33ª poética
estou farta da materialidade embrulhada do signo
da metalinguagem narcísica dos poetas
do texto de espelho em punho revirando os óculos
modernos
estou farta dessa falta enxuta
dessa ausência de objetos rotundos e contundentes
do conluio entre cifras e cifrantes
da feminil hora quieta da palavra
da lista (política raquítica sifilítica) de supersignos
cabais: “duro ofício”, “espaço em branco”, “vocábulo delirante”,
“traço infinito”
quero antes
a página atravancada de abajures
o zoológico inteiro caindo pelas tabelas
a sedução os maxilares
o plágio atroz
ratas devorando ninhadas úmidas
multidões mostrando as dentinas
multidões desejantes
diluvianas
bandos ilícitos fartos excessivos pesados e
bastardos
a pecar e por cima
os cortinados do pudor
vedando tudo
com goma
de mascar
Recorrendo à intertextualidade e à metalinguagem, esse poema expande os referentes da poética de Manuel Bandeira ao
A) reiterar a importância da tradição inaugurada pela primeira geração modernista.
B) optar por uma linguagem de sentido impreciso, marcando o afastamento do leitor.
C) propor novos níveis de possibilidades semânticas, por meio de neologismos.
D) configurar uma poesia identitária, demarcada pela manifestação de gênero.
E) introduzir, no espaço do repertório tradicional, imagens de efeito desconcertante.

Resolução Em Texto
📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Literatura Brasileira (Poesia Marginal/Geração de 70, Modernismo – Manuel Bandeira)
- Teoria da Literatura (Metalinguagem, Intertextualidade)
- Interpretação de Texto Poético
🎯 Tema/Objetivo Geral
Análise de um poema metalinguístico de Ana Cristina Cesar, identificando como ele dialoga com e expande a tradição da metapoesia modernista, especialmente a de Manuel Bandeira.
📊 Nível da Questão
Difícil.
Por quê? A questão é altamente conceitual. Exige: 1) A compreensão do que é um poema metalinguístico. 2) O conhecimento do poema “Poética” de Manuel Bandeira (a referência intertextual). 3) A interpretação da poética de Ana Cristina Cesar como uma ruptura que, paradoxalmente, expande a tradição. 4) A capacidade de traduzir a linguagem imagética e visceral da segunda parte do poema (“zoológico inteiro”, “ratas devorando ninhadas”) em um conceito de teoria literária (“imagens de efeito desconcertante”).
✅ Gabarito
Alternativa E.
Resumo: O poema dialoga com a poética de Manuel Bandeira (que também declarou estar “farto” de certo lirismo). No entanto, Ana C. Cesar vai além: após criticar uma poesia que ela considera vazia e autorreferente (o “repertório tradicional” da metalinguagem), ela propõe uma nova poética, baseada na vida crua, no excesso e em imagens chocantes e viscerais (“ratas devorando ninhadas”, “multidões mostrando as dentinas”), que têm um efeito desconcertante sobre o leitor.
Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
Transcrição Essencial 📌
“Recorrendo à intertextualidade e à metalinguagem, esse poema expande os referentes da poética de Manuel Bandeira ao”
O que está sendo pedido?
A questão nos pede para explicar como o poema de Ana Cristina Cesar, embora partindo de uma referência a Manuel Bandeira, consegue ir além e propor algo novo.
Objetivo Cristalino 💎
Nosso objetivo é:
- Reconhecer a intertextualidade com o poema “Poética” de Bandeira (a repetição de “Estou farto…”).
- Analisar o que Ana C. Cesar critica na primeira parte do poema.
- Analisar o que ela propõe como alternativa na segunda parte.
- Entender como essa proposta “expande” a tradição.
🧠 Manuel Bandeira disse estar farto do “lirismo comedido”. Ana Cristina Cesar também está farta. Mas farta do quê? E o que ela quer colocar no lugar? A resposta dela é mais “comportada” ou mais “radical” que a de Bandeira?
Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessários
Definição de Termos 🔖
- Metalinguagem (em poesia): É quando o poema fala sobre o próprio ato de escrever poesia, sobre a linguagem, sobre o ofício do poeta. O poema de Ana C. Cesar é metalinguístico.
- Intertextualidade: É o diálogo entre textos. O poema de Ana C. Cesar dialoga diretamente com o poema “Poética” de Manuel Bandeira, que também começa com “Estou farto…”. Bandeira estava farto do lirismo parnasiano e simbolista.
- Poesia Marginal (ou Geração de 70): Geração de poetas que atuaram à margem do circuito editorial oficial durante a ditadura militar. A poesia de Ana Cristina Cesar faz parte desse contexto, caracterizado por uma linguagem coloquial, confessional, fragmentária e, muitas vezes, pela incorporação do “sujo”, do corpo e do cotidiano de forma crua.
- Repertório Tradicional (neste contexto): O poema critica o que se tornou o “novo tradicional”: a própria metalinguagem modernista, que, na visão da autora, virou um clichê vazio e “narcísico” (“espaço em branco”, “duro ofício”, etc.).
Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
Contextualização Simplificada 💬
Imagine que a poesia é uma casa. Manuel Bandeira, lá no Modernismo, chegou e disse: “Estou farto desta casa antiga, com seus móveis arrumadinhos (o lirismo parnasiano)! Vou quebrar tudo e construir uma nova!”.
Muitos anos depois, chega Ana Cristina Cesar. Ela olha para a “casa nova” que os modernistas construíram e diz: “Estou farta desta casa também! Ela virou um museu de si mesma, cheia de poetas se olhando no espelho e falando sobre ‘o espaço em branco da página'”.
O que ela quer no lugar? Ela não quer uma casa arrumada. Ela quer o caos da vida invadindo a poesia. Ela quer “o zoológico inteiro”, “ratas devorando ninhadas”, “multidões desejantes”. Ela quer o visceral, o pesado, o excessivo, o feio, o chocante.
A pergunta é: o que ela faz de novo? Ela pega o repertório que já era “tradicional” (a própria metapoesia modernista) e joga dentro dele um monte de imagens brutais, desconcertantes, que quebram a expectativa do que é “poético”.
Estratégia Geral 🗺️
Nossa estratégia será dividir o poema em suas duas partes antagônicas: a “pars destruens” (o que ela critica) e a “pars construens” (o que ela propõe), para entender a natureza da ruptura que ela está defendendo.
Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
Passo a Passo Detalhado 👣
- A Parte Crítica (O “Estou farta”):
- A eu lírica rejeita uma poesia que se tornou excessivamente autorreferente e vazia: “metalinguagem narcísica”, “texto de espelho em punho”.
- Ela critica a “ausência de objetos rotundos e contundentes”, ou seja, uma poesia sem corpo, sem matéria, sem o peso do real.
- Ela zomba dos clichês da metapoesia: “duro ofício”, “espaço em branco”, “vocábulo delirante”. Isso é o “repertório tradicional” que ela está atacando.
- A Proposta Poética (O “Quero antes”):
- A segunda parte do poema é uma avalanche de imagens que representam o que ela deseja em sua poesia.
- Essas imagens são o oposto do que foi criticado. Elas são concretas, viscerais, violentas e excessivas.
- Exemplos: “o zoológico inteiro caindo pelas tabelas”, “o plágio atroz”, “ratas devorando ninhadas úmidas“, “multidões mostrando as dentinas”.
- Análise das Imagens Propostas: A escolha de imagens como “ratas devorando ninhadas” é deliberadamente anti-poética, chocante. O objetivo é quebrar a noção de que a poesia deve tratar apenas do “belo” ou do “elevado”. Essas imagens têm um efeito desconcertante.
- A Expansão da Poética de Bandeira: Bandeira queria trazer a vida cotidiana (o sapo, a febre, o cuspe) para a poesia. Ana C. Cesar radicaliza essa proposta. Ela não quer apenas o cotidiano, ela quer o excesso, o ilícito, o “pesado e bastardo”, o corpo em sua crueza. Ela expande o projeto modernista ao introduzir no espaço poético imagens ainda mais radicais e perturbadoras.
Passo 5: Análise das Alternativas
🔴 A) reiterar a importância da tradição inaugurada pela primeira geração modernista.
Incorreta. Ela não reitera, ela critica e busca superar o que considera um esgotamento dessa tradição metalinguística.
🔴 B) optar por uma linguagem de sentido impreciso, marcando o afastamento do leitor.
Incorreta. Pelo contrário, as imagens que ela propõe são brutalmente concretas e de sentido direto (“ratas devorando ninhadas”). O objetivo não é o afastamento, mas o choque, o impacto.
🔴 C) propor novos níveis de possibilidades semânticas, por meio de neologismos.
Incorreta. O poema não se baseia na criação de neologismos (palavras novas), mas no uso chocante de palavras e imagens já existentes.
🔴 D) configurar uma poesia identitária, demarcada pela manifestação de gênero.
Incorreta. Embora Ana C. Cesar seja uma poeta importante para os estudos de gênero, este poema específico tem um foco metalinguístico (sobre o fazer poético em geral), e não explicitamente em uma “manifestação de gênero”.
🟢 E) introduzir, no espaço do repertório tradicional, imagens de efeito desconcertante.
Correta. Esta alternativa descreve com precisão a estratégia da poeta. Ela parte do “repertório tradicional” da metapoesia modernista, que ela critica, e propõe “introduzir” nele imagens chocantes, viscerais e anti-poéticas (“ratas devorando ninhadas”, etc.), que causam um “efeito desconcertante”.
Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
Resumo do Raciocínio 📝
O poema de Ana Cristina Cesar estabelece um diálogo intertextual com a tradição metapoética modernista, inaugurada por poetas como Manuel Bandeira, ao mesmo tempo em que a critica. Na primeira parte, o eu lírico expressa seu cansaço com uma poesia que se tornou narcísica e repleta de clichês sobre o fazer poético. Na segunda parte, em contraposição, ele propõe uma nova poética que abrace a materialidade, o excesso, o corpo e o visceral. Essa proposta se materializa na enumeração de imagens deliberadamente chocantes e anti-líricas (“ratas devorando ninhadas úmidas”), cujo objetivo é causar um efeito desconcertante e expandir os limites do que é considerado matéria poética, radicalizando o projeto modernista.
Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a E.
Resumo Final para Revisão 🔍
Pense na poesia de Ana C. Cesar (e da Geração de 70) como uma que leva a proposta modernista ao extremo. Se Bandeira quis “sujar” a poesia com a vida cotidiana, ela quis “sujar” com o corpo, o desejo, a violência, o excesso. A palavra-chave para entender sua proposta é choque ou desconcerto.