Pra onde vai essa estrada?
— Sô Augusto, pra onde vai essa estrada?
O senhor Augusto:
— Eu moro aqui há 30 anos, ela nunca foi pra parte nenhuma, não.
— Sô Augusto, eu estou dizendo se a gente for andando aonde a gente vai?
O senhor Augusto:
— Vai sair até nas Oropas, se o mar der vau.
Vocabulário
Vau: Lugar do rio ou outra porção de água onde esta é pouco funda e, por isso, pode ser transposta a pé ou a cavalo.
MAGALHÃES, L. L. A.; MACHADO, R. H. A. (Org.). Perdizes, suas histórias, sua gente, seu folclore. Perdizes: Prefeitura Municipal, 2005.
As anedotas são narrativas, reais ou inventadas, estruturadas com a finalidade de provocar o riso. O recurso expressivo que configura esse texto como uma anedota é o(a)
A) uso repetitivo da negação.
B) grafia do termo “Oropas”.
C) ambiguidade do verbo “ir”.
D) ironia das duas perguntas.
E) emprego de palavras coloquiais.

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão
Interpretação de texto, Gêneros textuais (anedota), Ambiguidade semântica, Função poética do humor, Polissemia verbal.
🎯 Nível da Questão: Médio
✅ Gabarito: Letra C
Resolução Passo a Passo
📖 Passo 1: Análise do Comando e Objetivo
Comando:
“O recurso expressivo que configura esse texto como uma anedota é o(a)…”
Objetivo da questão:
Identificar qual recurso de linguagem provoca o humor, caracterizando o texto como uma anedota — um gênero narrativo breve que utiliza elementos cômicos, ironias, trocadilhos ou mal-entendidos para gerar riso.
Palavras-chave:
- “Recurso expressivo”: foco em como o humor é construído;
- “Configura esse texto como uma anedota”: busca-se o elemento que causa o efeito de comicidade;
- “Ambiguidade”, “ironia”, “colóquio”: todas possíveis estratégias humorísticas.
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e conteúdos Necessários
🔹 Anedota:
É uma pequena narrativa (real ou fictícia) com fim cômico. Usa-se geralmente da oralidade e do cotidiano para gerar riso por meio de mal-entendidos, absurdos ou trocadilhos.
🔹 Ambiguidade Semântica:
Surge quando uma palavra ou expressão admite mais de um sentido possível no mesmo contexto. O humor da anedota frequentemente nasce dessa ambiguidade.
🔹 Verbo “ir”:
Esse verbo pode ser interpretado de modo concreto (deslocamento físico: para onde a estrada leva) ou de modo abstrato/metafórico (qual é o propósito ou utilidade da estrada).
🧠 Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
O diálogo cômico gira em torno do mal-entendido entre o personagem que pergunta e o “Sô Augusto”:
- O primeiro busca informação objetiva: “Pra onde vai essa estrada?”
- O segundo responde como se a estrada tivesse vontade própria e não “fosse a lugar algum”.
A resposta final:
“Vai sair até nas Oropas, se o mar der vau.”
→ mistura exagero (Oropas = Europa, em pronúncia caipira) com condição impossível (o mar dar vau, ou seja, ser raso o suficiente para atravessar).
O humor está todo na diferença de interpretação do verbo “ir”:
- Um fala da função pragmática da estrada;
- O outro, do movimento literal do objeto (como se a estrada tivesse pés).
✅ Passo 4: Análise das Alternativas e Resolução
A) Uso repetitivo da negação 🔴
“Ela nunca foi pra parte nenhuma.”
→ Apesar de conter uma negação, isso não é um recurso estruturante do humor. A comicidade não nasce da negação em si, mas da interpretação equivocada da pergunta.
Como estaria certa? Se o texto tivesse repetidamente usado negações para criar um paradoxo cômico.
B) Grafia do termo “Oropas” 🔴
→ Trata-se de um marcador regional e contribui para o tom coloquial, mas não é o centro da piada.
Como estaria certa? Se o humor estivesse baseado exclusivamente no contraste entre grafia popular e formal.
C) Ambiguidade do verbo “ir” 🟢
✅ Correta!
→ O riso é gerado pela dupla interpretação do verbo, que é o eixo da troca entre os personagens. A ambiguidade é o recurso essencial aqui.
D) Ironia das duas perguntas 🔴
→ As perguntas não são irônicas. O tom irônico não está no questionamento, mas sim na resposta absurda do Sô Augusto.
Como estaria certa? Se houvesse um jogo proposital de perguntas irônicas e respostas sérias.
E) Emprego de palavras coloquiais 🟡
→ Recurso secundário. A linguagem coloquial contribui para a ambientação e o tom, mas não constrói a piada por si só.
Como estaria certa? Se o humor viesse da forma como o personagem fala, e não do conteúdo.
🏁 Passo 5: Conclusão e Justificativa Final
O elemento que garante o efeito cômico da anedota é a ambiguidade do verbo “ir”, interpretado de forma literal por um personagem e figurada por outro. Essa diferença de leitura constrói o mal-entendido que gera riso, essência das anedotas. Assim, a alternativa correta é, com toda certeza, a letra C 🟢✨.