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Questão 22, caderno azul do ENEM 2021 – DIA 1

Os linguistas tem notado expansão do tratamento informal. “Tenho 78 anos e devia ser tratado por senhor, mas meus alunos jovens me chamam de você”, diz o professor Ataliba Castilho, aparentemente sem se incomodar com a informalidade, inconcebível em seus tempos de estudante. O você, porém, não reinará sozinho. O TU predomina em Porto Alegre e convive como o você no Rio de Janeiro e em Recife, enquanto você é o tratamento predominante em Curitiba, Belo Horizonte, São Paulo e Salvador. O tu já era mais próximo e menos formal que você nas quase 500 cartas do acervo online de uma instituição universitária, quase todas de poetas, políticos e outras personalidades do final do século XIX e início do século XX. 

No texto, constata-se que os usos de pronomes variaram ao longo do tempo e que atualmente têm empregos diversos nas regiões do Brasil. Esse processo revela que 

A) a escolha de ‘você’ ou de ‘tu’ está condicionada a idade da pessoa que usa o pronome.

B) a possibilidade de usar tanto ‘tu’ quanto ‘você’ caracteriza a diversidade da língua.

C) o pronome ‘tu’ tem sido empregado em situações informais por todo o  país.

D) a ocorrência simultânea de ‘tu’ e de ‘você’ evidencia a inexistência de distinção entre níveis de formalidade.

E) o emprego de ‘você’ em documentos escritos demonstra que a língua tende a se manter inalterada.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto
  • Linguística (Variação Linguística: Diatópica e Diacrônica)
  • Gramática (Uso de Pronomes de Tratamento)

Tema/Objetivo Geral: Compreender o fenômeno da variação linguística a partir do exemplo do uso dos pronomes “tu” e “você” no Brasil.

Nível da Questão: Médio.

  • Por quê? A questão exige que o leitor sintetize as diferentes informações do texto (a mudança ao longo do tempo, a diferença entre regiões) em um princípio geral sobre a língua. As alternativas incorretas testam a atenção a detalhes e a capacidade de não fazer generalizações indevidas a partir dos exemplos citados.

Gabarito: B) a possibilidade de usar tanto ‘tu’ quanto ‘você’ caracteriza a diversidade da língua.

  • Resumo da Justificativa: O gabarito está correto porque o texto dedica a maior parte do seu espaço a mapear exatamente isso: como diferentes formas (“tu” e “você”) coexistem e predominam em diferentes lugares, o que é a definição exata de diversidade linguística.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

  • Decodificação do Objetivo: A questão nos pede para sermos um perito linguista. Com base nas provas apresentadas (o depoimento do professor, o mapa de uso dos pronomes), qual é a conclusão geral que podemos tirar sobre a “personalidade” da língua portuguesa?
  • Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense na língua portuguesa como um grande guarda-roupa. Antigamente, havia um código de vestimenta rígido: para certas ocasiões, só se podia usar o “terno” (o senhor). Hoje, o código está mais relaxado, e muitos usam a “roupa casual” (você). Mas o mais interessante é que, em diferentes cidades, as pessoas têm “estilos” diferentes: em Porto Alegre, a moda é usar a “calça jeans” (tu); em São Paulo, preferem a “calça de sarja” (você); e no Rio, as pessoas misturam as duas peças no mesmo look. O verdadeiro desafio aqui é olhar para esse guarda-roupa cheio de opções e estilos diferentes e descrever o que isso significa. Significa que a moda está confusa? Ou que ela é rica e diversa?
  • Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
    1. Analisar a Mudança no Tempo (Variação Diacrônica): Vamos investigar o que o depoimento do professor nos conta sobre a mudança de “ontem” para “hoje”.
    2. Mapear as Diferenças no Espaço (Variação Diatópica): Vamos analisar o “mapa” que o texto desenha sobre o uso de “tu” e “você” pelo Brasil.
    3. Formular a Teoria Geral: Juntaremos as duas análises para chegar a uma conclusão sobre a natureza da língua.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a ferramenta ideal é um Dossiê da Variação Linguística, onde podemos organizar as provas apresentadas no texto.

🕵️‍♂️ DOSSIÊ: O CASO “TU” vs. “VOCÊ”

Tipo de Variação Evidência no Texto Análise do Detetive (O que a evidência mostra)
Variação no Tempo (Diacrônica) 1. Professor de 78 anos relata que hoje é tratado por “você”, o que era “inconcebível” em seus tempos de estudante.<br>2. Cartas do século XIX/XX mostram que o “tu” já era mais informal que “você”. A língua não é estática; ela muda com o tempo. Níveis de formalidade e a escolha de pronomes se alteram entre gerações. Há uma tendência à informalidade.
Variação no Espaço (Diatópica) 1. “Tu” predomina: Porto Alegre.<br>2. “Você” predomina: Curitiba, BH, São Paulo, Salvador.<br>3. “Tu” e “Você” convivem: Rio de Janeiro, Recife. A língua não é uniforme em todo o território. Existem “sotaques” pronominais, com diferentes regiões preferindo diferentes formas. A mesma língua tem várias caras.

Síntese da Investigação: As provas mostram que a língua portuguesa no Brasil não é um bloco monolítico. Ela é um sistema dinâmico que muda com o tempo e se manifesta de formas diferentes em cada região. A coexistência de “tu” e “você” não é um sinal de erro ou confusão, mas sim uma prova de sua riqueza e multiplicidade.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

O texto nos apresenta duas grandes pistas. A primeira é a do professor Ataliba Castilho, que mostra a língua mudando na vertical, ao longo do tempo. A formalidade de antigamente deu lugar à informalidade de hoje.

A segunda e principal pista é o mapeamento geográfico. O texto nos leva em uma viagem pelo Brasil: em Porto Alegre se fala de um jeito, em São Paulo de outro, no Rio de um terceiro. Isso mostra a língua mudando na horizontal, ao longo do espaço.

A conclusão que o comando da questão nos pede para tirar é a soma dessas duas pistas. Se a língua muda no tempo e no espaço, e se formas diferentes como “tu” e “você” podem conviver e ser consideradas “corretas” em diferentes contextos, o que isso significa? Significa que a língua é plural, multifacetada. Em outras palavras, ela é diversa.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (A), que foca na idade. O texto começa com o exemplo do professor de 78 anos, o que pode levar o leitor a pensar que a idade é o fator determinante. Mas o exemplo do professor serve para ilustrar a mudança no tempo, não para criar uma regra de que “jovens usam X e velhos usam Y”. A parte principal do texto, que descreve a situação atual, foca na geografia (“Porto Alegre”, “Rio de Janeiro”, etc.), e não na idade.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação revela que o texto usa exemplos de variação no tempo e no espaço para pintar um quadro da língua portuguesa como um sistema complexo e heterogêneo.
    • Expectativa: A alternativa correta deve capturar essa ideia de pluralidade, multiplicidade, variedade ou diversidade como uma característica fundamental da língua.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos confrontar nossa Expectativa com os suspeitos.

A) a escolha de ‘você’ ou de ‘tu’ está condicionada a idade da pessoa que usa o pronome.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor cai na “Armadilha Clássica”.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Generalização Indevida a partir de um Exemplo. O texto não afirma que a idade condiciona a escolha, mas que a informalidade aumentou entre as gerações. O fator principal de escolha apresentado é a região.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) a possibilidade de usar tanto ‘tu’ quanto ‘você’ caracteriza a diversidade da língua.

  • Análise de Correspondência: Encaixe perfeito. A coexistência de diferentes formas em diferentes contextos é a definição de diversidade linguística. Esta alternativa sintetiza a conclusão principal do nosso dossiê.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

C) o pronome ‘tu’ tem sido empregado em situações informais por todo o  país.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor generaliza a informação sobre Porto Alegre para todo o Brasil.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto afirma que o “você” é predominante em várias capitais importantes, logo, o “tu” não é usado em “todo o país”.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) a ocorrência simultânea de ‘tu’ e de ‘você’ evidencia a inexistência de distinção entre níveis de formalidade.

  • A “Narrativa do Erro”: O leitor interpreta mal a convivência das formas.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Falsa Inferência. O texto diz que o tratamento informal aumentou, não que a distinção de formalidade deixou de existir. A escolha entre “o senhor” e “você/tu” ainda marca claramente um nível de formalidade.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) o emprego de ‘você’ em documentos escritos demonstra que a língua tende a se manter inalterada.

  • A “Narrativa do Erro”: Uma leitura completamente invertida do texto.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto inteiro é sobre como a língua muda (“expansão do tratamento informal”), o exato oposto de “se manter inalterada”.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (B) é a correta, pois o texto nos mostra que a língua não é um monumento de mármore, mas sim um organismo vivo, que respira de formas diferentes em cada canto do país.

Resumo-flash (A Imagem Mental): A língua portuguesa não tem um RG, tem vários passaportes com vistos para diferentes regiões do Brasil.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O fenômeno descrito no texto é um exemplo perfeito de como a língua pode ser um campo de batalha para a identidade cultural. A manutenção do “tu” em regiões como o Sul do Brasil ou em partes do Norte/Nordeste não é apenas uma curiosidade gramatical. Muitas vezes, é um ato (consciente ou não) de afirmação de uma identidade regional em face da hegemonia cultural do Sudeste (onde o “você” predomina). Assim como um sotaque, a escolha do pronome pode funcionar como uma bandeira, uma forma de dizer “nós aqui temos um jeito próprio de ser e de falar”. Isso conecta a linguística à Sociologia da Cultura e aos estudos de identidade.

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