Seria até engraçado, se não fosse trágico, porque na hora que a pessoa tem uma doença, ela fica se achando responsável por ter a doença. E se você pegar na história da medicina, sempre foi feito isso ― os que tinham lepra eram considerados ímpios; tinham lepra porque não eram tementes a Deus, porque não eram homens e mulheres que tinham uma vida religiosa. Os tuberculosos, no início do século, na epidemia de tuberculose na Europa inteira, aqui em São Paulo, no Brasil todo, eram pessoas devassas, jovens devassos. Com a Aids nós vimos a mesma coisa. Quem tinha Aids, quem eram? Eram os promíscuos e os viciados em drogas, não é?
Entrevista de Dráuzio Varella no programa Roda Viva em 30 ago. 2004.
Disponível em: www.rodaviva.fapesp.br. Acesso em: 30 jan. 2012 (adaptado).
Dráuzio Varella discute a associação entre doença e costumes cotidianos. De acordo com o argumento apresentado, essa associação indica:
A) a culpabilização de hábitos considerados como desregrados, adequando comportamentos.
B) o desejo de estender a qualidade de vida, controlando as populações mais jovens.
C) a classificação dos grupos de risco, buscando impedir o contágio.
D) a diminuição da fé religiosa, na modernidade, rejeitando a vida celibatária.
E) o desenvolvimento da medicina, propondo terapêuticas que melhorem a vida do doente.

✍ Resolução Em Texto
📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Sociologia da Saúde (Relação entre doença, sociedade e moral)
- História da Medicina
- Interpretação de Texto e Análise de Argumentos
🎯 Tema/Objetivo Geral: Compreensão do processo de estigmatização e culpabilização do doente na história.
🎯 Nível da Questão: Médio – A questão exige que o aluno identifique o padrão argumentativo de Dráuzio Varella, que é a repetição de um mesmo mecanismo social (associar doença a um desvio moral) em diferentes épocas. É preciso captar a lógica por trás dos exemplos, e não apenas os exemplos em si.
✅ Gabarito: A – A alternativa está correta, pois o argumento central de Varella é que a sociedade historicamente culpa a vítima, associando a doença a comportamentos “desregrados” para, no fundo, reforçar uma norma moral e controlar o comportamento das pessoas.
📖 Resolução Passo a Passo
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
Transcrição Essencial 📌
“De acordo com o argumento apresentado, essa associação [entre doença e costumes cotidianos] indica:”
O que está sendo pedido? 📌
A questão quer que a gente identifique qual é a função social ou a consequência desse hábito histórico de associar doenças a comportamentos morais específicos, segundo a análise de Dráuzio Varella.
Objetivo Cristalino 📌
Nosso objetivo é entender o padrão que se repete nos exemplos dados por Varella (lepra, tuberculose, Aids) e encontrar a alternativa que descreve a lógica por trás desse padrão: a de culpar o doente e regular a sociedade.
Pergunta de Atenção ✔
Quando alguém diz “fulano pegou essa doença porque era muito festeiro”, qual é a mensagem subliminar? Apenas uma observação médica ou um julgamento moral sobre o estilo de vida da pessoa? É essa distinção que Dráuzio Varella nos convida a fazer.
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
| Termo/Conceito | Explicação Simples e Direta | Exemplo (Analogia) |
| Culpabilização da Vítima | É o ato de responsabilizar a pessoa que sofreu um dano (uma doença, um crime) pelo que lhe aconteceu. Em vez de focar nas causas estruturais ou no agressor, a culpa é transferida para o comportamento da vítima. | Dizer que uma pessoa foi assaltada porque estava usando um celular caro na rua, em vez de focar na falta de segurança pública ou na desigualdade social. |
| Estigma Social | É uma marca ou rótulo negativo forte que uma sociedade atribui a pessoas ou grupos, fazendo com que sejam discriminados e vistos como inferiores ou “errados”. | O preconceito que ex-presidiários sofrem ao tentar conseguir um emprego. O fato de ter sido preso vira um estigma que o persegue. |
| Controle Social | São os mecanismos (formais, como a lei, ou informais, como a fofoca e a pressão de grupo) que uma sociedade usa para garantir que seus membros sigam as normas e regras de comportamento estabelecidas. | A pressão dos amigos para que você não se vista de uma maneira considerada “estranha” é uma forma de controle social informal. |
| Moralização da Doença | É o processo de tratar uma condição de saúde não como um problema puramente biológico, mas como um reflexo de uma falha moral ou de caráter da pessoa doente. A doença vira um “castigo” por um “pecado”. | É exatamente o que Varella descreve: a lepra era vista como castigo pela impiedade, a tuberculose como resultado da “devassidão”, etc. |
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
Contextualização Simplificada 📌
Vamos “traduzir” o raciocínio do Dráuzio: “É impressionante como a história se repete. Sempre que surge uma doença grave, a gente arruma um jeito de culpar quem fica doente. Antigamente, quem tinha lepra era ‘pecador’. Depois, quem tinha tuberculose era ‘farrista’. Mais recentemente, quem tinha Aids era ‘promíscuo’. A gente sempre cola um rótulo moral na doença. Isso não é só trágico para o doente, que se sente culpado, mas também é um jeito que a sociedade encontra de dizer: ‘Viram? Não sejam como eles! Se comportem!’”. A pergunta é: qual é o nome dessa dinâmica social?
Estratégia Geral 📌
Vamos identificar o padrão comum aos três exemplos (lepra, tuberculose, Aids). Em todos os casos, a doença é associada a um comportamento visto como negativo ou desviante pela moral da época. A estratégia é entender qual a função desse mecanismo: por que a sociedade faz isso?
🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
Passo a Passo Detalhado 📌
- O Padrão Argumentativo: Dráuzio Varella apresenta uma série de exemplos históricos para provar um ponto.
- Exemplo 1 (Lepra): Doença = Impiedade / Falta de fé.
- Exemplo 2 (Tuberculose): Doença = Devassidão / Vida boêmia.
- Exemplo 3 (Aids): Doença = Promiscuidade / Vício em drogas.
- O Elemento Comum: Em todos os casos, a doença é ligada a um comportamento considerado desregrado ou moralmente condenável.
- A Primeira Consequência (para o indivíduo): “a pessoa tem uma doença, ela fica se achando responsável”. Isso é a culpabilização do doente.
- A Segunda Consequência (para a sociedade): Ao associar a doença a um comportamento indesejado, a sociedade cria uma poderosa ferramenta de controle social. A mensagem implícita é: “se você não seguir as nossas regras morais (não for devoto, não for casto, etc.), você será punido com a doença”. Isso serve para adequar comportamentos, ou seja, forçar as pessoas a se encaixarem na norma vigente.
- A Síntese: A associação entre doença e costumes é um mecanismo de culpabilização individual que funciona como uma forma de regular e disciplinar o comportamento social.
Possível armadilha ❓/ ✔
A alternativa (C) sobre “grupos de risco” é uma armadilha sutil. A medicina, de fato, usa o conceito de “grupo de risco” para fins epidemiológicos (identificar quem tem mais chance de contrair uma doença). No entanto, o argumento de Varella é sobre como a sociedade pega esse conceito técnico e o transforma em um julgamento moral. Ele não está criticando o conceito médico, mas a sua apropriação para fins de estigmatização.
Fechamento e expectativa
O raciocínio nos leva a procurar a alternativa que fale sobre culpar o indivíduo por seu comportamento “desviante” como forma de reforçar as normas morais da sociedade.
✅ Passo 5: Análise das Alternativas
Listagem das Alternativas
A) a culpabilização de hábitos considerados como desregrados, adequando comportamentos.
B) o desejo de estender a qualidade de vida, controlando as populações mais jovens.
C) a classificação dos grupos de risco, buscando impedir o contágio.
D) a diminuição da fé religiosa, na modernidade, rejeitando a vida celibatária.
E) o desenvolvimento da medicina, propondo terapêuticas que melhorem a vida do doente.
Justificativa Individual
- 🟢 (A) Correta. Esta alternativa captura perfeitamente os dois lados do argumento: “culpabilização de hábitos desregrados” (a causa apontada para a doença) e “adequando comportamentos” (a função de controle social que esse discurso exerce).
- 🔴 (B) Incorreta. O objetivo descrito não é “estender a qualidade de vida”, mas sim estigmatizar e controlar. Além disso, o foco não é apenas nos jovens (o exemplo da lepra é religioso e se aplica a qualquer idade).
- 🔴 (C) Incorreta. Como explicado na armadilha, Varella critica a transformação do conceito de “grupo de risco” em um rótulo moral, e não o conceito médico em si. A intenção descrita por ele não é a prevenção, mas a estigmatização.
- 🔴 (D) Incorreta. O texto mostra o oposto, especialmente no exemplo da lepra, onde a falta de fé religiosa era vista como a causa da doença. O argumento não é sobre a diminuição da fé, mas sobre como a moral (religiosa ou não) é usada para explicar a doença.
- 🔴 (E) Incorreta. O argumento de Varella critica um aspecto social e cultural da medicina, não seu desenvolvimento terapêutico. Ele está falando de como a sociedade interpreta a doença, não de como a medicina a trata.
🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
Resumo do Raciocínio 📌
Dráuzio Varella demonstra que, historicamente, a sociedade tende a moralizar as doenças, associando-as a comportamentos considerados desviantes. Esse mecanismo serve a um duplo propósito: culpar o indivíduo por seu sofrimento e, ao mesmo tempo, usar o medo da doença como uma forma de controle social para reforçar normas de comportamento.
Gabarito Reafirmado 📌
A alternativa correta é a A, pois ela sintetiza com precisão a ideia de culpar o doente por seus hábitos para regular o comportamento da sociedade.
Resumo Final para Revisão 🔍
Lembre-se: quando a sociedade não consegue ou não quer lidar com as verdadeiras causas de um problema, ela frequentemente recorre a uma solução mais fácil: encontrar um culpado. No caso das doenças, o alvo mais fácil sempre foi o próprio doente.