia, mas da justaposição de muitas ideias contraditórias.


Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

Passo a Passo Detalhado 👣

  1. Identificar a Estrutura do Texto: O texto é construído sobre uma série de oposições, introduzidas pela anáfora “Às vezes…”. O personagem Carlos é puxado para direções diferentes.
  2. Mapear as Oposições:
    • Vanguarda Modernista (Oswald) vs. Tradição Parnasiana (Bilac).
    • Espiritualismo Católico (Tristão de Ataíde) vs. Cinismo e Ironia (“pernóstico malandro”).
    • Modernidade Urbana (“motor do carro”) vs. Memória Provinciana (Itabira).
  3. Analisar a Resolução do Conflito: O texto não apresenta uma resolução. Carlos não escolhe um caminho. Ele não está apenas “hesitando” para depois decidir (o que invalidaria a alternativa A). Pelo contrário, o narrador sugere que a identidade final do poeta é a do “malandro” que “sai saracoteando ironicamente” por todos esses caminhos.
  4. Síntese da Expressividade: A força expressiva do texto reside em mostrar que a identidade do escritor não é pura ou linear, mas sim um campo de batalha de influências diversas. Ele é formado pela junção, pela sobreposição, pela colagem de todos esses estilos e estéticas, por mais contraditórios que pareçam. Essa mistura é a sua marca.

A Armadilha Comum 🚨
A alternativa A (“hesitação na escolha”) é a principal armadilha. “Hesitação” implica um estado temporário de dúvida antes de uma decisão. O texto, no entanto, sugere que essa multiplicidade não é uma fase a ser superada, mas sim a condição permanente do escritor. Ele não está em dúvida entre os estilos; ele é a soma de todos eles. “Colagem” descreve melhor essa coexistência do que “hesitação”.

Fechamento e Expectativa
A análise nos leva a procurar a alternativa que descreva a identidade do poeta como uma fusão ou sobreposição de influências heterogêneas.


Passo 5: Análise das Alternativas

🔴 A) hesitação na escolha de um modelo literário ideal.
Incorreta. Como discutido, o texto sugere que a multiplicidade é a própria identidade, não uma hesitação a ser resolvida.

🟢 B) colagem de estilos e estéticas na formação do escritor.
Correta. A palavra “colagem” descreve perfeitamente o processo de justapor elementos de origens diversas (Parnasianismo, Modernismo, Simbolismo, catolicismo, cultura popular) para formar uma nova totalidade, que é a identidade complexa do escritor.

🔴 C) confluência de vozes narrativas e de referências biográficas.
Incorreta. O texto tem uma única voz narrativa (o remetente ficcional da carta). Embora use referências biográficas, o foco da expressividade não está na “confluência de vozes”, mas na mistura de estilos.

🔴 D) fragmentação do discurso na origem da representação poética.
Incorreta. O discurso não é fragmentado; pelo contrário, é um parágrafo longo e coeso. A identidade do personagem é multifacetada, mas o discurso que a descreve é fluido.

🔴 E) correlação entre elementos da cultura popular e de origem erudita.
Incorreta. Esta é uma das oposições presentes no texto (ex: “foliona negra” vs. “prosa clássica”), mas é apenas um aspecto da colagem. A alternativa B (“colagem de estilos e estéticas”) é muito mais ampla e completa, abrangendo todas as outras oposições (vanguarda vs. tradição, etc.).


Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

Resumo do Raciocínio 📝
O texto de Silviano Santiago constrói um retrato do poeta Carlos Drummond de Andrade como um ser “dividido”, cuja identidade literária é forjada a partir de uma multiplicidade de influências conflitantes. O narrador enumera uma série de estéticas e visões de mundo que coexistem no poeta: o modernismo radical de Oswald, o formalismo parnasiano de Bilac, o catolicismo conservador, a modernidade urbana e a memória provinciana. A expressividade do texto não reside na escolha de um desses caminhos, mas na demonstração de que a identidade do escritor é a própria sobreposição desses elementos. Essa técnica de combinar fragmentos de diferentes origens para criar um novo todo é análoga à de uma colagem.

Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a B.

Resumo Final para Revisão
Pense na poesia de Drummond: ele podia ser formal e metrificado, mas também usar versos livres; podia falar da vida burocrática no Rio, mas também da dor de Itabira; podia ser irônico e engajado. Ele não se encaixa em uma única “caixinha”. Ele é uma colagem.

Encontrou algum erro?

Clique no botão abaixo e reporte para os nossos corretores.