Uma língua é um sistema social reconhecível em diferentes variedades e nos muitos usos que as pessoas fazem dela em múltiplas situações de comunicação. O texto que se apresenta na variedade padrão formal da língua é:
A)
Quando você quis eu não quis
Qdo eu quis você ñ quis
Pensando mal quase q fui
Feliz
(Cacaso)
B)
— Aonde é que você vai, rapaz?!
— Tá louco, bicho, vou cair fora!
— Mas, qual é, rapaz?! Uma simples operação de
apendicite!
(Ziraldo)
C)
Eu, hoje, acordei mais cedo
e, azul, tive uma ideia clara.
Só existe um segredo.
Tudo está na cara.
(Paulo Leminski)
D)
Com deus mi deito com deus mi levanto
comigo eu calo comigo eu canto
eu bato um papo eu bato um ponto
eu tomo um drink eu fico tonto.
(Chacal)
E)
O tempo é um fio
por entre os dedos.
Escapa o fio,
perdeu-se o tempo.
(Henriqueta Lisboa)

Resolução em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Variação Linguística (Norma Padrão vs. Norma Coloquial)
- Interpretação de Textos Literários
- Morfossintaxe (análise de regras gramaticais)
Tema/Objetivo Geral: Identificar a aplicação da variedade padrão formal da língua em um texto literário.
Nível da Questão: Médio. A questão exige mais do que apenas identificar erros gramaticais. É preciso diferenciar entre linguagem coloquial, desvios intencionais (licença poética) e o uso rigoroso da norma padrão, o que demanda um olhar analítico mais apurado.
Gabarito: E) O tempo é um fio por entre os dedos. Escapa o fio, perdeu-se o tempo. A alternativa E apresenta um texto construído com vocabulário comum, mas com uma estrutura sintática e pontuação que seguem rigorosamente as regras da gramática formal.
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
Transcrição Essencial
A chave do enunciado é: “O texto que se apresenta na variedade padrão formal da língua é…”
O que está sendo pedido?
A questão nos pede para ler cinco trechos de poemas e identificar qual deles foi escrito seguindo as regras da gramática normativa, sem gírias, abreviações ou marcas de oralidade.
Objetivo Cristalino
Nossa missão é atuar como “fiscais da gramática” e encontrar o texto mais “correto” e “limpo” do ponto de vista formal, mesmo que todos sejam textos poéticos e, portanto, artísticos.
Você consegue diferenciar um erro gramatical ou uma gíria de uma “licença poética”, que é uma liberdade que o artista toma para criar um efeito? Essa distinção é crucial aqui!
📖 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
Definições e Termos
Vamos entender as “roupas” da nossa língua:
- Variedade Padrão Formal: É a “roupa de gala”. Usada em documentos oficiais, textos acadêmicos, jornais de grande circulação e na literatura mais tradicional. Segue as regras da gramática (concordância, regência, pontuação), usa um vocabulário mais amplo e evita marcas de informalidade.
- Variedade Coloquial/Informal: É a “roupa do dia a dia”. É a linguagem que usamos com amigos e família. É mais espontânea, permite gírias, abreviações (como “vc”, “tá”), frases mais curtas e até algumas “infrações” gramaticais que são comuns na fala.
- Licença Poética: É um “acessório especial” que os poetas podem usar. É uma permissão para “quebrar” uma regra gramatical de propósito, não por desconhecimento, mas para criar um ritmo, uma rima ou um efeito de sentido específico.
🔄 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
💬 Contextualização Simplificada
É como se a língua tivesse um guarda-roupa. A questão nos mostra cinco “looks” e pergunta: qual deles é o traje social completo, o “smoking”? Precisamos procurar aquele que não tem “tênis” (gíria), nem “camiseta amassada” (erro ou abreviação), mas que está impecavelmente alinhado com as regras formais.
Estratégia Geral
Vamos examinar cada alternativa em busca de qualquer elemento que fuja da norma padrão: abreviações, gírias, erros de grafia ou concordância propositais que marcam uma linguagem mais popular ou falada. O texto que não tiver nada disso será o nosso escolhido.
🧠 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
Passo a Passo Detalhado
Ao analisar os textos, rapidamente percebemos que a maioria apresenta marcas claras de informalidade ou desvios da norma padrão:
- Texto A: Usa “Qdo”, “ñ”, “q”, abreviações típicas de comunicação rápida e informal.
- Texto B: É um diálogo cheio de gírias e expressões da oralidade: “Tá louco, bicho”, “vou cair fora!”, “qual é”.
- Texto D: Usa “mi deito” e “mi levanto”, refletindo uma pronúncia popular e um desvio da norma culta, que exige “me deito” e “me levanto”.
- Texto E: Por outro lado, o texto de Henriqueta Lisboa é “limpo”. A construção “perdeu-se o tempo” está gramaticalmente perfeita. O vocabulário é simples, mas formal. As frases são curtas, mas bem estruturadas. Não há nenhum marcador de informalidade.
👀 Verificação Intermediária
A comparação direta mostra que os textos A, B e D se afastam deliberadamente do padrão formal para criar um efeito de proximidade com a fala ou com a escrita informal. O texto E faz o caminho oposto, mantendo-se fiel à norma.
Possível armadilha
A armadilha poderia estar no texto C, que é mais sutil. Um leitor desatento poderia estranhar o “azul, tive uma ideia clara” e achar que é um erro, mas é um caso de licença poética (o adjetivo “azul” qualificando o estado do eu-lírico). No entanto, mesmo sendo poético, ele se aproxima mais da norma padrão que os outros, mas o texto E é ainda mais “puro” em sua formalidade.
Fechamento e expectativa
Nossa análise nos leva a concluir que o texto E é o único que se encaixa perfeitamente na descrição de “variedade padrão formal”.
📊 Passo 5: Análise das Alternativas
A) 🔴 Incorreta. Este texto usa abreviações (“Qdo”, “ñ”, “q”), uma característica marcante da linguagem informal e digital, distanciando-se completamente da norma padrão.
B) 🔴 Incorreta. Trata-se da transcrição de um diálogo com gírias (“bicho”, “cair fora”) e expressões coloquiais (“Tá louco”, “qual é”), representando a variedade informal e oral da língua.
C) 🟡 Parcialmente certo/confuso. Esta é a alternativa que mais poderia gerar dúvida. A estrutura gramatical é, em grande parte, formal. No entanto, o uso da palavra “azul” como um advérbio de modo (“tive uma ideia de modo azul / estando azul”) é uma ousadia poética. Embora não seja um erro, é um uso incomum que pode ser interpretado como um leve desvio do padrão mais rígido, tornando o texto E uma opção mais segura e clara de formalidade.
D) 🔴 Incorreta. O uso de “mi” em vez de “me” é um desvio intencional da ortografia e da morfologia padrão para representar uma variedade linguística popular ou regional, o que o exclui da categoria formal.
E) 🟢 Correta. Este texto é o exemplo perfeito de variedade padrão formal. A sintaxe é clara, a pontuação está correta, a colocação pronominal (“perdeu-se”) está de acordo com a norma culta e não há qualquer traço de informalidade, gíria ou oralidade.
🏁 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
📜 Resumo do Raciocínio
A tarefa era identificar o texto em conformidade com a norma padrão formal. Analisamos cada opção, descartando as que continham abreviações, gírias e desvios ortográficos intencionais. O texto da alternativa E se destacou por sua correção gramatical e ausência total de marcas de informalidade.
Gabarito Reafirmado
A alternativa correta é a E.
Resumo Final para Revisão
Lembre-se: em textos literários, a linguagem é uma ferramenta. Distinguir quando o autor usa a informalidade para criar um efeito de proximidade e quando usa a formalidade para criar um efeito de solenidade ou universalidade é a chave para a análise.