Açúcar
O branco açúcar que adoçará meu café
Nesta manhã de Ipanema
Não foi produzido por mim
Nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.
[…]
Em lugares distantes,
Onde não há hospital,
Nem escola, homens que não sabem ler e morrem de fome
Aos 27 anos
Plantaram e colheram a cana
Que viraria açúcar.
Em usinas escuras, homens de vida amarga
E dura
Produziram este açúcar
Branco e puro
Com que adoço meu café esta manhã
Em Ipanema.
GULLAR, F. Toda Poesia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,1980 (fragmento).
A literatura Brasileira desempenha papel importante ao suscitar reflexão sobre desigualdades sociais. No fragmento, essa reflexão ocorre porque o eu lírico:
A) descreve as propriedades do açúcar.
B) se revela mero consumidor de açúcar.
C) destaca o modo de produção do açúcar.
D) exalta o trabalho dos cortadores de cana.
E) explicita a exploração dos trabalhadores.

Resolução em Texto
📚 Matórias Necessárias para a Solução da Questão
- Literatura Brasileira (Poesia Social, Geração de 45/Concretismo – Ferreira Gullar)
- Interpretação de Texto Poético
- Sociologia (Desigualdade Social, Relações de Produção)
🎯 Tema/Objetivo Geral: Identificar o mecanismo poético utilizado pelo eu lírico para construir uma crítica sobre a desigualdade social, a partir da reflexão sobre um produto cotidiano.
📊 Nível da Questão: Médio.
Por quê? A questão exige que o aluno perceba a estrutura de contraste que o poeta cria. Ele não apenas descreve ou exalta, mas justapõe duas realidades completamente diferentes (o luxo de Ipanema e a miséria do trabalhador rural) para extrair daí uma crítica. A resposta correta está na identificação dessa denúncia da exploração.
✅ Gabarito: Alternativa E.
Resumo: O poema constrói uma poderosa crítica social ao contrastar a banalidade do ato de adoçar o café em um cenário de conforto (Ipanema) com a brutalidade das condições de vida dos trabalhadores que produziram aquele açúcar. Ao descrever homens que “morrem de fome aos 27 anos” e têm “vida amarga e dura”, o eu lírico explicita a exploração humana que está oculta por trás de um simples produto de consumo.
Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
Transcrição Essencial 📌
“A literatura Brasileira desempenha papel importante ao suscitar reflexão sobre desigualdades sociais. No fragmento, essa reflexão ocorre porque o eu lírico…”
O que está sendo pedido?
A questão pede para identificarmos como o poema consegue nos fazer refletir sobre a desigualdade social. Qual é a estratégia, o recurso que o eu lírico (a voz do poema) utiliza para construir essa crítica?
Objetivo Cristalino 💎
Nosso objetivo é analisar a estrutura do poema, focando no contraste que ele estabelece entre o consumidor e o produtor do açúcar, para entender de que forma a desigualdade é revelada.
🧠 O poema é uma simples descrição do açúcar ou ele usa o açúcar como um pretexto para falar de algo muito mais profundo e problemático sobre a nossa sociedade?
Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessários
Definição de Termos 🔖
- Eu lírico: É a voz que fala no poema. Não deve ser confundido diretamente com o autor (a pessoa real, Ferreira Gullar). É um “personagem” que expressa sentimentos, ideias e reflexões.
- Poesia Social: Um tipo de poesia que se engaja em temas coletivos, como a injustiça, a desigualdade, a pobreza e a luta política. Em vez de focar apenas no “eu”, ela olha para o “nós” e para a sociedade.
- Contraste (ou Antítese): Uma figura de linguagem ou recurso de estilo que consiste em aproximar palavras ou ideias de sentidos opostos. É a principal ferramenta de Gullar neste poema.
Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
Contextualização Simplificada 💬
O poeta está em seu apartamento em Ipanema (um bairro nobre do Rio), prestes a tomar seu cafezinho. Ele olha para o açúcar e, em vez de simplesmente usá-lo, começa a pensar: “De onde veio este açúcar?”. E a imaginação dele viaja para longe, para o campo, onde ele “vê” os trabalhadores que produziram aquele mesmo açúcar. A imagem que ele vê é terrível: homens pobres, analfabetos, que morrem jovens de fome e levam uma vida “amarga e dura” para produzir algo “branco e puro” que ele vai consumir em seu momento de prazer. A pergunta é: ao fazer essa viagem e mostrar esse contraste chocante, o que o poeta está realmente fazendo? Ele está expondo a exploração e a injustiça que existem por trás de um produto tão comum.
Estratéia Geral 🗺️
Vamos identificar os dois polos que o poema coloca em oposição e analisar a descrição de cada um. A reflexão sobre a desigualdade surge exatamente do choque entre esses dois mundos.
Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
Passo a Passo Detalhado 👣
- Identificar o Polo 1: O Consumidor
- Quem: O eu lírico.
- Onde: “Nesta manhã de Ipanema”. Ipanema é um símbolo de status, lazer e conforto.
- Ação: Um ato cotidiano e prazeroso: “adoçará meu café”.
- Identificar o Polo 2: O Produtor
- Quem: “homens que não sabem ler e morrem de fome / Aos 27 anos”, “homens de vida amarga / E dura”.
- Onde: “Em lugares distantes, / Onde não há hospital, / Nem escola”. Um cenário de miséria e abandono.
- Ação: Trabalho pesado: “Plantaram e colheram a cana”.
- Analisar o Contraste: O poema cria uma série de oposições brutais:
- Doçura do açúcar vs. Amargura da vida do trabalhador.
- Brancura e pureza do produto vs. a vida escura e dura da usina.
- O lazer em Ipanema vs. a morte precoce por fome no campo.
- Síntese da Reflexão: O poema não está apenas “descrevendo” ou “destacando” o modo de produção. Ele está emitindo um juízo de valor. Ao conectar o privilégio do consumidor à miséria do produtor, o eu lírico revela que o conforto de um é construído sobre o sofrimento do outro. Isso é a definição de exploração.
A Armadilha Comum 🚨
A principal armadilha é a Alternativa C (“destaca o modo de produção do açúcar”). O poema de fato destaca o modo de produção, mas essa não é a resposta completa. Ele não o faz de forma neutra ou técnica, como faria um documentário. Ele o faz com uma intenção clara de denunciar a injustiça inerente a esse modo de produção. “Explicitar a exploração” (Alternativa E) é uma descrição muito mais precisa da intenção e do efeito do poema.
A análise do contraste radical no poema nos leva a procurar a alternativa que expressa a ideia de denúncia social e exploração.
Passo 5: Análise das Alternativas
🔴 a) descreve as propriedades do açúcar.
Incorreta. O poema menciona “branco e puro”, mas o foco não é a descrição química do açúcar, e sim sua origem social.
🔴 b) se revela mero consumidor de açúcar.
Incorreta. Ele é um consumidor, mas não “mero”. Ele é um consumidor consciente e crítico, que reflete sobre a origem do que consome.
🔴 c) destaca o modo de produção do açúcar.
Incorreta. Como visto na armadilha, esta alternativa é incompleta. O poema não apenas “destaca”, ele critica o modo de produção, expondo a miséria dos trabalhadores.
🔴 d) exalta o trabalho dos cortadores de cana.
Incorreta. “Exaltar” significa elogiar, glorificar. O poema não exalta o trabalho, ele lamenta e denuncia as condições em que esse trabalho é realizado (vida amarga, morte por fome).
🟢 e) explicita a exploração dos trabalhadores.
Correta. Esta é a essência da reflexão. Ao justapor a vida miserável e curta dos trabalhadores com o prazer banal do consumidor, o poema torna explícita (clara, evidente) a relação de exploração que sustenta essa cadeia produtiva.
Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
Resumo do Raciocínio 📝
O poema “Açúcar” de Ferreira Gullar utiliza o contraste entre duas realidades sociais opostas para gerar uma reflexão sobre a desigualdade. O eu lírico conecta seu ato cotidiano de consumir um produto (“branco açúcar”) ao sofrimento e à miséria dos trabalhadores que o produziram (“vida amarga”, “morrem de fome”). Essa justaposição não é uma mera descrição do processo produtivo, mas uma poderosa denúncia que torna explícita a relação de exploração que sustenta o conforto de alguns sobre a miséria de muitos.
Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a E.
Resumo Final para Revisão
Em poesia social, objetos comuns (como o açúcar) são frequentemente usados como “gatilhos” para expor as contradições ocultas da sociedade. Procure sempre pelo contraste entre o mundo do consumo e o mundo da produção.