Questão 13 caderno azul do ENEM 2022 PPL – Dia 1

Bondade fazia jus ao apelido. Não tinha pouso certo. Morava em lugar algum, a não ser no coração de todos.

— Para que ter pouso certo? — dizia ele. — Homem devia ser que nem passarinho, ter asas para voar. Já rodei. Já vivi favela e mais favela, já vivi debaixo de pontes, viadutos… Já vivi matos e cidades. Já vaguei, vaguei… Muito tempo estou por aqui nesta favela. Aqui é grande como uma cidade. Há tanto barraco para entrar, tanta gente para se gostar!

O tempo ia passando, Bondade ficando ali. Comia em casa de um, bebia em casa de outro. Era amigo comum de dois ou mais inimigos. Não era traidor nem mediador também. Quando chegava à casa de um, por mais que indagassem, por mais que futricassem, Bondade não abria a boca. Desconversava, conversava, e a intriga morria logo. Vivia intensamente cada lugar em que chegava. Cada casa, cada pessoa, cada miséria e grandeza a seu tempo certo, no seu exato momento.

EVARISTO, C. Becos da memória. Rio de Janeiro: Pallas, 2018.

No texto, o apelido dado ao personagem incorpora valores humanos relativos à sua

A) generosidade em relação às demandas da comunidade onde vive.
B) capacidade de desprendimento material e benevolência afetiva.
C) experiência em ignorar as provocações de seus inimigos.
D) coragem em assumir uma vida de solidão e privações.
E) incapacidade de expressar emoções e sentimentos.

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Literatura Brasileira (Contemporânea e Afro-brasileira)
    • Interpretação de Texto (Construção de Personagem e Caracterização)
  • Tema/Objetivo Geral: Analisar a construção do personagem “Bondade” e como seu nome reflete sua essência ética e comportamental (desapego e afeto).
  • Nível da Questão: Médio.
    • A questão exige a síntese de dois aspectos distintos do personagem: sua relação com o espaço (nômade/desprendido) e sua relação com as pessoas (afetuoso/apaziguador). O aluno pode se confundir com alternativas que focam apenas em um desses lados.
  • Gabarito: B
    • A alternativa está correta. O personagem demonstra desprendimento material ao não ter casa fixa (“não tinha pouso certo”) e benevolência afetiva ao ser bem recebido por todos, evitando intrigas e vivendo intensamente as relações (“tanta gente para se gostar”).

PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “O personagem se chama ‘Bondade’. O texto descreve como ele vive (sem casa) e como ele trata as pessoas (amigo de todos). Qual alternativa resume essas duas características que justificam o apelido dele?”

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine um Monge Viajante ou um Peregrino.

  • Ele não carrega malas pesadas (desapego).
  • Ele traz paz onde chega (afeto/bondade).
    A questão quer que você encontre a alternativa que diz: “Ele é um viajante leve que gosta de gente”.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Analisar o Estilo de Vida: Observar o que o texto diz sobre a moradia e bens dele.
  • Analisar o Comportamento Social: Observar como ele lida com fofocas e inimigos.
  • Sintetizar: Encontrar a opção que combina o “não ter coisas” com o “ter amor”.

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para entender a alma do personagem, vamos usar um Mapa Mental de Caracterização.

MAPA MENTAL: QUEM É BONDADE?

  • Relação com o MATERIAL (O Ter):
    • “Não tinha pouso certo.”
    • “Morava em lugar algum.”
    • “Homem devia ser que nem passarinho.”
    • Conclusão: Desprendimento (Liberdade).
  • Relação com o HUMANO (O Ser):
    • “Morava… no coração de todos.”
    • “Tanta gente para se gostar!”
    • “A intriga morria logo.” (Apaziguador).
    • Conclusão: Benevolência (Afeto/Bondade).

PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos rastrear as evidências no texto.

  • A Evidência do Desapego:
    O texto diz: “Para que ter pouso certo? Homem devia ser que nem passarinho, ter asas para voar”. Isso mostra que ele não valoriza a posse de uma casa ou bens fixos. Ele valoriza a liberdade de ir e vir. Isso é desprendimento material.
  • A Evidência da Benevolência:
    O texto diz: “Era amigo comum de dois ou mais inimigos… a intriga morria logo”. Ele não julgava, não levava e trazia fofoca. Ele “vivia intensamente cada lugar… cada pessoa”. Ele tinha uma disposição boa para com o próximo. Isso é benevolência afetiva.
  • A Justificativa do Nome:
    Por que “Bondade”? Porque ele oferece sua presença pacificadora sem cobrar nada e sem se apegar a nada.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨

A armadilha aqui é a alternativa A (generosidade em relação às demandas da comunidade).
O aluno lê “Bondade” e pensa em “dar coisas” ou “resolver problemas” (demandas). Mas o texto diz que ele “não era traidor nem mediador”. Ele não resolvia as demandas políticas ou estruturais da favela; ele apenas estava lá, vivendo e convivendo. A generosidade dele era de espírito (afetiva), não necessariamente material ou assistencialista. Ele não era um líder comunitário que atendia demandas, era uma presença humana acolhedora.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O apelido reflete duas faces da mesma moeda: a liberdade de não ter bens (desprendimento) e a liberdade de amar a todos sem distinção (benevolência).
  • Expectativa: Uma alternativa com dois termos: um para a falta de bens, outro para o excesso de afeto.

PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) generosidade em relação às demandas da comunidade onde vive.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Extrapolação Funcional. O texto não mostra Bondade resolvendo problemas (“demandas”) da comunidade, como falta de água ou brigas por terra. Ele convive bem, mas não é descrito como um provedor ou líder comunitário prático.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

B) capacidade de desprendimento material e benevolência afetiva.

  • Análise de Correspondência: Perfeita.
    • “Desprendimento material” = “Não tinha pouso certo… que nem passarinho”.
    • “Benevolência afetiva” = “Morava no coração de todos… tanta gente para se gostar”.
  • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

C) experiência em ignorar as provocações de seus inimigos.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Invenção de Fatos. O texto diz que ele era “amigo comum de dois ou mais inimigos”, ou seja, os inimigos eram entre si, não inimigos dele. Bondade não tinha inimigos citados no texto.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

D) coragem em assumir uma vida de solidão e privações.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição de Sentimento. O texto diz que ele vivia “tanta gente para se gostar” e “comia em casa de um, bebia em casa de outro”. Ele nunca estava só; estava sempre rodeado de gente. A solidão não faz parte da descrição dele.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

E) incapacidade de expressar emoções e sentimentos.

  • O “Diagnóstico do Erro”: Oposto do Texto. O narrador diz que ele “vivia intensamente cada lugar… cada pessoa”. Alguém que mora “no coração de todos” certamente expressa e troca sentimentos. O fato de ele “não abrir a boca” para fofocas é sinal de discrição, não de frieza emocional.
  • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa B é a correta. Bondade é a personificação da liberdade estoica: quem nada tem, nada teme perder, e por isso pode se doar inteiro aos outros.

Resumo-flash (A Imagem Mental): O passarinho não tem ninho fixo, mas canta em todas as janelas.

Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O perfil de “Bondade” lembra a figura do Griot na cultura africana ou do Andarilho na literatura universal (como em Vidas Secas ou Grande Sertão: Veredas). São figuras que costuram o tecido social, levando notícias, memórias e afeto entre núcleos separados, mantendo a comunidade unida através de sua própria mobilidade. Na obra de Conceição Evaristo, a “Escrevivência” (escrita + vida + vivência) valoriza essas figuras marginalizadas que possuem uma sabedoria ancestral de sobrevivência e afeto.

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