Motivadas ou não historicamente, normas prestigiadas ou estigmatizadas pela comunidade sobrepõem-se ao longo do território, seja numa relação de oposição, seja de complementaridade, sem, contudo, anular a interseção de usos que configuram uma norma nacional distinta da do português europeu. Ao focalizar essa questão, que opõe não só as normas do português de Portugal às normas do português brasileiro, mas também as chamadas normas cultas Iocais às populares ou vernáculas, deve-se insistir na ideia de que essas normas se consolidam em diferentes momentos da nossa história e que só a partir do século XVIII se pode começar a pensar na bifurcação das variantes continentais, ora em consequência de mudanças ocorridas no Brasil, ora em Portugal, ora, ainda, em ambos os territórios.
CALLOU, D. Gramática, variação e normas. In: VIEIRA, S. R.; BRANDÃO, S. (orgs). Ensino de gramática: descrição e uso. São Paulo: Contexto, 2007 (adaptado).
O português do Brasil não é uma língua uniforme. A variação linguística é um fenômeno natural, ao qual todas as línguas estão sujeitas. Ao considerar as variedades linguísticas, o texto mostra que as normas podem ser aprovadas ou condenadas socialmente, chamando a atenção do leitor para a:
A) desconsideração da existência das normas populares pelos falantes da norma culta.
B) difusão do português de Portugal em todas as regiões do Brasil só a partir do século XVIII.
C) existência de usos da língua que caracterizam uma norma nacional do Brasil, distinta da de Portugal.
D) inexistência de normas cultas locais e populares ou vernáculas em um determinado país.
E) necessidade de se rejeitar a ideia de que os usos frequentes de uma língua devem ser aceitos

Resolução em Texto
📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Linguística (Variação Linguística, Norma Culta vs. Norma Popular, História da Língua Portuguesa)
- Interpretação de Texto Acadêmico
🎯 Tema/Objetivo Geral: Análise da constituição histórica da norma do português brasileiro como uma entidade distinta da norma do português europeu.
📊 Nível da Questão: Médio.
- Por quê? O texto é denso e acadêmico, exigindo uma leitura cuidadosa para desvendar seu argumento principal. É preciso entender a complexa relação entre as diferentes normas (popular, culta, Portugal, Brasil) para identificar a tese central da autora.
✅ Gabarito: Alternativa C.
- Resumo: O texto argumenta que, apesar da sobreposição e dos conflitos entre diferentes normas (cultas, populares, de Portugal), existe um conjunto de usos linguísticos que se consolidaram e que configuram uma norma nacional brasileira, a qual é diferente da norma do português europeu, um processo que começou a se acentuar a partir do século XVIII.
Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
Transcrição Essencial 📌
“Ao considerar as variedades linguísticas, o texto mostra que as normas podem ser aprovadas ou condenadas socialmente, chamando a atenção do leitor para a…”
O que está sendo pedido?
A questão pede para identificarmos a ideia principal que o texto de Dinah Callou destaca sobre a dinâmica das normas linguísticas no Brasil. Qual é o ponto central para o qual ela quer chamar nossa atenção?
Objetivo Cristalino 🎯
Nosso objetivo é ler o texto e sintetizar seu argumento, que trata da existência de múltiplas normas (de Portugal, do Brasil, culta, popular) e de como elas interagem para formar uma realidade linguística específica do Brasil.
🧠 O título de Portugal como nosso “ex-colonizador” se aplica à língua também? Ou, com o tempo, o português falado aqui desenvolveu uma “personalidade” própria, diferente da de lá? O texto está argumentando a favor de qual dessas ideias?
Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessários
Definição de Termos 🔖
- Norma Linguística: Um conjunto de regras e usos linguísticos considerados “corretos” ou “aceitáveis” por uma determinada comunidade. Não existe apenas UMA norma.
- Norma Padrão/Culta: A variedade de prestígio, ensinada nas escolas e usada em contextos formais.
- Norma Popular/Vernácula: A variedade usada no dia a dia pela maioria da população, em contextos informais.
- Variação Diatópica (Geográfica): São as diferenças na língua entre diferentes lugares. O português do Brasil e o de Portugal são as duas principais variantes continentais.
- Bifurcação: Significa uma divisão, um ponto em que dois caminhos se separam. No texto, refere-se ao momento histórico (século XVIII) em que o português falado no Brasil e em Portugal começaram a seguir trajetórias de mudança cada vez mais distintas.
- Interseção de Usos: É o conjunto de características e regras que são comuns e compartilhadas, mesmo entre as diferentes variedades, e que formam um núcleo que podemos chamar de “português brasileiro”.
Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
Contextualização Simplificada 💬
A autora está nos dizendo o seguinte: “A língua portuguesa no Brasil é uma bagunça organizada. Temos a norma culta (o jeito ‘chique’ de falar), a norma popular (o jeito do povão) e ainda a sombra da norma de Portugal. Essas normas às vezes brigam, às vezes se completam, mas no meio de tudo isso, existe um conjunto de jeitos de falar que é só nosso, que forma o ‘português brasileiro’, e que é diferente do jeito que se fala em Portugal. Essa separação começou a ficar mais clara lá pelo século XVIII.” A questão é: qual é a principal mensagem que ela quer passar com essa explicação?
Estratégia Geral 🗺️
Vamos focar na frase-chave que resume a tese da autora e ver qual alternativa a reflete melhor.
Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
Passo a Passo Detalhado 👣
- A Complexidade das Normas: O texto começa reconhecendo a existência de várias normas (“prestigiadas ou estigmatizadas”) que se “sobrepõem”.
- A Frase-Chave: No meio dessa complexidade, o texto faz uma afirmação central:”…sem, contudo, anular a interseção de usos que configuram uma norma nacional distinta da do português europeu.”
- Análise da Frase-Chave: Esta é a tese principal. A autora está afirmando que, apesar de toda a variação interna e da influência histórica de Portugal, é possível identificar um conjunto de características que define o português brasileiro como um sistema com sua própria norma, que é diferente da de Portugal.
- A Dimensão Histórica: Ela reforça essa ideia ao apontar o momento em que essa separação (“bifurcação”) começou a se tornar evidente: a partir do século XVIII.
- Conclusão: A principal atenção que o texto chama é para o fato de que o Brasil desenvolveu sua própria norma nacional, que não é idêntica à de Portugal.
Possível armadilha 🚨
A alternativa A) desconsideração da existência das normas populares pelos falantes da norma culta é uma armadilha. O texto menciona que as normas populares são “estigmatizadas”, o que implica em um preconceito, mas a tese principal do texto não é sobre o preconceito em si. O foco é a constituição da norma brasileira como um todo, em sua relação com a norma portuguesa. O preconceito é um dos elementos do conflito, mas não a conclusão principal do argumento.
Fechamento e expectativa
Procuramos a alternativa que afirme a existência de uma identidade linguística própria para o português do Brasil, distinta da de Portugal.
✅ Passo 5: Análise das Alternativas
🔴 A) desconsideração da existência das normas populares pelos falantes da norma culta.
Incorreta. Embora o texto mencione a estigmatização, seu foco principal não é a relação interna entre as normas culta e popular no Brasil, mas sim a relação entre o conjunto de normas brasileiras e a norma europeia.
🔴 B) difusão do português de Portugal em todas as regiões do Brasil só a partir do século XVIII.
Incorreta. O português de Portugal foi a base desde o início da colonização. O século XVIII é marcado pelo início da separação (bifurcação), e não da difusão.
🟢 C) existência de usos da língua que caracterizam uma norma nacional do Brasil, distinta da de Portugal.
Correta. Esta alternativa é uma paráfrase exata da tese central do texto: existe uma “interseção de usos que configuram uma norma nacional distinta da do português europeu”.
🔴 D) inexistência de normas cultas locais e populares ou vernáculas em um determinado país.
Incorreta. O texto afirma exatamente o oposto: ele fala das “chamadas normas cultas locais às populares ou vernáculas”.
🔴 E) necessidade de se rejeitar a ideia de que os usos frequentes de uma língua devem ser aceitos.
Incorreta. A autora, como linguista, defende uma visão descritiva, e não prescritiva. A lógica do texto vai no sentido de que os usos frequentes e consolidados são exatamente o que constitui a norma de uma comunidade.
Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
Resumo do Raciocínio 📝
O texto da linguista Dinah Callou argumenta que a língua portuguesa no Brasil é um sistema complexo, formado pela interação de diversas normas (cultas, populares, históricas). A ênfase principal de seu argumento é que, apesar dessa complexidade, consolidou-se um conjunto de usos característicos que formam uma norma nacional brasileira, a qual se tornou distinta da norma do português europeu, um processo de diferenciação que se intensificou a partir do século XVIII.
Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a C.
Resumo Final para Revisão
Lembre-se: o português do Brasil não é um “português errado”. É uma variedade nacional com sua própria história, suas próprias regras e sua própria norma, tão legítima quanto a de Portugal. O texto defende exatamente essa autonomia.