É possível ter cãibras no coração?
É impossível ter cãibras no coração, apesar de ser comum pacientes se queixarem de dores semelhantes a uma contratura no órgão. A musculatura cardíaca é diferente da musculatura esquelética das pernas e braços, onde sentimos as cãibras. Isso porque o coração possui um tipo especial de fibra muscular estriada, que tem movimento involuntário. O órgão contrai e relaxa automaticamente. Não há registro de casos em que ele permaneça contraído sem relaxamento imediato, que é como a cãibra se apresenta.
Disponível em: http://super.abril.com.br. Acesso em: 30 jun. 2012 (fragmento).
Os conectivos são elementos fundamentais para a ligação de palavras e orações no texto. Contextualmente, o conectivo “apesar de” expressa
A) explicação, porque apresenta os motivos que impossibilitam o aparecimento de cãibras no coração.
B) concessão, pois introduz uma ideia contrária à afirmação “é impossível ter cãibras no coração”.
C) causa, tendo em vista que introduz a razão da manifestação da doença no coração.
D) conclusão, já que finaliza a afirmação “é impossível ter cãibras no coração”.
E) consequência, uma vez que apresenta os efeitos das cãibras.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Coesão Textual e Conectivos (Conjunções)
- Análise Sintática: Orações Subordinadas Adverbiais
- Semântica: Relações Lógico-Discursivas (Causa, Consequência, Concessão, etc.)
Tema/Objetivo Geral: Identificação do valor semântico de um conectivo concessivo (“apesar de”) e sua função na argumentação do texto.
Nível da Questão: Médio.
- Detalhe: A questão é considerada de nível médio porque exige o conhecimento técnico do termo “concessão”. Enquanto um leitor pode intuir que há uma oposição de ideias, nomear essa relação específica e diferenciá-la de outras relações de contraste ou causa (que funcionam como distratoras) demanda um conhecimento gramatical mais preciso.
Gabarito: B) concessão, pois introduz uma ideia contrária à afirmação “é impossível ter cãibras no coração”.
- Explicação Resumida: O conectivo “apesar de” introduz um fato (as queixas dos pacientes) que poderia contradizer a ideia principal (a impossibilidade de cãibras no coração), mas que não é forte o suficiente para invalidá-la, caracterizando uma relação de concessão.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: A questão nos pede para atuar como um engenheiro textual. Precisamos analisar a “peça de ligação” — o conectivo “apesar de” — e definir qual é a sua função exata na estrutura do argumento. Em bom português: para que serve o “apesar de” naquela frase?
Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense em uma luta de boxe. O autor é um lutador que quer provar um ponto: “É impossível ter cãibras no coração”. Antes de dar seu golpe final, ele faz algo inesperado: ele abre a guarda e “concede” um pequeno soco do adversário, dizendo: “Eu sei, eu admito que muita gente sente uma dor parecida”. Ao admitir esse fato contrário (o soco) e continuar de pé para explicar por que ele não muda o resultado da luta, sua vitória se torna ainda mais convincente. O “apesar de” é esse movimento de “admitir o golpe para mostrar que ele não me derruba”.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nossa perícia seguirá três etapas lógicas:
- Isolar a Afirmação Principal: Vamos identificar a tese central que o autor defende com mais força.
- Isolar a Afirmação Secundária: Identificaremos a informação que é introduzida pelo “apesar de”.
- Analisar a Relação de Forças: Colocaremos as duas afirmações frente a frente para entender como uma se relaciona com a outra e, assim, definir o papel do conectivo.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, vamos usar um Diálogo Mentor-Aluno (🕵️♂️ & 🧠) para desvendar o mistério da “Concessão”, uma das ferramentas mais sofisticadas da argumentação.
🕵️♂️: Olá, jovem detetive. Hoje vamos falar sobre os conectivos, que são como as placas de trânsito de um texto. Eles nos dizem se devemos seguir em frente, virar, esperar uma oposição ou entender uma causa.
🧠: Entendi. E a placa “apesar de”? Que tipo de sinalização ela é?
🕵️♂️: Excelente pergunta. “Apesar de” é uma placa de “Obstáculo à Frente, Mas Prossiga”. Ela sinaliza uma Concessão. Para entender, vamos a um caso clássico: “Apesar de estar chovendo, fui à praia.”
🧠: Ué, mas o esperado seria o contrário. Se chove, a gente não vai à praia.
🕵️♂️: Exatamente! Você acabou de descobrir a alma da concessão. Ela funciona em três tempos:
1. A Lógica Esperada: Chuva leva a -> Ficar em casa.
2. O Obstáculo: A chuva existe. O autor “concede”, ele admite: “Sim, é um fato, está chovendo.”
3. A Quebra da Expectativa: A ação principal (ir à praia) acontece mesmo com o obstáculo. O obstáculo não teve força para impedir a ação.
🧠: Então, a concessão é admitir um fato que parece que vai atrapalhar, mas no fim não atrapalha?
🕵️♂️: Perfeito! É reconhecer um argumento contrário para depois mostrar que ele é irrelevante para a sua conclusão. É diferente da Causa (“Fiquei em casa porque choveu”, onde a chuva é o motivo direto da ação) e da Adversidade simples (“Choveu, mas fui à praia”, que apenas contrasta duas ideias). A Concessão tem essa elegância de “trazer o inimigo para perto” para mostrar que você é mais forte. É uma jogada de mestre na argumentação.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Com nossa compreensão afiada sobre o que é uma concessão, vamos aplicar a ferramenta ao texto e executar nosso plano de ataque.
- Execução 1: Isolando a Afirmação Principal (A Tese)
- O texto começa com uma declaração forte e inequívoca, que é a ideia central a ser defendida: “É impossível ter cãibras no coração“. Este é o argumento principal, o campeão que o autor quer ver vitorioso no final.
- Execução 2: Isolando a Afirmação Secundária (O Obstáculo)
- Imediatamente, o conectivo “apesar de” introduz uma segunda informação: “ser comum pacientes se queixarem de dores semelhantes a uma contratura no órgão“. Este é o “argumento contrário”, o fato que, à primeira vista, parece enfraquecer a tese principal. Se tantas pessoas se queixam, será que é impossível mesmo?
- Execução 3: Analisando a Relação de Forças (A Luta Lógica)
- Vamos montar o ringue de boxe da nossa analogia:
- De um lado (o autor): “É impossível ter cãibras no coração.”
- Do outro (o senso comum): “Mas é comum as pessoas sentirem uma dor parecida!”
- A lógica que o leitor poderia esperar é: Se a dor é comum, então talvez cãibras no coração sejam possíveis.
- O que o autor faz com o “apesar de”? Ele “concede” o ponto do senso comum. Ele diz: “Sim, eu admito, eu reconheço que essa queixa é comum”. Ele não ignora o fato contrário.
- E o resultado? Ao fazer isso, ele prepara o terreno para a sua explicação científica (“A musculatura cardíaca é diferente…”). Ele mostra que, mesmo levando em conta as queixas dos pacientes (o obstáculo), sua afirmação principal (a impossibilidade) continua de pé, mais forte do que antes, porque agora ela não só foi afirmada, como foi defendida contra seu principal contra-argumento.
- Vamos montar o ringue de boxe da nossa analogia:
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação demonstra que o conectivo “apesar de” serve para introduzir um fato que se opõe à lógica da ideia principal, mas sem ter força para anulá-la. É uma ressalva, uma admissão estratégica.
- Expectativa: A alternativa correta deve usar o termo técnico para essa relação de “admitir um obstáculo que não impede a ação principal”. Esse termo é concessão.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
- A) explicação, porque apresenta os motivos que impossibilitam o aparecimento de cãibras no coração.
- Análise de Correspondência: Não corresponde à Bússola.
- A “Narrativa do Erro”: O aluno vê que o texto é explicativo e atribui essa função ao conectivo errado.
- O “Diagnóstico do Erro”: Confundir a Parte com o Todo. O texto tem uma explicação, mas ela é introduzida pelo conectivo “Isso porque…”. O “apesar de” faz o contrário: ele apresenta a complicação, não a explicação.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- B) concessão, pois introduz uma ideia contrária à afirmação “é impossível ter cãibras no coração”.
- Análise de Correspondência: Encaixe perfeito com nossa Bússola. Descreve com precisão a função de admitir uma ideia contrária (as queixas) que não invalida a tese principal (a impossibilidade).
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
- C) causa, tendo em vista que introduz a razão da manifestação da doença no coração.
- Análise de Correspondência: Não corresponde à Bússola.
- A “Narrativa do Erro”: O aluno inverte a lógica, pensando que as queixas são a “causa” da discussão.
- O “Diagnóstico do Erro”: Inversão Lógica. As queixas não são a causa da impossibilidade das cãibras. São, na verdade, um fato que contrasta com essa impossibilidade.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- D) conclusão, já que finaliza a afirmação “é impossível ter cãibras no coração”.
- Análise de Correspondência: Não corresponde à Bússola.
- A “Narrativa do Erro”: O aluno confunde a função de diferentes tipos de conectivos.
- O “Diagnóstico do Erro”: Erro de Função. Conectivos conclusivos (logo, portanto, assim) fecham um raciocínio. “Apesar de” faz o oposto: ele abre uma ressalva, uma nova linha de argumentação contrastiva.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- E) consequência, uma vez que apresenta os efeitos das cãibras.
- Análise de Correspondência: Não corresponde à Bússola.
- A “Narrativa do Erro”: O aluno lê sobre “dores” e associa a “efeitos”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. A oração introduzida por “apesar de” não fala dos efeitos das cãibras; pelo contrário, fala de dores que não são cãibras. Não há uma relação de consequência com a tese principal.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
- Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa B é a correta, pois o “apesar de” é o instrumento linguístico por excelência para construir uma concessão, uma das mais eficientes táticas argumentativas.
- Resumo-flash (A Imagem Mental): “Apesar de” é o “Eu sei, mas…” de um argumento: ele admite um fato contrário para provar que, mesmo com ele, a sua verdade continua de pé.
- 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio da concessão é fundamental na Engenharia de Materiais. Ao projetar um arranha-céu, os engenheiros não ignoram a força do vento. Eles “concedem” que o vento existe e vai empurrar o prédio. Apesar de o vento exercer uma força tremenda (o argumento contrário), a estrutura é projetada com flexibilidade e resistência para que essa força não a derrube (a tese principal se mantém). Um prédio rígido demais quebraria. Assim como na linguagem, na engenharia, reconhecer e acomodar a força oposta (a concessão) é o que garante a estabilidade e a força da estrutura final.

