TEXTO I
A língua não é uma nomenclatura, que se apõe a uma realidade pré-categorizada, ela é que classifica a realidade. No léxico, percebe-se, de maneira mais imediata, o fato de que a língua condensa as experiências de um dado povo.
FIORIN, J. L Língua, modernidade e tradição. Diversitas, n. 2. mar-set 2014
TEXTO II
As expressões coloquiais ainda estão impregnadas de discriminação contra os negros. Basta recordar algumas delas, como passar um “dia negro”, ter um “lado negro”, ser a “ovelha negra” da família ou praticar “magia negra”.
Disponível em: https://brasil.elpais.com Acesso em: 22 maio 2018.
O Texto II exemplifica o que se afirma no Texto I, na medida em que defende a ideia de que as escolhas lexicais são resultantes de um
A) expediente próprio do sistema linguístico que nos apresenta diferentes possibilidades para traduzir estados de coisas.
B) ato inventivo de nomear novas realidades que surgem diante de uma comunidade de falantes de uma língua.
C) mecanismo de apropriação de formas linguísticas que estão no acervo da formação do idioma nacional.
D) processo de incorporação de preconceitos que são recorrentes na história de uma sociedade.
E) recurso de expressão marcado pela objetividade que se requer na comunicação diária

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Linguística: Relação entre Língua, Cultura e Sociedade.
- Semântica e Pragmática: O significado das palavras no contexto social.
- Preconceito Linguístico e Racismo Estrutural.
Tema/Objetivo Geral:
- Compreender a língua não como um espelho neutro da realidade, mas como um sistema de classificação que reflete e perpetua os valores, a história e os preconceitos de uma sociedade.
Nível da Questão: Fácil.
- Justificativa: A relação entre os textos é direta. O Texto I diz que “a língua condensa as experiências de um povo”. O Texto II dá exemplos práticos dessa condensação: o preconceito racial. A conexão entre “experiência de um povo” e “história de uma sociedade” (presente na alternativa D) é lógica e acessível, sem exigir conceitos linguísticos complexos.
Gabarito: D.
- Resumo: O Texto I teoriza que a língua absorve a cultura e classifica a realidade. O Texto II mostra na prática como o racismo (uma “experiência” histórica negativa da sociedade) foi absorvido pelo vocabulário (“magia negra”, “ovelha negra”). Logo, as escolhas lexicais resultam da incorporação de preconceitos históricos.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo:
A questão quer que você ligue a teoria (Texto I) à prática (Texto II).
- Teoria: A língua é um arquivo da história e das crenças de um povo.
- Prática: Usamos palavras racistas (“negro” como algo ruim) porque nossa história foi racista.
O objetivo é encontrar a alternativa que diz: “As palavras que usamos hoje carregam o peso dos preconceitos do passado.”
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine que a língua é um álbum de fotografias da sociedade.
O Texto I diz: “O álbum guarda o que o povo viveu.”
O Texto II diz: “Olha essas fotos feias de racismo no nosso álbum.”
A questão pergunta: Por que essas fotos estão lá?
Resposta: Porque o racismo faz parte da nossa história e ficou gravado no álbum.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Entender a tese do Texto I: Língua reflete cultura/experiência.
- Entender o exemplo do Texto II: Vocabulário reflete racismo.
- Juntar A + B: O vocabulário racista existe porque a língua incorporou o preconceito histórico da sociedade.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Ferramenta 1: Tabela de Conexão (Teoria x Exemplo)
| Elemento | Texto I (Teoria) | Texto II (Exemplo Prático) |
| Conceito | A língua classifica a realidade. | Expressões negativas usam a palavra “negro”. |
| Causa | A língua condensa experiências do povo. | A discriminação histórica está impregnada na fala. |
| Conclusão | O léxico (palavras) não é neutro. | O léxico reproduz o racismo da sociedade. |
Ferramenta 2: Vocabulário Crítico
- Léxico: Conjunto de palavras de uma língua.
- Preconceito Linguístico/Racismo na Língua: O uso de termos que inferiorizam grupos sociais, muitas vezes de forma inconsciente (“denegrir”, “lista negra”).
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos cruzar os dados:
- Leitura do Texto I: “A língua condensa as experiências de um dado povo”. Isso significa que tudo o que a sociedade vive (guerras, amores, preconceitos) vai parar dentro do dicionário.
- Leitura do Texto II: “Expressões coloquiais… impregnadas de discriminação”. O texto lista exemplos onde “negro” é sinônimo de “ruim” ou “proibido”.
- A Síntese: Se a língua guarda as experiências (T1) e nossa língua tem expressões racistas (T2), isso acontece porque a história da nossa sociedade (a escravidão, o racismo estrutural) foi incorporada ao idioma.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: As palavras escolhidas (léxico) não caem do céu; elas vêm da história. Se a história tem preconceito, a língua também tem.
- Expectativa: Alternativa D (Incorporação de preconceitos históricos).
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
- A) expediente próprio do sistema linguístico que nos apresenta diferentes possibilidades para traduzir estados de coisas.
- O Diagnóstico do Erro: Visão Neutra/Técnica.
- Por que está incorreta: Essa alternativa trata a língua como um sistema neutro (“diferentes possibilidades”). O Texto II mostra exatamente o contrário: a língua não é neutra, ela é carregada de valor (negativo, no caso do racismo). Não é apenas uma “tradução de coisas”, é um julgamento de valor.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- B) ato inventivo de nomear novas realidades que surgem diante de uma comunidade de falantes de uma língua.
- O Diagnóstico do Erro: Foco na Neologia (Invenção).
- Por que está incorreta: O texto não fala de inventar palavras novas para coisas novas (como “internet” ou “selfie”). Ele fala de expressões antigas (“dia negro”, “magia negra”) que trazem cargas históricas do passado, não novidades.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- C) mecanismo de apropriação de formas linguísticas que estão no acervo da formação do idioma nacional.
- O Diagnóstico do Erro: Vagueza e Eufemismo.
- Por que está incorreta: Embora as palavras estejam no “acervo”, essa alternativa ignora o ponto central: a crítica social. Dizer que é apenas “apropriação do acervo” esconde o fato de que esse acervo é racista. A questão exige a identificação do problema (discriminação), não apenas da origem gramatical.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- D) processo de incorporação de preconceitos que são recorrentes na história de uma sociedade.
- Análise de Correspondência: Perfeito. “Incorporação de preconceitos” liga-se diretamente a “impregnadas de discriminação” (Texto II). “História de uma sociedade” liga-se a “experiências de um dado povo” (Texto I). A língua absorveu o racismo histórico da sociedade.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
- E) recurso de expressão marcado pela objetividade que se requer na comunicação diária.
- O Diagnóstico do Erro: Contradição Total.
- Por que está incorreta: Chamar alguém de “ovelha negra” não é objetivo; é subjetivo, figurado e carregado de juízo de valor. O preconceito é o oposto da objetividade.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento:
A língua é o DNA da cultura: ela carrega as cicatrizes da história. Ao analisar expressões como “magia negra”, percebemos que o vocabulário não é inocente, mas resulta de um processo de incorporação de preconceitos (Alternativa D) que espelha as injustiças raciais construídas ao longo dos séculos.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
🗣️ Fala: “Dia negro”.
📜 História: Racismo.
🔗 Conexão: A língua não esquece o que a sociedade fez.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Conexão com a História e Sociologia (Racismo Estrutural):
Este tema é a prova linguística do conceito de Racismo Estrutural (Silvio Almeida).
O racismo não está apenas em xingamentos diretos; ele está na estrutura da língua, normalizado em expressões que usamos sem pensar. Mudar a língua (evitar esses termos) é uma forma de “limpar” a estrutura social e combater o preconceito que está enraizado no inconsciente coletivo.