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Questão 28, caderno azul do ENEM 2010 PPL

Dali avistamos homens que andavam pela praia, obra de sete ou oito. Eram pardos, todos nus. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Não fazem o menor caso de encobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto. Ambos traziam os beiços de baixo furados e metidos neles seus ossos brancos e verdadeiros. Os cabelos seus são corredios. 

CAMINHA, P. V. Carta. RIBEIRO, D. et al. Viagem pela história do Brasil:
 documentos. São Paulo: Companhia das Letras, 1997 (adaptado).

O texto é parte da famosa Carta de Pero Vaz de Caminha, documento fundamental para a formação da identidade brasileira. Tratando da relação que, desde esse primeiro contato, se estabeleceu entre portugueses e indígenas, esse trecho da carta revela a

A) preocupação em garantir a integridade do colonizador diante da resistência dos índios à ocupação da terra.

B) postura etnocêntrica do europeu diante das características físicas e práticas culturais do indígena.

C) orientação da política da Coroa Portuguesa quanto à utilização dos nativos como mão de obra para colonizar a nova terra.

D) oposição de interesses entre portugueses e índios, que dificultava o trabalho catequético e exigia amplos recursos para a defesa da posse da nova terra.

E) abundância da terra descoberta, o que possibilitou a sua incorporação aos interesses mercantis portugueses, por meio da exploração econômica dos índios.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
História do Brasil (Período Pré-Colonial e Colonial), Literatura (Carta de Pero Vaz de Caminha), Antropologia (Etnocentrismo), Interpretação Textual.

Tema/Objetivo Geral:
Analisar a perspectiva europeia sobre os povos indígenas no primeiro contato, evidenciando o etnocentrismo presente na Carta de Pero Vaz de Caminha.

Nível da Questão
Fácil. A questão exige a leitura atenta do trecho da carta e a aplicação de um conceito fundamental (etnocentrismo) para compreender a forma como os portugueses descreviam os indígenas, baseando-se em seus próprios padrões culturais.

Gabarito
A alternativa correta é a B. O trecho da carta de Pero Vaz de Caminha, ao descrever os indígenas a partir das lentes dos valores e costumes europeus, revela uma postura etnocêntrica.


Resolução Passo a Passo

🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

Transcrição Essencial
“Tratando da relação que, desde esse primeiro contato, se estabeleceu entre portugueses e indígenas, esse trecho da carta revela a”

O que está sendo pedido?
O comando solicita que identifiquemos o que o trecho da Carta de Pero Vaz de Caminha revela sobre a relação e a percepção que se estabeleceu entre portugueses e indígenas desde o primeiro contato.

Objetivo Cristalino
Analisar as descrições de Pero Vaz de Caminha sobre os indígenas para inferir qual a perspectiva cultural e o tom predominante na observação europeia dos povos nativos.

Pergunta de Atenção
Você notou como Caminha descreve as roupas, os adornos e o comportamento dos indígenas? Ele os vê como “iguais” ou os compara com os padrões que ele já conhece na Europa?


📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

Termo/ConceitoClassificaçãoExplicação Simples e Fácil de EntenderExemplo do Cotidiano
Carta de Pero Vaz de CaminhaDocumento Histórico/LiterárioEscrita em 1500, é o primeiro documento conhecido que descreve o “descobrimento” do Brasil e o primeiro contato dos portugueses com os povos indígenas.É o “relato oficial” da chegada dos portugueses, como se fosse o primeiro noticiário sobre o Brasil.
Primeiro ContatoHistória do BrasilO momento inicial em que os europeus e os povos nativos do território que viria a ser o Brasil se encontraram.A primeira vez que portugueses e indígenas se viram e interagiram, com todas as diferenças culturais e o estranhamento mútuo.
Indígenas BrasileirosPovos OrigináriosAs diversas etnias que habitavam o território brasileiro antes da chegada dos colonizadores europeus.Os grupos nativos que viviam aqui, como os Patachós, Guaranis, Tupinambás, com suas próprias línguas, costumes e culturas.
EtnocentrismoAntropologia/SociologiaA tendência de julgar e interpretar outras culturas a partir dos valores e padrões da própria cultura, considerando a sua como superior ou “normal”.Quando alguém de um país ocidental julga os costumes alimentares de um país oriental como “estranhos” ou “errados” simplesmente porque são diferentes dos seus.
Práticas CulturaisCultura/AntropologiaAs formas de vida, costumes, rituais, crenças e comportamentos que são característicos de um determinado grupo social ou povo.A forma de se vestir, os adornos corporais, a maneira de se alimentar e os rituais de um povo são exemplos de suas práticas culturais.

📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

Contextualização Simplificada
O texto é um pedacinho da famosa carta que Pero Vaz de Caminha escreveu para o rei de Portugal quando chegou ao Brasil. Nela, ele descreve os índios que viu na praia: nus, com arcos e flechas, e com ossos nos beiços. Ele também fala que eles não ligam de mostrar o corpo e são inocentes nisso. A pergunta quer que a gente descubra o que essa descrição nos diz sobre como os portugueses viam os índios e como essa relação começou.

Estratégia Geral
Vamos analisar as palavras e o tom de Caminha ao descrever os indígenas. O fato de ele focar em suas características físicas e costumes (como a nudez e os adornos), e julgá-los a partir de uma perspectiva “inocente” ou “diferente”, nos dará a pista sobre a mentalidade cultural do observador europeu.


🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

O trecho da Carta de Pero Vaz de Caminha é um registro valioso do primeiro contato, mas é fundamental analisá-lo com um olhar crítico sobre a perspectiva do autor.

  • Observações de Caminha:
    • Aparência física: “Eram pardos, todos nus.”
    • Costumes corporais: “Não fazem o menor caso de encobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto.” Essa frase é crucial. Caminha observa o nudismo, um comportamento totalmente alheio aos padrões europeus da época. Ao usar a palavra “inocência”, ele não está aceitando a nudez como uma prática cultural válida em si, mas a interpreta como uma falta de conhecimento ou malícia, um julgamento feito a partir de sua própria moralidade cristã e europeia sobre o pudor.
    • Adornos: “Ambos traziam os beiços de baixo furados e metidos neles seus ossos brancos e verdadeiros.” A descrição é detalhada e demonstra curiosidade, mas ao mesmo tempo um certo estranhamento com algo que não fazia parte do seu universo cultural.
  • A Perspectiva Subjacente: Todas as descrições são feitas em comparação implícita com os padrões europeus de vestimenta, moralidade, beleza e civilidade. O indígena é caracterizado pelo que não tem (roupas) ou pelo que tem de diferente (ossos no beiço), e essas diferenças são interpretadas à luz dos valores de Caminha. Ele não tenta entender o significado cultural da nudez ou dos adornos para os indígenas, mas os classifica a partir de sua própria bagagem cultural.
  • Definição de Etnocentrismo: Essa forma de observar e julgar outra cultura, considerando a própria como o padrão ou o centro, é precisamente o etnocentrismo. Caminha não se despoja de sua cultura para entender a dos nativos, mas a usa como régua para medi-los.
  • Conexão com a Alternativa B: A alternativa B, “postura etnocêntrica do europeu diante das características físicas e práticas culturais do indígena”, descreve exatamente o que se revela no trecho da carta. As observações de Caminha são uma demonstração clássica de etnocentrismo.

Verificação Intermediária
A descrição dos indígenas é carregada de comparações e julgamentos implícitos baseados nos valores europeus de Caminha. O conceito de “inocência” atribuído à nudez, por exemplo, é um julgamento cultural.

Possível armadilha
Uma armadilha comum seria interpretar a “inocência” mencionada por Caminha como um sinal de aceitação ou não-julgamento. No entanto, o termo “inocência” aqui é um juízo de valor baseado na moral cristã europeia sobre a nudez, e não um reconhecimento da validade da prática cultural indígena em seus próprios termos. Outras alternativas podem tentar desviar para questões de conflito (A e D), política de trabalho (C) ou exploração econômica (E), mas o trecho em questão é uma descrição de primeiro contato, e o que mais salta à vista é a forma como essa descrição é feita.

Fechamento e expectativa
Nosso raciocínio indica que a maneira como Caminha descreve os indígenas é um exemplo direto de etnocentrismo. A alternativa que reflete essa postura cultural é a mais provável.


✅ Passo 5: Análise das Alternativas

(🔴) Alternativa A: Esta alternativa está incorreta. O trecho da carta é uma descrição inicial dos nativos e seus costumes, e não expressa preocupação com a “integridade do colonizador diante da resistência dos índios”. Não há menção a resistência no trecho, e o tom é de observação, não de temor.

(🟢) Alternativa B: Esta alternativa está correta. A descrição detalhada de Caminha sobre a nudez dos índios, seus adornos (“beiços de baixo furados e metidos neles seus ossos”), e a interpretação de sua despreocupação em mostrar o corpo como “tanta inocência”, são claras manifestações de uma postura etnocêntrica. Ele está julgando e categorizando os indígenas a partir dos padrões culturais e morais europeus.

(🔴) Alternativa C: Esta alternativa está incorreta. O trecho é um relato de primeiro contato e observação, e não contém informações sobre a “orientação da política da Coroa Portuguesa quanto à utilização dos nativos como mão de obra”.

(🔴) Alternativa D: Esta alternativa está incorreta. O trecho da carta foca na descrição dos indígenas no primeiro contato, sem abordar a “oposição de interesses entre portugueses e índios” ou dificuldades específicas relacionadas ao “trabalho catequético” ou à “defesa da posse da nova terra”.

(🔴) Alternativa E: Esta alternativa está incorreta. Embora o Brasil fosse de fato uma “terra descoberta” com abundância de recursos, o trecho da carta não foca na sua “incorporação aos interesses mercantis” ou na “exploração econômica dos índios”. O foco é na descrição inicial dos habitantes.


🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

Resumo do Raciocínio
O trecho da Carta de Pero Vaz de Caminha descreve os indígenas através de um olhar europeu, categorizando suas características físicas e culturais (como a nudez) a partir de padrões e valores próprios. Essa forma de observação, que toma a própria cultura como referência e medida para a outra, é uma clara expressão de etnocentrismo.

Gabarito Reafirmado
A alternativa correta é a B.

Resumo Final para Revisão 🔍
Ao ler relatos de “descoberta”, sempre questione: quem está olhando e com que olhos? A descrição de Caminha é um exemplo clássico de etnocentrismo, julgando o “outro” pelo padrão do “eu”!

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