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Questão 31 caderno azul ENEM 2025 Dia 1

dezenove

Cada vez mais somos convocados para dentro das Redes. Mas não levamos a nossa rede e penduramos no alpendre da casa de um amigo, não sentimos o cheiro da casa enquanto o café se derrama na xícara ou ouvimos o piar dos passarinhos ou a música da chuva.

A Rede nos convoca e o que somos lá dentro é o que somos do lado de fora?

Há um intervalo entre este eu dentro da tela e o outro que somos?

A palavra rede é vasta.

MURRAY, R.; KLIGERMAN, E. Teias de afeto e poesia. Disponível em: https://roseanamurray.com. Acesso em: 5 maio 2024.

Nesse texto, a autora aborda diferentes sentidos da palavra “rede” para evidenciar

A) as formas de comunicação em meios digitais.

B) a necessidade de atualização das mídias sociais.

C) os conflitos de identidade dos usuários da internet.

D) o impacto das tecnologias nas interações humanas.

E) os desejos de compartilhar vivências com os amigos.

 Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto
  • Figuras de Linguagem (Polissemia, Antítese)
  • Análise de Intenção Discursiva

Tema/Objetivo Geral: Identificar a tese central de um texto que se constrói a partir da oposição de dois sentidos de uma mesma palavra.

Nível da Questão
Fácil para Médio – A dificuldade aqui não está no texto, que é lírico e de fácil compreensão, mas no processo de eliminação das alternativas. Várias delas tocam em pontos mencionados na crônica, exigindo que o candidato tenha clareza sobre qual delas responde de forma mais completa e precisa ao comando da questão.

Gabarito
Letra D. – A alternativa está correta pois a oposição entre a “rede” física (descanso, afeto, sensações) e a “Rede” digital (convocação, questionamento) serve justamente para evidenciar como a tecnologia alterou a natureza das nossas conexões e experiências.


PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: A questão é sobre a estratégia da autora. Ela não quer saber o que é a rede-alpendre ou o que é a rede-digital. Ela quer saber: por que a autora colocou as duas no mesmo texto? Qual é a conclusão, a ideia principal, que ela quer nos fazer enxergar ao contrastar esses dois mundos que compartilham o mesmo nome? Este é o coração da investigação. A resposta não pode ser sobre uma das redes, mas sobre a relação entre elas.

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine um fotógrafo que tira duas fotos e as coloca lado a lado. A primeira foto mostra uma carta escrita à mão, cheia de personalidade. A segunda mostra uma tela de mensagens instantâneas. Ao expor as duas juntas, o objetivo dele não é explicar o que é uma carta ou o que é um aplicativo. O objetivo é nos fazer refletir sobre o impacto que a segunda imagem teve na experiência da primeira. O texto faz exatamente isso, usando a palavra “rede” como a moldura para as duas fotos.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  1. Analisar a Rede 1 (O Mundo Analógico): Descrever a experiência sensorial e humana associada à rede-alpendre.
  2. Analisar a Rede 2 (O Mundo Digital): Descrever a experiência abstrata e questionadora associada à Rede-internet.
  3. Focar no Contraste: Entender que a força do texto está na oposição direta entre essas duas realidades.
  4. Construir o Retrato Falado: Definir que a alternativa correta precisa explicar o propósito desse contraste, que é mostrar um efeito, uma mudança.

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

A ferramenta literária central que a autora utiliza é a Antítese construída sobre a Polissemia.

Dossiê Investigativo: A Estratégia do Texto

  • Polissemia (A Isca): A autora usa o fato de que a palavra “rede” tem múltiplos significados.
  • Antítese (A Armadilha Crítica): Ela escolhe dois significados que são opostos em sua essência para criar um choque. Vamos visualizar isso em uma tabela:
Característica Rede (Alpendre) Rede (Digital)
Natureza Física, Concreta Virtual, Abstrata
Experiência Sensorial (“cheiro”, “piar”, “música da chuva”) Mental, Questionadora (“o que somos lá dentro?”)
Conexão Pessoal, Íntima, Presente Distante, Mediada, Convocada
Sentimento Aconchego, Paz Incerteza, Dúvida

A tabela deixa claro: a autora não está apenas brincando com palavras, ela está usando a palavra como um campo de batalha para mostrar o conflito entre dois modos de vida.


PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

O texto nos guia nessa oposição. O primeiro parágrafo é uma imersão no mundo físico, concreto e sensorial. É o mundo do “estar junto”. O segundo parágrafo quebra bruscamente esse clima. A “Rede” agora “convoca”, uma palavra quase impositiva. E a experiência não é de paz, mas de questionamento sobre a própria identidade.

O comando da questão é rei. Ele pergunta o que essa estratégia evidencia. A resposta tem que ser a conclusão que tiramos ao ver esses dois mundos em conflito. A conclusão é que um mundo (o digital) impactou, alterou e talvez empobreceu a experiência do outro (o real).

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A armadilha aqui é se apaixonar por uma alternativa que descreve uma parte do texto, mas não sua intenção geral. A alternativa (C), “os conflitos de identidade dos usuários da internet”, é a mais perigosa. O texto de fato levanta essa questão. CUIDADO! O conflito de identidade é apresentado como um exemplo, um sintoma do problema maior. O problema maior, a ideia que engloba tudo, é o impacto geral que a tecnologia teve em nós. A pergunta sobre identidade é apenas uma das consequências desse impacto.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: Ao contrastar a experiência concreta e sensorial da rede-alpendre com a experiência abstrata e questionadora da rede-digital, a autora evidencia como a tecnologia mudou a forma como nos conectamos e vivemos.
  • Expectativa: A alternativa correta deve abordar essa ideia de mudança, efeito ou impacto causado pela tecnologia nas experiências ou interações humanas.

PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) as formas de comunicação em meios digitais.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor identifica que o texto fala sobre as redes sociais, que são formas de comunicação.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo. O texto não descreve as formas de comunicação digital (chats, posts, etc.). Ele as critica por oposição à comunicação real. O foco não é o “como”, mas o “efeito”.
  • Como estaria certa? A alternativa estaria correta se o texto analisasse as diferenças entre mandar um áudio, um texto ou fazer uma videochamada, explicando as nuances de cada formato.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) a necessidade de atualização das mídias sociais.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor interpreta a crítica do texto como uma sugestão de que as redes precisam melhorar.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto não faz uma crítica técnica ou funcional das redes, mas sim uma crítica existencial ao seu papel em nossas vidas. Não há sugestão de “atualização”.
  • Como estaria certa? A alternativa estaria correta se o texto dissesse algo como: “As redes sociais precisam evoluir, talvez incorporando recursos que estimulem encontros reais, para não nos prenderem tanto às telas”.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) os conflitos de identidade dos usuários da internet.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor se prende à pergunta explícita do texto: “o que somos lá dentro é o que somos do lado de fora?”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo (Descrever o Sintoma, não a Doença). Esta é a armadilha principal. O conflito de identidade é uma consequência do impacto da tecnologia, não o impacto em si. A alternativa (D) é mais ampla e fundamental.
  • Como estaria certa? A alternativa estaria correta se o texto se aprofundasse unicamente nessa questão, talvez discutindo avatares, personas online e a ansiedade de manter uma imagem digital, sem o contraponto da rede-alpendre.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) o impacto das tecnologias nas interações humanas.

  • Análise de Correspondência: Esta alternativa é o encaixe perfeito com a nossa “Expectativa”. “Tecnologias” (a Rede digital) e seu “impacto” nas “interações humanas” (representadas pela rede-alpendre e a perda de suas qualidades sensoriais). Ela captura a essência do contraste.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

E) os desejos de compartilhar vivências com os amigos.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor foca no primeiro parágrafo, que descreve uma vivência desejável com amigos.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Erro de Foco. O texto usa essa vivência desejável como um ponto de contraste para mostrar o que foi perdido ou alterado. A ênfase não está no desejo em si, mas na mudança de como (e se) o realizamos hoje.
  • Como estaria certa? A alternativa estaria correta se o texto fosse uma crônica nostálgica, focada apenas em exaltar a alegria de estar com amigos, sem a oposição crítica com o mundo digital.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: A resposta correta é a letra D, pois a autora usa a genialidade da palavra “rede” para tecer dois mundos opostos, nos fazendo sentir não apenas a diferença entre eles, mas o impacto profundo que um teve sobre o outro.

Resumo-flash (A Imagem Mental): Uma rede foi feita para embalar o corpo e conectar pessoas; a outra, para prender a mente e questionar quem somos.

Para ir Além (A Ponte para o Futuro): A reflexão da autora é uma materialização poética de um dos conceitos centrais do filósofo Marshall McLuhan: “O meio é a mensagem”. McLuhan argumentava que o mais importante sobre uma nova tecnologia não é o conteúdo que ela transmite, mas como o próprio meio (a TV, a internet) reestrutura nossas vidas, nossas relações e nossa percepção da realidade. O texto não critica um post específico (o conteúdo), mas a própria “Rede” (o meio), mostrando que sua mera existência já altera fundamentalmente a experiência humana, exatamente como McLuhan previu.

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