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Questão 18, caderno azul do ENEM 2010 PPL

Gregório de Matos definiu, no século XVII, o amor e a sensualidade carnal.

O Amor é finalmente um embaraço de pernas, união de barrigas, um breve tremor de artérias. Uma confusão de bocas, uma batalha de veias, um rebuliço de ancas, quem diz outra coisa é besta.

VAINFAS, R. Brasil de todos os pecados. Revista de História. Ano1, no 1.
Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, nov. 2003.

Vilhena descreveu ao seu amigo Filopono, no século XVIII, a sensualidade nas ruas de Salvador.

Causa essencial de muitas moléstias nesta cidade é a desordenada paixão sensual que atropela e relaxa o rigor da Justiça, as leis divinas, eclesiásticas, civis e criminais. Logo que anoutece, entulham as ruas libidinosos, vadios e ociosos de um e outro sexo. Vagam pelas ruas e, sem pejo, fazem gala da sua torpeza.

VILHENA, L.S. A Bahia no século XVIII. Coleção Baiana. v. 1. Salvador: Itapuã, 1969 (adaptado).

A sensualidade foi assunto recorrente no Brasil colonial. Opiniões se dividiam quando o tema afrontava diretamente os “bons costumes”. Nesse contexto, contribuía para explicar essas divergências

A) a existência de associações religiosas que defendiam a pureza sexual da população branca.

B) a associação da sensualidade às parcelas mais abastadas da sociedade.

C) o posicionamento liberal da sociedade oitocentista, que reivindicava mudanças de comportamento na sociedade.

D) a política pública higienista, que atrelava a sexualidade a grupos socialmente marginais.

E) a busca do controle do corpo por meio de discurso ambíguo que associava sexo, prazer, libertinagem e pecado.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
História do Brasil (Colonial), Literatura Brasileira (Barroco), Sociologia, História Cultural, Interpretação Textual.

Tema/Objetivo Geral:
Análise da relação entre sexualidade, moralidade e controle social no Brasil Colonial, evidenciando as divergências de percepção e discurso.

Nível da Questão
Médio. A questão exige a interpretação de dois textos que representam visões contrastantes sobre a sensualidade no Brasil colonial e a capacidade de conectar essas visões a um conceito sociológico ou histórico que explique as divergências. Requer um bom entendimento do contexto cultural e moral da época.

Gabarito
A alternativa correta é a E. As divergências sobre a sensualidade no Brasil colonial eram explicadas por um discurso complexo que tentava controlar o corpo ao associar o prazer sexual à libertinagem e ao pecado.


Resolução Passo a Passo

🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

Transcrição Essencial
“Nesse contexto, contribuía para explicar essas divergências”

O que está sendo pedido?
O comando solicita a identificação do fator principal que explica as diferentes opiniões sobre a sensualidade no Brasil colonial, especialmente quando o tema se chocava com os “bons costumes” da época, conforme ilustrado pelos dois textos.

Objetivo Cristalino
Determinar qual elemento cultural, social ou ideológico da sociedade colonial gerava a tensão e as visões distintas sobre a sensualidade, como a descrita explicitamente por Gregório de Matos e criticamente por Vilhena.

Pergunta de Atenção
Você percebeu que um texto descreve a sensualidade de forma direta e o outro a condena, ligando-a a problemas sociais e morais? Pense no que faz a sociedade ter essa “dupla face” ao falar sobre o mesmo tema!


📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

Termo/ConceitoClassificaçãoExplicação Simples e Fácil de EntenderExemplo do Cotidiano
Brasil Colonial (Séculos XVII e XVIII)Período HistóricoFase da história brasileira em que o território era colônia de Portugal, marcada por uma sociedade hierárquica e forte influência da Igreja Católica.A época dos engenhos de açúcar, das cidades de Salvador e Rio de Janeiro como portos importantes, e da moral religiosa mais rígida.
Gregório de MatosLiteratura/BarrocoPoeta brasileiro do século XVII, conhecido por sua poesia satírica, lírica e religiosa, que explorava temas como o amor carnal de forma direta.Um poeta que escrevia sobre paixões humanas de forma explícita, desafiando a moralidade de sua época.
VilhenaHistória/CronistaAutor do século XVIII que descreveu aspectos sociais e culturais de Salvador, muitas vezes com um olhar crítico sobre os costumes.Uma pessoa que escrevia sobre o que via nas ruas da cidade, apontando problemas sociais e morais, como a “desordem” da sensualidade.
Sensualidade Carnal / Paixão SensualComportamento HumanoRefere-se aos aspectos físicos, corporais e de prazer relacionados ao sexo e ao desejo.As manifestações de desejo físico e prazer corporal, que podem ser expressas de diferentes formas.
“Bons Costumes”Normas Sociais/MoraisConjunto de regras de conduta, geralmente ditadas pela religião e pela tradição, que definem o que é considerado moralmente aceitável ou correto em uma sociedade.As expectativas de recato, castidade e moderação nos comportamentos públicos e privados, especialmente em relação à sexualidade, na sociedade colonial.
Discurso AmbíguoRetórica/SociologiaUma forma de comunicação que contém significados duplos ou contraditórios, onde o que é dito explicitamente pode contrastar com o que é sugerido ou praticado.Quando a sociedade diz que “sexo é pecado”, mas, ao mesmo tempo, as pessoas buscam o prazer e há manifestações de sensualidade em público.
Controle do CorpoSociologia/HistóriaTentativa de regular e disciplinar os comportamentos individuais, especialmente os relacionados à sexualidade, de acordo com as normas sociais e morais estabelecidas.A Igreja e as autoridades coloniais tentando impor regras sobre como as pessoas deveriam se vestir, se comportar em público e viver sua sexualidade.
Libertinagem e PecadoMoralidade/ReligiãoLibertinagem: Comportamento sexual considerado imoral, excessivo ou desregrado. Pecado: Na visão religiosa, uma transgressão às leis divinas. Ambos usados para condenar a sensualidade “desordenada”.A ideia de que o prazer sexual fora de certos padrões é algo ruim, que desrespeita a moral ou a religião.

📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

Contextualização Simplificada
Temos dois autores de épocas diferentes do Brasil colonial falando sobre sensualidade. Gregório de Matos fala abertamente sobre o prazer do corpo, sem rodeios. Vilhena, por outro lado, critica a sensualidade nas ruas de Salvador, chamando-a de “paixão desordenada” que desrespeita leis e bons costumes. A questão quer saber por que existiam essas visões tão diferentes e por que o tema da sensualidade era tão controverso para os “bons costumes” da época.

Estratégia Geral
Vamos analisar o contraste entre a visão explícita de Gregório e a condenação moralista de Vilhena, buscando um fator social ou cultural que explique essa dualidade na sociedade colonial. A resposta deve envolver a tentativa de controle social sobre a sexualidade e a forma como essa tentativa era expressa ou enfrentada.


🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

Os textos de Gregório de Matos (século XVII) e Vilhena (século XVIII) ilustram uma clara divergência em relação à sensualidade no Brasil colonial. Gregório de Matos, em sua poesia, descreve o amor e a sensualidade de forma direta e carnal, quase celebrando-a sem tabus. Vilhena, por outro lado, condena a “desordenada paixão sensual” nas ruas de Salvador, associando-a a “libidinosos, vadios e ociosos” e à transgressão de “leis divinas, eclesiásticas, civis e criminais”.

  • O “Grito do Homem Miserável” (referência da questão anterior) aqui é o grito do corpo?: O Brasil colonial, sob forte influência da Igreja Católica e de uma moralidade rígida, impunha um ideal de “bons costumes” que valorizava a moderação, a castidade e a discrição, especialmente em relação à sexualidade. O discurso oficial tentava controlar o corpo e os desejos, associando o prazer sexual a algo pecaminoso, libertino e socialmente desorganizador.
  • A Realidade vs. o Ideal: No entanto, a realidade do cotidiano colonial, com sua formação multiétnica, seu clima tropical e as complexas relações sociais (incluindo escravidão e miscigenação), muitas vezes divergia desses ideais. A sensualidade e a sexualidade eram vivenciadas de maneiras que escapavam ao controle moralista, como Vilhena testemunha.
  • A Ambivalência do Discurso: O que explica as divergências não é apenas a existência de uma moral rígida, mas a forma como essa moral era articulada. Havia um discurso ambíguo que tentava controlar o corpo e a sexualidade, associando o sexo e o prazer natural a conceitos negativos como “libertinagem” e “pecado”. Essa ambiguidade (o desejo de controle versus a inevitabilidade da manifestação da sensualidade, e até mesmo a celebração como em Gregório de Matos) gerava a tensão e o debate. O prazer era, ao mesmo tempo, desejado e condenado, reconhecido e demonizado.

Verificação Intermediária
A sociedade colonial impunha regras morais rígidas sobre a sensualidade, mas a prática e algumas expressões artísticas (como a de Gregório) mostravam uma realidade diferente. A divergência surge dessa tensão e da forma complexa como a sociedade lidava com o tema, misturando desejo e condenação.

Possível armadilha
Uma armadilha comum seria focar em aspectos muito específicos ou em generalizações incorretas. Por exemplo, a Alternativa A (pureza sexual da população branca) é muito restrita e não captura a totalidade do problema. A Alternativa B (sensualidade associada aos abastados) é contrariada pelo texto de Vilhena. A Alternativa C (liberalismo oitocentista) se refere a um período posterior. A Alternativa D (política higienista) é um conceito do final do século XIX/início do XX. É crucial identificar a natureza mais abrangente do conflito de valores e controle social sobre a sexualidade na colônia.

Fechamento e expectativa
O raciocínio indica que a divergência é explicada pela tentativa da sociedade de controlar o corpo e a sexualidade através de um discurso que misturava a condenação do pecado com a realidade do prazer e da libertinagem. A alternativa que melhor expressa essa complexidade é a mais provável.


✅ Passo 5: Análise das Alternativas

(🔴) Alternativa A: Esta alternativa está incorreta. Embora houvesse associações religiosas e a defesa da pureza sexual, o texto não restringe a discussão à “população branca” nem sugere que essa era a causa essencial das divergências, que eram mais amplas sobre a sensualidade na sociedade colonial como um todo.

(🔴) Alternativa B: Esta alternativa está incorreta. O texto de Vilhena associa a sensualidade a “libidinosos, vadios e ociosos”, que não são, necessariamente, as parcelas mais abastadas da sociedade. Portanto, a afirmação não se alinha com as informações fornecidas.

(🔴) Alternativa C: Esta alternativa está incorreta. As opiniões divididas e os textos são do século XVII e XVIII (período colonial). O “posicionamento liberal da sociedade oitocentista” (século XIX) é um anacronismo para o contexto principal da questão.

(🔴) Alternativa D: Esta alternativa está incorreta. A “política pública higienista” é um movimento de ideias e ações mais sistemático e organizado que se consolidou no final do século XIX e início do século XX. O contexto dos textos (séculos XVII e XVIII) é anterior a essa formalização do higienismo como política pública.

(🟢) Alternativa E: Esta alternativa está correta. A busca pelo controle do corpo e da sexualidade era central na sociedade colonial, influenciada por normas religiosas e morais. O discurso ambíguo se manifestava ao associar o sexo e o prazer (presente nas vivências e na poesia de Gregório) à libertinagem e ao pecado (condenados por Vilhena). Essa tentativa de controle através de uma moralidade que simultaneamente reconhecia e condenava o desejo é a chave para entender as “divergências”.


🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

Resumo do Raciocínio
As divergências sobre a sensualidade no Brasil colonial são explicadas pela complexa tentativa de controle social e moral sobre o corpo. A sociedade oscilava entre a condenação do sexo e do prazer como pecado e libertinagem, e a sua manifestação inevitável na vida cotidiana, gerando um discurso ambíguo.

Gabarito Reafirmado
A alternativa correta é a E.

Resumo Final para Revisão 🔍
No Brasil colonial, o “pecado” e o “prazer” do sexo andavam de mãos dadas no discurso: a sociedade tentava controlar o corpo com condenações morais, mas a realidade da sensualidade era inegável!

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