– Recusei a mão de minha filha, porque o senhor é… filho de uma escrava.
– Eu?
– O senhor é um homem de cor!… Infelizmente esta é a verdade… Raimundo tornou-se lívido. Manoel prosseguiu, no fim de um silêncio:
– Já vê o amigo que não é por mim que lhe recusei Ana Rosa, mas é por tudo! A família de minha mulher sempre foi muito escrupulosa a esse respeito, e como ela é toda a sociedade do Maranhão! Concordo que seja uma asneira; concordo que seja um prejuízo tolo! O senhor porém não imagina o que é por cá a prevenção contra os mulatos!… Nunca me perdoariam um tal casamento; além do que, para realizá-lo, teria que quebrar a promessa que fiz a minha sogra, de não dar a neta senão a um branco de lei, português ou descendente direto de portugueses!
AZEVEDO, A. O mulato. São Paulo: Escala, 2008.
Influenciada pelo ideário cientificista do Naturalismo, a obra destaca o modo como o mulato era visto pela sociedade de fins do século XIX. Nesse trecho, Manoel traduz uma concepção em que a
A) miscigenação racial desqualificava o indivíduo.
B) condição econômica anulada os conflitos raciais.
C) discriminação racial era condenada pela sociedade
D) escravidão negava o direito da negra à maternidade.
E) união entre mestiços era um risco à hegemonia dos brancos.

✍ Resolução Em Texto
📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão
Interpretação de Texto, História da Literatura (Naturalismo), Temas Sociais no Romance do século XIX (preconceito racial e determinismo social).
🎯 Tema/Objetivo Geral
Analisar como a literatura naturalista brasileira retrata a discriminação racial, especialmente quanto à miscigenação e ao preconceito contra os mulatos no século XIX.
🎯 Nível da Questão
Médio – Exige domínio de leitura interpretativa e conhecimento básico sobre o Naturalismo, além da compreensão do preconceito de cor como estruturante na obra.
✅ Gabarito
A) miscigenação racial desqualificava o indivíduo
Resolução Passo a Passo
• Passo 1: Análise do Comando e Objetivo
O que o comando quer?
A questão pede que o estudante identifique qual concepção ideológica é transmitida nesse trecho da obra O Mulato, de Aluísio Azevedo, considerando o viés naturalista. Ou seja, quer que se interprete o valor social atribuído à cor e à origem racial do personagem Raimundo.
Objetivo Cristalino da questão:
Verificar se o aluno compreende como o preconceito racial é naturalizado na fala do personagem Manoel e como esse preconceito se liga à ideia de desqualificação do indivíduo por sua origem mestiça.
Possíveis Armadilhas:
- Confundir condição econômica com condição racial.
- Interpretar erroneamente a crítica do narrador como crítica da sociedade, quando, na verdade, a sociedade naturalista é retratada sem filtro moralizante.
- Achar que o preconceito é combatido no texto, quando, na realidade, ele é apenas exposto.
• Passo 2: Explicação de Conceitos e conteúdos Necessários
| Conceito | Definição/Explicação | Aplicação na Questão |
|---|---|---|
| Naturalismo | Escola literária do final do século XIX que retrata o ser humano como resultado do meio, raça e momento. | Retrata o racismo como parte estrutural da sociedade. |
| Determinismo racial | Ideia de que a origem racial define o destino social do indivíduo. | Raimundo é rejeitado por ser mulato. |
| Preconceito de cor/mestiçagem | Rejeição social de indivíduos com herança africana ou indígena. | “Filho de escrava” é razão para rompimento. |
| Crítica indireta do autor | O autor não julga diretamente, mas expõe a mentalidade da época. | Manoel acredita no preconceito, mesmo achando-o tolo. |
• Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
Contexto geral
O trecho pertence ao romance O Mulato (1881), marco do Naturalismo brasileiro, e mostra Raimundo, homem culto e promissor, sendo rejeitado por Manoel, pai de sua amada, exclusivamente por ser mulato, filho de uma escrava.
Frases-chave:
- “porque o senhor é… filho de uma escrava” → origem racial como obstáculo.
- “o senhor é um homem de cor” → cor da pele como fator de exclusão social.
- “não é por mim […] mas é por tudo!” → sociedade condiciona as ações do indivíduo.
- “nunca me perdoariam um tal casamento” → preconceito social coletivo e internalizado.
- “concordo que seja um prejuízo tolo” → mesmo consciente da injustiça, Manoel se submete.
Interpretação
Manoel reflete o pensamento racial dominante no Maranhão oitocentista. Apesar de reconhecer a injustiça (“tolo”), ele se submete aos preconceitos sociais, reforçando o racismo estrutural da elite branca. O trecho mostra como a miscigenação desqualificava a pessoa perante a sociedade, não importando suas virtudes.
• Passo 4: Análise das Alternativas (ou Argumentos) e Resolução
A) miscigenação racial desqualificava o indivíduo
🟢 Correta – É exatamente o que ocorre com Raimundo. Mesmo sendo um bom partido, sua condição de mestiço (filho de escrava) o torna socialmente indesejável para o casamento com uma moça branca. Isso mostra como a origem racial rebaixava o sujeito na sociedade.
B) condição econômica anulava os conflitos raciais
🔴 Errada – O texto prova o contrário: Raimundo é economicamente bem-sucedido, mas isso não basta para vencer o preconceito racial.
➡️ Como ficaria certa? Se dissesse que mesmo com boas condições econômicas, o preconceito racial persistia.
C) discriminação racial era condenada pela sociedade
🔴 Errada – A sociedade naturaliza e aceita o preconceito. Manoel diz: “nunca me perdoariam um tal casamento”, ou seja, a sociedade não condena, mas reforça a discriminação.
➡️ Como ficaria certa? Se dissesse que a sociedade reproduzia ou reforçava a discriminação racial.
D) escravidão negava o direito da negra à maternidade
🔴 Errada – A questão não trata do papel da mulher negra como mãe, mas sim da rejeição ao filho da escrava. O foco está no preconceito com a origem racial do filho.
➡️ Como ficaria certa? Se dissesse que a condição de filho de escrava causava exclusão social.
E) união entre mestiços era um risco à hegemonia dos brancos
🔴 Errada – A união que causa conflito aqui é entre um mulato e uma branca. A sociedade aceita casamentos entre brancos; a união inter-racial é que é problemática.
➡️ Como ficaria certa? Se dissesse que a união entre brancos e mulatos era vista como ameaça à “pureza” branca.
• Passo 5: Conclusão e Justificativa Final
A obra O Mulato, fiel ao ideário naturalista, retrata a sociedade brasileira como determinada pelo preconceito racial, onde a origem do indivíduo define seu valor social. Mesmo com qualidades morais ou econômicas, a mestiçagem rebaixa o sujeito socialmente. A alternativa correta é a A, pois resume com precisão a ideia central do trecho: a miscigenação racial desqualificava o indivíduo perante a sociedade branca do século XIX.