E fui mostrar ao ilustre hóspede [o governador do Estado] a serraria, o descaroçador e o estábulo. Expliquei em resumo a prensa, o dínamo, as serras e o banheiro carrapaticida. De repente supus que a escola poderia trazer a benevolência do governador para certos favores que eu tencionava solicitar.
— Pois sim senhor. Quando V. Exª. vier aqui outra vez, encontrará essa gente aprendendo cartilha.
RAMOS, G. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 1991.
O fragmento do romance de Graciliano Ramos dialoga com o contexto da Primeira República no Brasil, ao focalizar o(a)
A) derrocada de práticas clientelistas.
B) declínio do antigo atraso socioeconômico.
C) liberalismo desapartado de favores do Estado.
D) fortalecimento de políticas públicas educacionais.
E) aliança entre a elite agrária e os dirigentes políticos.

Resolução em texto
📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
Literatura brasileira (Romance de 30), História do Brasil (Primeira República), Interpretação textual.
📔 Nível da Questão:
Médio
✅ Gabarito:
E) aliança entre a elite agrária e os dirigentes políticos
🎯 Tema/Objetivo Geral:
Analisar como o fragmento literário evidencia práticas sociopolíticas da Primeira República brasileira, especialmente a relação entre latifundiários e o poder político.
🔷 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
📌 1.1 Retomada do Comando
“O fragmento do romance de Graciliano Ramos dialoga com o contexto da Primeira República no Brasil…”
📌 1.2 Explicação Detalhada
A questão pede para que a relação entre o trecho literário e o contexto histórico da Primeira República seja reconhecida. Isso exige saber como funcionavam as relações de poder e o papel da elite agrária naquele período.
📌 1.3 Palavras-chave
- “governador do Estado”: figura política importante.
- “favores”: indica clientelismo ou troca de interesses.
- “elite agrária”: representada pelo proprietário rural narrador.
- “Primeira República”: regime conhecido por práticas de coronelismo e poder descentralizado.
📌 1.4 Objetivo
Relacionar o comportamento do narrador com as práticas sociopolíticas da elite rural durante a Primeira República (1889–1930), como o coronelismo e as alianças políticas locais.
Agora que entendemos o comando e o objetivo, vamos estudar os conceitos que fundamentam essa interpretação.
🔷 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
📌 1. O que foi a Primeira República?
✔ Período entre 1889 e 1930, também chamado de República Velha.
✔ Caracterizado por uma política dominada pela elite agrária, sobretudo do Sudeste.
✔ Forte influência dos coronéis, latifundiários que controlavam a política local.
📌 2. Coronelismo e Clientelismo
✔ Coronelismo: poder político informal dos grandes fazendeiros, que controlavam votos e influenciavam decisões políticas.
✔ Clientelismo: troca de favores entre políticos e elites locais.
➤ Exemplo: apoio eleitoral em troca de obras, cargos ou benefícios.
📌 3. Romance de 30 / Graciliano Ramos
✔ Graciliano Ramos critica o autoritarismo, a ignorância, a exploração dos trabalhadores e a aliança entre poder econômico e político.
✔ Em São Bernardo, o protagonista Paulo Honório é um fazendeiro típico da elite rural — prático, violento e interessado em ascensão social.
Com isso em mente, vamos interpretar o texto dentro desse contexto.
🔷 Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
📌 Contexto do Trecho
O narrador (Paulo Honório) mostra sua propriedade ao governador com a intenção clara de impressioná-lo — não só com a tecnologia, mas também com a promessa de uma escola.
📌 Frases-chave
- “Supondo que a escola poderia trazer a benevolência do governador…”
- “…tencionava solicitar favores”
Isso revela uma tentativa de agradar a autoridade política para obter benefícios pessoais ou para sua propriedade — estratégia clássica do clientelismo.
📌 Relação com o conteúdo histórico
O trecho é uma crítica à relação simbiótica entre elites locais e governantes, típica da Primeira República.
Agora que o texto foi interpretado, vamos desenvolver o raciocínio completo.
🔷 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
📌 O narrador age como um coronel moderno, que utiliza sua influência e riqueza como moeda de troca.
📌 A promessa de construir uma escola é instrumental, ou seja, serve apenas para conquistar vantagens políticas.
📌 O trecho revela que educação, progresso e modernidade são usados como fachada para reforçar relações de poder já existentes.
📌 O autor Graciliano Ramos mostra com ironia como até mesmo projetos que deveriam ser emancipatórios, como a educação, são utilizados de forma manipuladora por parte da elite agrária.
🔷 Passo 5: Análise das Alternativas (ou Argumentos) e Resolução
📌 Reescrita das Alternativas
A) derrocada de práticas clientelistas
B) declínio do antigo atraso socioeconômico
C) liberalismo desapartado de favores do Estado
D) fortalecimento de políticas públicas educacionais
E) aliança entre a elite agrária e os dirigentes políticos
✅ Subpasso: Alternativa Correta – Letra E
✔ O fragmento mostra claramente um fazendeiro (elite agrária) buscando favores de um político (governador do Estado).
✔ Trata-se de uma prática comum na Primeira República: aliança entre coronéis e governantes.
✔ O objetivo do autor é denunciar relações interesseiras e antidemocráticas.
❌ Subpasso: Alternativas Incorretas
- A) derrocada de práticas clientelistas
❌ Cenário hipotético: O texto mostraria a denúncia, a punição ou a superação dessas práticas.
❌ Erro: Ao contrário, ele retrata a permanência e normalidade do clientelismo. - B) declínio do antigo atraso socioeconômico
❌ Cenário hipotético: A elite estaria investindo genuinamente em modernização e educação.
❌ Erro: O trecho mostra que o progresso é superficial e utilitário. - C) liberalismo desapartado de favores do Estado
❌ Cenário hipotético: Existiria independência entre propriedade privada e interferência política.
❌ Erro: O texto mostra exatamente o oposto: uso da política para garantir vantagens pessoais. - D) fortalecimento de políticas públicas educacionais
❌ Cenário hipotético: O governo ou o fazendeiro investiriam de fato em educação por convicção.
❌ Erro: A educação é apenas um pretexto para obter favores, e não um fim social real.
🔷 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
📌 O trecho de São Bernardo evidencia as estruturas de poder da Primeira República, nas quais os fazendeiros (coronéis) usavam sua influência econômica e social para se aproximar do Estado e obter benefícios.
📌 Isso mostra claramente a aliança estratégica entre elites agrárias e políticos, um dos principais traços da política do café-com-leite e do coronelismo.
📌 Reafirmação da Alternativa Correta:
✅ Letra E – aliança entre a elite agrária e os dirigentes políticos.
🔍 Resumo Final:
A passagem representa o comportamento típico da elite rural na Primeira República, que utilizava sua posição e influência para negociar benefícios com o Estado, mantendo sua posição de poder. A escola não é vista como projeto social, mas como moeda política, o que expõe a crítica social feita por Graciliano Ramos em sua obra.