Questão 134 caderno azul do ENEM 2022 PPL – Dia 2

O palmito juçara (Euterpe edulis) é uma planta que ocorre em áreas florestadas e produz frutos com tamanhos variados. Entretanto, pesquisadores perceberam que, em áreas nas quais as aves de maior porte foram extintas, as novas plantas produzem apenas frutos pequenos. 

ANDRADE, R. O. Escassez de aves pode afetar evolução de plantas. Disponível em: http://revistapesquisa.fapesp.br. Acesso em: 8 jul. 2013 (adaptado). 

Essa mudança apresentada pelas plantas é uma adaptação vantajosa porque os frutos 

A) atraem aves de pequeno porte, garantindo a ingestão dos frutos.

B) são transportados pelo vento, aumentando a dispersão de sementes. 

C) facilitam a desidratação das sementes, prolongando sua durabilidade no solo. 

D) aceleram a germinação das sementes, favorecendo a colonização de outras áreas. 

E) armazenam menor quantidade de fotoassimilados, mantendo as reservas da planta.

✍ “Resolução Em Texto”

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

Ecologia (Relações Ecológicas e Dispersão de Sementes).
Biologia Evolutiva (Seleção Natural).

Tema/Objetivo Geral:

Compreender como a extinção de uma espécie (dispersor) afeta a evolução de outra (planta), selecionando características morfológicas (tamanho do fruto) que garantam a continuidade da reprodução.

Nível da Questão

Médio.
Exige que o aluno conecte um evento ecológico (extinção de aves) a uma consequência evolutiva (mudança no tamanho do fruto), aplicando a lógica da seleção natural e da limitação física (tamanho do bico).

Gabarito

Letra A.
Com a extinção das aves grandes, apenas as aves pequenas restaram como dispersoras. Como aves pequenas não conseguem engolir frutos grandes, as árvores que produziam frutos menores tiveram vantagem, pois suas sementes continuaram sendo transportadas.


1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo:
A questão quer saber a vantagem evolutiva da mudança no tamanho dos frutos. Por que, num mundo sem aves grandes, ter um fruto pequeno é melhor do que ter um fruto grande?

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine um restaurante (a árvore) que servia hambúrgueres gigantes e mini-hambúrgueres.
Seus principais clientes eram gigantes (aves grandes) que comiam de tudo.
De repente, os gigantes somem. Sobram apenas clientes com bocas pequenas (aves pequenas).
Se o restaurante continuar servindo hambúrgueres gigantes, ninguém vai comer, e o restaurante vai falir (a semente não é dispersa).
A única forma de manter o negócio é servir apenas os mini-hambúrgueres, que cabem na boca dos clientes que sobraram.

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  1. Identificar o Problema: As aves grandes (capazes de engolir frutos grandes) sumiram.
  2. Identificar a Solução: As aves pequenas (com bicos/gargantas pequenas) são os únicos “correios” disponíveis.
  3. Concluir a Adaptação: O fruto precisa diminuir para caber no “pacote” que o correio consegue levar.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Precisamos entender o conceito de Dispersão de Sementes (Zoocoria).

A planta mãe quer que sua semente vá para longe. Por quê?

  1. Para não competir com a mãe por luz e água.
  2. Para conquistar novos territórios.

Para isso, ela oferece uma recompensa: a polpa do fruto (comida). O animal engole o fruto e defeca a semente longe.

  • A Regra da Boca (Limitação de Abertura): Um animal só pode dispersar um fruto que ele consegue engolir inteiro (ou carregar).
  • Seleção Natural: Se o fruto é grande demais para a ave pequena, ele cai no pé da árvore e morre (ou a semente não vinga). Se o fruto é pequeno, a ave come e dispersa. Logo, os genes para “fruto pequeno” passam para a próxima geração.

3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos analisar o cenário evolutivo descrito:

Cenário 1 (Passado): Existiam aves grandes e pequenas.

  • Aves grandes comiam frutos grandes e pequenos.
  • Aves pequenas comiam frutos pequenos.
  • Resultado: Árvores de frutos variados se reproduziam bem.

Cenário 2 (Presente): Aves grandes foram extintas.

  • Frutos Grandes: Não há ninguém com bico grande o suficiente para engoli-los. Eles caem no chão, não são dispersos e a plântula morre por competição ou predação.
  • Frutos Pequenos: As aves pequenas continuam comendo e dispersando.
  • Resultado: Apenas as árvores que produzem frutos pequenos conseguem espalhar seus filhos.

Conclusão: A “vantagem” é a comestibilidade. O fruto pequeno garante que a semente entre no “trânsito” (intestino da ave) e chegue a um lugar seguro para germinar.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
Achar que a planta “escolheu” mudar.
Muitos alunos pensam: “A planta percebeu que não tinha ave grande e decidiu fazer frutos pequenos para economizar energia” (Alternativa E).
Cuidado! Evolução não é consciente. As plantas não pensam. O que aconteceu foi uma seleção passiva: as plantas de frutos grandes morreram sem deixar descendentes dispersos, e as de frutos pequenos dominaram a floresta.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: Sem dispersores grandes, frutos grandes são inúteis. Frutos pequenos são os únicos que “cabem” na fauna restante.
  • Expectativa: Algo sobre facilitar a ingestão, o transporte ou a atração das aves pequenas.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) atraem aves de pequeno porte, garantindo a ingestão dos frutos.
Análise de Correspondência: Perfeita.
Análise: Com a extinção da megafauna dispersora, a sobrevivência da planta depende de se tornar acessível aos dispersores que restaram (aves menores). O tamanho reduzido permite que o fruto seja engolido e a semente transportada.
Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

B) são transportados pelo vento, aumentando a dispersão de sementes.
Diagnóstico do Erro: Mudança de Agente (Síndrome de Dispersão).
Análise: O palmito juçara tem frutos carnosos (polpa). Frutos carnosos evoluíram para atrair animais, não vento. Para voar, a semente precisaria de alas ou plumas (como o dente-de-leão), não apenas ser menor.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) facilitam a desidratação das sementes, prolongando sua durabilidade no solo.
Diagnóstico do Erro: Fuga do Tema.
Análise: O problema central é a dispersão (levar a semente para longe), não a dormência ou desidratação. Além disso, sementes de palmito são “recalcitrantes” (morrem se secarem muito), elas precisam germinar rápido.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) aceleram a germinação das sementes, favorecendo a colonização de outras áreas.
Diagnóstico do Erro: Confusão de Causa.
Análise: O tamanho do fruto não dita necessariamente a velocidade da germinação. O fator limitante descrito no texto é a interação com as aves (quem leva a semente), não a fisiologia da brotação.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) armazenam menor quantidade de fotoassimilados, mantendo as reservas da planta.
Diagnóstico do Erro: Visão Econômica vs. Ecológica.
Análise: Embora fazer frutos menores gaste menos energia, essa economia é irrelevante se a semente não for dispersa. A pressão evolutiva aqui não é a escassez de recursos (luz/água), mas a escassez de “entregadores” (aves).
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.


5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
A alternativa A é a correta pois demonstra a plasticidade e a seleção natural em ação: o tamanho do fruto se ajustou à “garganta” disponível no ecossistema, garantindo a continuidade do ciclo de dispersão.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
Ave pequena = Bico pequeno = Fruto tem que ser pequeno.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Esse fenômeno tem um efeito colateral perigoso: Sementes menores geralmente têm menos reserva de energia. Isso significa que a nova geração de palmitos é mais frágil e tem menos chance de sobreviver na sombra da floresta. A extinção das aves grandes (tucanos, arapongas) está tornando a floresta geneticamente “mais fraca”. Isso se chama Efeito Cascata.

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