Questão 123 caderno cinza ENEM 2014 terceira aplicação 2° Dia

A despropósito

   Olhou para o teto, a telha parecia um quadrado de doce.

   Ah! — falou sem se dar conta de que descobria,

   durando desde

   a infância, aquela hora do dia, mais um galo cantando,

   um corte de trator, as três camadas de terra,

   a ocre, a marrom, a roxeada. Um pasto,

   não tinha certeza se uma vaca

   e o sarilho da cisterna desembestado, a lata

   batendo no fundo com estrondo.

   Quando insistiram, vem jantar, que esfria, ele foi e disse antes de comer: “Qualidade de telha é essas de antigamente”.

PRADO, A. Bagagem. Rio de janeiro: Civilização Brasileira, 2006

A poesia brasileira sofreu importantes transformações após a Semana de 1922, sendo a aproximação com a prosa uma das mais significativas. O poema da poeta mineira Adélia Prado rompe com a lírica tradicional e se aproxima da prosa por apresentar

A) travessão, estrutura do verso com pontuação comum a orações e aproximação com a oralidade, elementos próprios da narrativa.

B) uma estrutura narrativa que não segue a sequência de estrofes nem utiliza de linguagem metafórica.

C) personagem situado no tempo e espaço, descrevendo suas memórias da infância.

D) discurso direto e indireto alternados na voz do eu lírico e localização espacial.

E) narrador em primeira pessoa, linguagem discursiva e elementos descritivos.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Interpretação de Texto Poético
  • Teoria Literária (Diferenças entre Poesia e Prosa)
  • Literatura Brasileira (Modernismo e a Geração de 45/Pós-modernismo)
  • Elementos da Narrativa e Estilística (Oralidade, Discurso Direto)

Tema/Objetivo Geral: Identificar os elementos estruturais e linguísticos que aproximam a poesia de Adélia Prado da prosa narrativa, rompendo com a lírica tradicional.

Nível da Questão: Difícil.

  • Justificativa: A questão é difícil porque exige um repertório de teoria literária do candidato. Não basta interpretar o poema; é preciso saber ativamente quais são as características da “lírica tradicional” e da “prosa” para, então, identificar no texto os elementos que marcam essa fusão. A alternativa correta (A) é técnica, e as incorretas (como a C) apresentam distratores temáticos muito fortes.

Gabarito: A – travessão, estrutura do verso com pontuação comum a orações e aproximação com a oralidade, elementos próprios da narrativa.

  • Explicação Resumida: Esta alternativa é a única que lista corretamente as ferramentas formais e estilísticas (o como) que a poeta utiliza para dar ao seu poema uma “cara” de conto ou crônica, misturando os universos da poesia e da prosa.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: O enunciado já nos dá o veredito: o poema de Adélia Prado se aproxima da prosa. A questão quer que a gente aponte quais são as características técnicas, estruturais e linguísticas no poema que provam essa aproximação.

Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense na poesia tradicional como a pintura de um retrato clássico: poses rígidas, composição formal, pinceladas controladas, foco na beleza idealizada e na emoção contida. A prosa é como uma fotografia documental: captura uma cena do cotidiano, com pessoas falando, movimento, objetos comuns, de forma espontânea e direta. O verdadeiro desafio aqui é olhar para o poema de Adélia Prado e encontrar os elementos que o fazem parecer mais uma “fotografia” do que um “retrato pintado”.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Montar o Laboratório de Análise: Primeiro, vamos definir com clareza as diferenças entre a “pintura clássica” (poesia lírica tradicional) e a “fotografia documental” (prosa). Faremos isso com uma tabela comparativa, como você sugeriu.
  • Periciar a Cena do Crime: Vamos analisar o poema verso a verso, procurando por “impressões digitais” de prosa: pontuação de diálogo, linguagem falada, estrutura de frase, etc.
  • Construir o Retrato Falado: Com base na perícia, vamos descrever exatamente o que a alternativa correta precisa conter para ser a “confissão” da poeta.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para sermos detetives de elite, não podemos ir a campo sem antes estudar o modus operandi dos nossos alvos. Neste caso, nossos “alvos” são dois estilos literários: a Poesia Lírica Tradicional e a Prosa Narrativa. Vamos construir, passo a passo, um dossiê detalhado sobre cada um, para que saibamos exatamente o que procurar no poema.

Construindo o Dossiê de Estilos (Método Comparativo):

  • Passo 2.1: A “Impressão Digital” Visual (Estrutura):

    • Como reconhecemos um poema tradicional só de olhar? Pela sua forma. Ele é “desenhado” na página em versos (linhas curtas) e estrofes (blocos de versos). Muitas vezes, essa estrutura segue regras de métrica (número de sílabas poéticas) e rima. A preocupação com a musicalidade e a forma visual é imensa.
    • E a prosa? Ela flui de forma contínua, ocupando a linha inteira. É organizada em frases que se juntam em parágrafos. A preocupação central não é a forma visual, mas a clareza e a progressão da informação ou da história.
  • Passo 2.2: O “DNA” do Texto (Linguagem):

    • A poesia tradicional frequentemente usa uma linguagem elevada, mais formal e seleta. Ela é o reino das figuras de linguagem sofisticadas, buscando expressar emoções de forma intensa e sublime, muitas vezes se distanciando da fala comum.
    • A prosa narrativa, por sua vez, tende a se aproximar da linguagem do dia a dia. Ela busca a verossimilhança, ou seja, parecer com a vida real. Por isso, valoriza a oralidade, as expressões coloquiais e um vocabulário mais direto e objetivo.
  • Passo 2.3: O “Motivo do Crime” (Foco Principal):

    • Qual a missão da poesia lírica? Expressar a subjetividade. É um mergulho no mundo interior do “eu lírico”, explorando seus sentimentos, angústias e percepções em um determinado momento. É um flash emocional.
    • Qual a missão da prosa narrativa? Contar uma história. Seu foco está em acontecimentos que se desenrolam no tempo, envolvendo personagens em um cenário. É um filme de eventos.
  • Passo 2.4: As “Regras de Trânsito” (Pontuação):

    • Na poesia, a pontuação pode ser subvertida. É a chamada licença poética. O ritmo e a pausa são muitas vezes ditados pela quebra do verso, não por uma vírgula ou um ponto.
    • Na prosa, a pontuação é uma ferramenta crucial para a clareza. E, mais importante para o nosso caso, ela possui sinais específicos para indicar diálogos, como o travessão (—).

Agora, vamos consolidar nosso dossiê em uma tabela para referência rápida:

Tabela Comparativa: Dossiê de Estilos

Característica 📜 Poesia Lírica Tradicional (O Alvo) 📖 Prosa Narrativa (A Influência)
Estrutura Visual Organizada em versos e estrofes com métrica e rima definidas. A forma é rígida e musical. Organizada em frases, parágrafos e capítulos. O fluxo é contínuo.
Linguagem Geralmente elevada, formal, rica em figuras de linguagem complexas (metáforas, hipérboles). Busca o sublime. Tende a ser mais direta, objetiva e próxima da linguagem cotidiana (oralidade). Busca a verossimilhança.
Foco Principal Expressão do “eu lírico”, sentimentos, subjetividade, um instante emocional. Narração de acontecimentos, desenvolvimento de enredo, descrição de personagens e cenários.
Pontuação Pode usar a pontuação de forma livre (licença poética) ou até aboli-la. A pausa é dada pelo ritmo do verso. Segue as regras gramaticais para indicar diálogos (travessão), pausas (vírgulas) e final de ideias (ponto final).
Exemplo Rápido “Amor é fogo que arde sem se ver; / É ferida que dói, e não se sente;” (Camões) “Marcelo martelava na parede. Queria pendurar um quadro. De repente, a campainha tocou.” (Exemplo Ficcional)

Com este laboratório montado, estamos prontos. A teoria está sólida. Vamos para a prática.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Agora começa a verdadeira perícia. Vamos colocar o poema “A despropósito” na nossa mesa de autópsia e, usando o dossiê que criamos, caçar as evidências do “DNA” da prosa. Este é o momento de aplicar a teoria de forma metódica e implacável.

Laudo Pericial do Poema “A despropósito”

  • Fase 1: Análise da Estrutura Externa (A Arquitetura do Crime)
    • Ao primeiro olhar, o texto se apresenta em versos, o que o caracteriza como poema. Contudo, notamos a ausência de uma organização rígida em estrofes regulares e a falta de um esquema de rimas óbvio. Os versos fluem de forma contínua, quase como um parágrafo de prosa que foi “quebrado” em linhas. Essa liberdade formal já é um primeiro indício de afastamento do lirismo tradicional e um aceno à liberdade da prosa. A mancha de prosa já é visível na silhueta do texto.
  • Fase 2: Análise Forense das Pistas Internas (O DNA do Texto)
    • Pista Forense nº 1: A “Arma na Cena do Crime” – O Travessão (—)
      • Localização: Verso 2: “Ah! — falou sem se dar conta de que descobria,”
      • Análise Detalhada: Conforme nosso dossiê, o travessão é a ferramenta por excelência para marcar o discurso direto na prosa narrativa. Sua presença aqui é a prova material mais forte de que não estamos lendo apenas um poema lírico, mas a narração de uma cena. Existe um narrador (em 3ª pessoa, “falou”) que nos conta o que um personagem disse (“Ah!”). Esta é a estrutura fundamental de um conto, de um romance. É a prova irrefutável de que o texto está contando uma pequena história.
    • Pista Forense nº 2: A “Falsificação de Identidade” – Versos que se Comportam como Frases
      • Localização: Versos 1, 8, 9, etc. (“Olhou para o teto, a telha parecia um quadrado de doce.”; “não tinha certeza se uma vaca / e o sarilho da cisterna desembestado…”)
      • Análise Detalhada: Vamos dissecar a primeira linha: “Olhou para o teto, a telha parecia um quadrado de doce.” Do ponto de vista sintático, esta é uma oração perfeitamente prosaica, em ordem direta, com sujeito oculto e predicados claros. Ela não se sustenta por uma musicalidade poética, mas pela sua função de descrever uma ação e uma percepção, exatamente como um narrador faria. A pontuação (a vírgula) segue a lógica da gramática da prosa, separando orações. O poema inteiro é construído com essa “alma” de prosa disfarçada em “corpo” de verso.
    • Pista Forense nº 3: A “Confissão Gravada” – Marcas de Oralidade
      • Localização: Verso 9 (“e o sarilho da cisterna desembestado”) e verso 12 (“Qualidade de telha é essas de antigamente”).
      • Análise Detalhada: A palavra “desembestado” é uma gíria, uma expressão popular que raramente encontraria lugar na poesia formal. Ela traz o texto para o chão da vida cotidiana. A “confissão” final, porém, é a fala “é essas”. Essa concordância verbal é uma marca típica da fala brasileira, da oralidade. Adélia Prado não “corrige” a fala do personagem para a norma culta. Ela a transcreve como seria dita, um recurso clássico do realismo na prosa para dar autenticidade aos diálogos.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (C). Por quê? Porque nosso cérebro é treinado para buscar o tema, o “quê”. E o poema, de fato, fala sobre memórias da infância. É um tema comovente e fácil de identificar. No entanto, a missão que o enunciado nos deu não é dizer sobre o que o poema fala, mas COMO ele é construído. A questão é de FORMA, não de conteúdo. É como pedir para um perito analisar a técnica de uma fotografia (foco, luz, enquadramento) e ele responder descrevendo a pessoa que foi fotografada. Ele estaria respondendo à pergunta errada.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: Nosso laudo pericial é conclusivo. O poema de Adélia Prado foi construído com ferramentas roubadas da caixa da prosa: a pontuação de diálogo (travessão), a sintaxe de frase narrativa e o vocabulário da vida real (oralidade).
    • Expectativa: A alternativa correta deve ser, portanto, um resumo técnico do nosso laudo. Ela precisa listar essas ferramentas formais e estilísticas como prova da aproximação do poema com a narrativa.

4️⃣ ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

  • A) travessão, estrutura do verso com pontuação comum a orações e aproximação com a oralidade, elementos próprios da narrativa.
    • Análise de Correspondência: Esta alternativa é o espelho do nosso laudo. Menciona o “travessão” (Pista #1), a “estrutura do verso com pontuação comum a orações” (Pista #2) e a “aproximação com a oralidade” (Pista #3). É a descrição perfeita do modus operandi da poeta.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • B) uma estrutura narrativa que não segue a sequência de estrofes nem utiliza de linguagem metafórica.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato vê a falta de estrofes e pode se confundir sobre a metáfora.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. A alternativa comete um erro factual fatal. Ela alega que o poema “não utiliza de linguagem metafórica”, mas a primeira linha (“a telha parecia um quadrado de doce”) é uma clara construção metafórica (símile).
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) personagem situado no tempo e espaço, descrevendo suas memórias da infância.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato foca no conteúdo, no tema da infância, que é muito presente no poema.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Confundir Tema com Forma. Esta é a armadilha clássica que desarmamos. A alternativa descreve o assunto do poema (o quê), mas ignora a pergunta do enunciado, que é sobre os recursos formais (o como).
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) discurso direto e indireto alternados na voz do eu lírico e localização espacial.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato identifica o discurso direto e a descrição de um lugar e acha que a alternativa está correta.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Imprecisão Técnica. O poema é predominantemente narrado em terceira pessoa (“Olhou”, “falou”, “ele foi”), não na “voz do eu lírico” (primeira pessoa), um erro técnico que invalida a alternativa.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • E) narrador em primeira pessoa, linguagem discursiva e elementos descritivos.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato vê a linguagem “discursiva” e “elementos descritivos” e concorda.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. Repete o erro da alternativa D. O narrador não está em primeira pessoa.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

  • Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa A é a resposta correta, pois ela identifica com precisão as ferramentas formais que Adélia Prado usa para demolir a parede entre a poesia e a prosa, construindo uma “casa” literária onde o lirismo e o cotidiano moram juntos.
  • Resumo-flash (A Imagem Mental): Adélia Prado serve a poesia em prato de prosa: usa ingredientes do dia a dia (oralidade) e talheres de contar história (travessão).
  • 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): Essa mesma ruptura de formas acontece no Cinema. O cinema clássico de Hollywood tinha uma “gramática” rígida (iluminação de três pontos, edição invisível, estrutura em três atos). Movimentos como a Nouvelle Vague francesa (com cineastas como Godard) romperam com isso. Eles usaram câmera na mão (a “oralidade” do cinema), cortes bruscos (a “quebra de verso”), e personagens falando diretamente para a câmera (quebra da quarta parede). Assim como Adélia Prado aproxima o poema da prosa para capturar a verdade do cotidiano, a Nouvelle Vague aproximou o cinema do “documental” para capturar a verdade da vida, mostrando que a quebra das formas tradicionais é uma poderosa ferramenta para buscar a autenticidade.

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