Questão 14, caderno azul do ENEM 2018 – Dia 1

No tradicional concurso de miss, as candidatas apresentaram dados de feminicídio, abuso sexual e estupro no país.

No lugar das medidas de altura, peso, busto, cintura e quadril, dados da violência contra as mulheres no Peru. Foi assim que as 23 candidatas ao Miss Peru 2017 protestaram contra os altos índices de feminicídio e abuso sexual no país no tradicional desfile em trajes de banho.

O tom político, porém, marcou a atração desde o começo: logo no início, quando as peruanas se apresentaram, uma a uma, denunciaram os abusos morais e físicos, a exploração sexual, o assédio, entre outros crimes contra as mulheres.

Disponível em: www.cartacapital.com.br. Acesso em: 29 nov. 2017.

Quanto à materialização da linguagem, a apresentação de dados relativos à violência contra a mulher

a) configura uma discussão sobre os altos índices de abuso físico contra as peruanas.

b) propõe um novo formato no enredo dos concursos de beleza feminina.

c) condena o rigor estético exigido pelos concursos tradicionais.

d) recupera informações sensacionalistas a respeito desse tema.

e) subverte a função social da fala das candidatas a miss.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Gêneros Textuais e Função Social.
  • Análise do Discurso (O não-dito e o implícito).
  • Pragmática (A intenção do falante vs. a expectativa do ouvinte).

Tema/Objetivo Geral:
Compreender como uma quebra de expectativa em um “script” social (o roteiro de um concurso de beleza) altera a função daquele evento.

Nível da Questão:
Médio.
Justificativa: O aluno precisa diferenciar o conteúdo da fala (os dados de violência) da função da fala (o papel que aquela fala desempenha no evento). É fácil se distrair com o tema social e esquecer a análise linguística.

Gabarito:
Letra E – subverte a função social da fala das candidatas a miss.
Resumo: Em um momento onde a sociedade esperava ouvir medidas corporais para avaliação estética (futilidade/entretenimento), as candidatas entregaram dados de morte e violência (denúncia/política), trocando a função do discurso.


Resolução Passo a Passo

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

A Missão:
A questão pergunta sobre a “materialização da linguagem”, ou seja, o ato concreto de falar aqueles dados naquele momento específico. Queremos saber o que acontece com o evento “Miss Peru” quando as modelos trocam o tamanho do quadril pelo número de feminicídios.

A Analogia Central (O Cavalo de Troia):
Imagine que você foi convidado para fazer um brinde em um casamento. Todos esperam que você diga “Felicidades aos noivos!”.
Em vez disso, você pega o microfone e lê estatísticas sobre o divórcio e a violência doméstica.
Você usou a “casca” do brinde (o momento, o microfone, a atenção de todos) para entregar uma mensagem totalmente oposta ao esperado. Você hackeou o momento.
A questão quer o nome técnico para esse “hackeamento”.

Nosso Plano de Ataque:

  1. Identificar o “script” original (o que deveria acontecer).
  2. Identificar a ação real (o que aconteceu).
  3. Encontrar a palavra que define essa troca de “entretenimento” por “protesto”.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Vamos usar uma Tabela de Expectativa vs. Realidade para entender o conceito de SUBVERSÃO:

O Cenário (Miss Peru) A Expectativa (O Padrão) A Realidade (O Protesto)
O Momento Apresentação das medidas corporais. Apresentação de estatísticas criminais.
A Linguagem Descritiva, Estética, Superficial. Denunciativa, Política, Impactante.
A Função Social Entreter, Objetificar a mulher, Avaliar Beleza. Conscientizar, Humanizar a vítima, Denunciar Violência.

Ferramenta Conceitual: Subversão.
Subverter significa transtornar, virar de baixo para cima, alterar a ordem natural ou esperada de algo. Quando a miss usa o palco da beleza para falar de feiura (violência), ela subverte o concurso.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos visualizar a cena descrita no texto.
A candidata caminha até o microfone. O público, os jurados e a TV esperam ouvir: “90 de busto, 60 de cintura”. É um ritual de objetificação onde a mulher é uma soma de partes físicas.

No entanto, a candidata diz: “Minhas medidas são: 2.202 casos de feminicídio”.

O que ela fez?
Ela pegou a estrutura rígida do concurso (o momento de dizer números) e a preencheu com um conteúdo político.
Ela não apenas “falou sobre violência”. Ela sequestrou a função fútil do momento e a transformou em uma função de alerta social. Ela disse: “Vocês querem números sobre o meu corpo? Eu darei números sobre corpos mortos”.

Isso é a definição clássica de subversão da função social. A fala deixou de servir à beleza para servir à justiça.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO para não focar apenas no ASSUNTO.
Muitos alunos marcam que o texto “discute o abuso”. Sim, ele discute. Mas a questão pergunta sobre a materialização da linguagem no contexto do concurso. O “pulo do gato” não é o tema (violência), mas a estratégia (usar o lugar errado para falar a coisa certa).

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O ato transformou um evento de entretenimento em um ato político.
  • Expectativa: Devemos buscar verbos de transformação, ruptura ou mudança de propósito (como “subverte”, “transforma”, “rompe”).

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

a) configura uma discussão sobre os altos índices de abuso físico contra as peruanas.

  • Análise: 🟡 PARCIALMENTE CORRETA / O GRANDE DISTRATOR.
    • Por que atrai: De fato, o ato gera uma discussão sobre o abuso. É o conteúdo da fala.
    • Por que falha: A questão pergunta sobre a materialização da linguagem em relação ao gênero “fala de miss”. A alternativa A descreve o tema, mas ignora o impacto estrutural no evento. A (E) é mais profunda porque explica o que essa discussão fez com o concurso (subverteu sua função). A (A) é a consequência; a (E) é o processo linguístico.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta (por ser descritiva demais e analítica de menos).

b) propõe um novo formato no enredo dos concursos de beleza feminina.

  • Diagnóstico do Erro: Extrapolação (Generalização Indevida).
  • Análise: O texto narra um protesto pontual no Miss Peru 2017. Não diz que todos os concursos a partir de agora terão esse formato ou que a regra do concurso mudou oficialmente para sempre.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

c) condena o rigor estético exigido pelos concursos tradicionais.

  • Diagnóstico do Erro: Interpretação Tangencial.
  • Análise: O alvo do protesto não foi “vocês exigem que eu seja magra”, mas sim “mulheres estão sendo mortas”. Elas usaram o rigor estético (o momento das medidas) como trampolim, mas o foco da denúncia era a violência física (feminicídio), não a pressão estética (gordofobia/magreza).
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

d) recupera informações sensacionalistas a respeito desse tema.

  • Diagnóstico do Erro: Juízo de Valor Incorreto.
  • Análise: “Sensacionalismo” implica exagero para vender jornal ou chocar sem motivo. Dados oficiais de feminicídio e estupro são informações trágicas e reais, não sensacionalismo barato. É uma denúncia grave.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

e) subverte a função social da fala das candidatas a miss.

  • Análise: Perfeito.
    • Função Social Esperada: Informar medidas corporais para avaliação de beleza.
    • Ação: Informar medidas da violência para avaliação da sociedade.
    • Resultado: Subversão (inversão) da lógica do evento.
  • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

A linguagem é poder. Quando usamos o formato esperado para entregar um conteúdo inesperado, criamos um choque cognitivo que obriga o público a prestar atenção na mensagem.

Resumo-flash: ⚡
“Trocaram a fita métrica pela estatística: o palco da vaidade virou tribuna da verdade.”

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Este conceito é amplamente usado na Arte da Performance e no Marketing de Guerrilha. Artistas como Banksy subvertem a função de muros e quadros leiloados para fazer críticas ao capitalismo. Na redação, você pode citar esse episódio como exemplo de Engajamento Social e de como diferentes esferas da sociedade (até a moda) podem ser politizadas.

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