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Questão 25, caderno azul do ENEM 2023 PPL

Eu gosto muito de todas as festas de Diamantina; mas quando são na igreja do Rosário, que é quase pegada à chácara de vovó, eu gosto ainda mais. Até parece que a festa é nossa. E este ano foi mesmo. Foi sorteada para rainha do Rosário uma ex–escrava de vovó chamada Júlia e para rei um negro muito entusiasmado que eu não conhecia. Coitada de Júlia! Ela vinha há muito tempo ajuntando dinheiro para comprar um rancho. Gastou tudo na festa e ainda ficou devendo. Agora é que eu vi como fica caro para os pobres dos negros serem reis por um dia. Júlia com o vestido e a coroa já gastou muito. Além disso, teve de dar um jantar para a corte toda. A rainha tem uma caudatária que vai atrás segurando na capa que tem uma grande cauda. Esta também é negra da chácara e ajudou no jantar. Eu acho graça é no entusiasmo dos pretos neste reinado tão curto. Ninguém rejeita o cargo, mesmo sabendo a despesa que dá!

MORLEY, Helena. Minha vida de menina. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 57.

O trecho acima apresenta marcas textuais que justificam o emprego da linguagem coloquial. O tom informal do discurso se deve ao fato de que se trata de

A) narrativa regionalista, que procura reproduzir as características mais típicas da região, como as falas
dos personagens e o contexto social a que pertencem.
B) carta pessoal, escrita pela autora e endereçada a um destinatário específico, com o qual ela tem intimidade suficiente para suprimir as formalidades da correspondência oficial.
C) registro no diário da autora, conforme indicam a data, o emprego da primeira pessoa, a expressão de reflexões pessoais e a ausência de uma intenção literária explícita na escrita.
D) narrativa de memórias, na qual a grande distância temporal entre o momento da escrita e o fato narrado
impõe o tom informal, pois a autora tem dificuldade de se lembrar com exatidão dos acontecimentos narrados.
E) narrativa oral, em que a autora deve escrever como se estivesse falando para um interlocutor, isto é, sem se preocupar com a norma-padrão da língua portuguesa e com referências exatas aos acontecimentos
mencionados.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Gêneros Textuais: O Diário (características, marcas de subjetividade e informalidade).
  • Literatura Brasileira: Minha Vida de Menina (Helena Morley), um clássico da literatura de diário.
  • Variação Linguística: Registro informal/coloquial em textos escritos.

Tema/Objetivo Geral:
Identificar o gênero textual “diário” a partir de suas marcas internas (uso da 1ª pessoa, tom confessional, registro de fatos cotidianos, linguagem coloquial sem pretensão literária) e justificar o uso da informalidade com base nesse gênero.

Nível da Questão: Médio.

  • Justificativa: A questão não fornece a data no topo do texto (como é comum em diários), o que dificulta a identificação imediata. O aluno precisa inferir o gênero pelas pistas internas: “Eu gosto”, “Coitada de Júlia”, “Eu acho graça”. A linguagem é de quem conversa consigo mesma. A alternativa correta (C) é a única que lista todas essas características de forma coerente.

Gabarito: C.

  • Resumo: O texto é um trecho de um diário (Minha Vida de Menina). A autora escreve em 1ª pessoa (“Eu gosto”), em tom de conversa, relatando eventos do seu dia a dia (festa do Rosário) e emitindo opiniões pessoais (“Coitada de Júlia”). A ausência de formalidade literária e a espontaneidade são típicas desse gênero, onde se escreve para si mesmo.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Função Pedagógica: Ligar o estilo ao gênero.

Decodificação do Objetivo: A questão pergunta: “Por que esse texto parece uma conversa de comadres e não um livro sério?”. É porque a autora não sabe escrever? É porque é uma carta? Ou é porque é um diário secreto?

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que você acha um caderno velho.

Lá está escrito: “Hoje eu vi o João. Ele estava engraçado. Acho que gosto dele.”

Isso não é um romance. Isso não é uma carta (não tem “Querido Fulano”). Isso é um Diário.

No diário, a gente escreve como fala, porque ninguém vai ler (teoricamente).

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  • Identificar o tom: “Eu gosto”, “Coitada”, “Acho graça”. (Muito pessoal).
  • Identificar o público: Não há destinatário explícito. Ela fala sozinha.
  • Concluir que a informalidade vem do gênero Diário.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender por que a autora escreve como se estivesse conversando na cozinha de casa, precisamos comparar os “modos de escrita”. Vamos usar a Tabela da Intimidade Textual.

Característica Escrita Pública (Carta Oficial / Romance) Escrita Íntima (O Diário – Texto da Questão) 📔
Para quem escreve? Para o Outro (um destinatário externo). Para o Eu (si mesma ou um “amigo imaginário”).
Qual é a postura? Preocupação com a forma e a clareza. Espontaneidade total. Não há julgamento.
Como é a linguagem? Tende à norma padrão (o “terno e gravata”). Tende ao coloquial (o “pijama”).
Tempo da ação: Narrativa organizada. Imediata: “Agora é que eu vi”, “Este ano foi”.

Conceito Chave: O Registro de Si
O diário é o lugar onde a “máscara social” cai. A informalidade do texto (“quase pegada à chácara”) não é um erro ou uma tentativa literária de regionalismo; é a consequência natural de alguém que escreve para guardar o momento, sem a pressão de ser “chique” ou gramaticalmente perfeito para uma audiência.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos analisar as marcas no texto:

  • “Eu gosto muito… eu gosto ainda mais”. (Subjetividade total).
  • “Coitada de Júlia!”. (Exclamação emotiva, julgamento pessoal).
  • “Eu acho graça é no entusiasmo”. (Opinião sincera).
  • Ausência de destinatário: Ela não diz “Oi mãe” ou “Caro leitor”.

Síntese:
O texto não é uma carta (B), pois não tem interlocutor. Não é memória distante (D), pois ela diz “este ano foi mesmo”, indicando proximidade temporal. É um registro diário de uma menina que escreve para guardar suas impressões.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
A alternativa (E) (“narrativa oral”) é um distrator perigoso.

  • Por que seduz? Porque o texto é muito coloquial (“quase pegada à chácara”). Parece fala.
  • Por que está errada? O texto é escrito (“Minha vida de menina” é um livro). Dizer que é “narrativa oral” implica que foi transcrito de uma gravação ou contação de história. O diário imita a oralidade (escreve como se fala), mas é um gênero escrito. Além disso, a alternativa diz “sem se preocupar com a norma-padrão”, o que é um exagero; o texto é coloquial, mas não analfabeto.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O texto tem todas as digitais de um diário: 1ª pessoa, cotidiano, subjetividade e falta de formalidade literária.
  • Expectativa: A alternativa correta deve conter a palavra “diário” ou descrever suas características de escrita íntima e cotidiana.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

  • A) narrativa regionalista, que procura reproduzir as características mais típicas da região, como as falas dos personagens e o contexto social a que pertencem.
    • Diagnóstico do Erro: Confusão de Gênero.
    • Narrativa do Erro: Embora o livro seja considerado regionalista hoje, a intenção da autora ao escrever não era “procurar reproduzir características típicas” como um romancista faria. Ela estava apenas escrevendo seu diário. O regionalismo é uma consequência, não a causa da linguagem coloquial.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) carta pessoal, escrita pela autora e endereçada a um destinatário específico, com o qual ela tem intimidade suficiente para suprimir as formalidades da correspondência oficial.
    • Diagnóstico do Erro: Falta de Interlocutor.
    • Narrativa do Erro: Não há vocativo, despedida ou menção a um “você” (destinatário). A carta exige um “outro”. O diário é para o “eu”.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) registro no diário da autora, conforme indicam a data, o emprego da primeira pessoa, a expressão de reflexões pessoais e a ausência de uma intenção literária explícita na escrita.
    • Análise de Correspondência: Perfeito.
      • “Diário”: Confirmado pelo título da obra (Minha vida de menina) e pelo estilo.
      • “1ª pessoa/Reflexões”: “Eu gosto”, “Acho graça”.
      • “Ausência de intenção literária”: A linguagem é simples, direta, sem enfeites, focada no registro do fato e da emoção do momento. (Obs: A data não aparece no trecho, mas é citada na alternativa como característica do gênero).
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • D) narrativa de memórias, na qual a grande distância temporal entre o momento da escrita e o fato narrado impõe o tom informal, pois a autora tem dificuldade de se lembrar com exatidão dos acontecimentos narrados.
    • Diagnóstico do Erro: Erro de Tempo.
    • Narrativa do Erro: Memórias são escritas no futuro olhando para o passado (“Naquele tempo…”). O diário é escrito no presente ou passado imediato (“Este ano foi mesmo”). Não há “grande distância temporal”; a escrita é fresca.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • E) narrativa oral, em que a autora deve escrever como se estivesse falando para um interlocutor, isto é, sem se preocupar com a norma-padrão da língua portuguesa e com referências exatas aos acontecimentos mencionados.
    • Diagnóstico do Erro: Erro de Modalidade.
    • Narrativa do Erro: Como explicado na armadilha, é um texto escrito (diário), não uma transcrição de fala (narrativa oral). E ela se preocupa com referências exatas sim (“igreja do Rosário”, “Júlia”), pois é o registro da vida dela.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
Um diário é o camarim da alma: ao escrever sem a maquiagem da literatura formal, Helena Morley nos entrega um registro no diário (Alternativa C) genuíno, onde a linguagem coloquial não é descuido, mas a prova da intimidade de quem conversa com o papel.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
Diário = O Instagram do século XIX (sem filtro).

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Minha Vida de Menina é um livro único. Helena Morley (pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant) escreveu seus diários entre 1893 e 1895, mas só os publicou em 1942, já idosa. O livro encantou escritores como Carlos Drummond de Andrade e Elizabeth Bishop por sua frescura e verdade, provando que a vida simples, quando bem contada, vira alta literatura.

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