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Questão 122, caderno cinza (06) do ENEM PPL 2014

Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os
homens presentes,
a vida presente.

ANDRADE, C. D. Sentimento do mundo. São Paulo: Cia. das Letras, 2012.

Escrito em 1940, o poema Mãos dadas revela um eu lírico marcado pelo contexto de opressão política no Brasil e da Segunda Guerra Mundial. Em face dessa realidade, o eu lírico:

A) considera que em sua época o mais importante é a independência dos indivíduos.

B) desvaloriza a importância dos planos pessoais na vida em sociedade.

C) reconhece a tendência à autodestruição em uma sociedade oprimida.

D) escolhe a realidade social e seu alcance individual como matéria poética.

E) critica o individualismo comum aos românticos e aos excêntricos.

Resolução em Texto

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
Interpretação de texto, Literatura brasileira (Modernismo), Análise poética.

📝 Tema/Objetivo Geral:
Compreender como o eu lírico modernista se posiciona frente à realidade histórica e social do presente.

📊 Nível da Questão:
Médio — por exigir leitura sensível do contexto histórico aliado à função do eu lírico na poesia engajada.

🎯 Gabarito:
D


Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

📌 A questão se baseia no poema “Mãos dadas” de Carlos Drummond de Andrade, escrito durante um momento de instabilidade política global e repressão no Brasil. Ela pede que se compreenda como o eu lírico reage a esse contexto histórico.

📌 A pergunta “Em face dessa realidade, o eu lírico…” pede uma interpretação da postura poética diante do presente. Portanto, é preciso observar o posicionamento ideológico e estético do poeta diante do tempo vivido.

🎯 Objetivo cristalino: Identificar como o eu lírico transforma o presente e a realidade concreta em matéria de sua poesia, recusando evasões líricas ou idealizações.

❓ Você percebeu que a questão quer saber como o poeta lida com o mundo real à sua volta, e não com sentimentos subjetivos? Fique atento às palavras que indicam ação e escolha consciente no poema.


Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

🖋️ Carlos Drummond de Andrade e o Modernismo: Poeta da segunda fase do Modernismo (chamada de “fase de engajamento”), marcada por uma maior preocupação social e política. Seus poemas dessa época refletem angústias existenciais, críticas ao individualismo e uma busca de solidariedade diante das crises do mundo.

🧭 Função da poesia nesse contexto: Em vez de fugir para a fantasia, o poeta modernista escolhe o presente, a realidade nua e crua, como matéria de sua criação. Essa poesia não quer “cantar paisagens”, mas agir, alertar, provocar reflexão.

⚖️ Temas do poema: tempo presente, coletividade, recusa à alienação e à evasão poética. Isso aparece claramente em versos como “Não fugirei para ilhas” ou “O presente é tão grande”.

🙋‍♀️ Pode parecer que ele está apenas valorizando o agora, mas o essencial aqui é notar que ele transforma o agora — com todas as suas dores — em poesia solidária e coletiva.


Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto

🛠️ O poeta assume um papel ativo diante da história. Em vez de evadir-se, ele escolhe comprometer-se com o seu tempo. Isso significa transformar os dramas sociais e políticos — guerras, opressões, desigualdades — em tema poético.

🤝 “Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas” é um apelo à união em tempos difíceis. Mostra que, frente ao sofrimento do presente, a resposta poética é a solidariedade, não o isolamento ou o individualismo.

🕰️ Ao afirmar que “o tempo é a minha matéria”, ele transforma o aqui e agora em objeto estético — isto é, faz do presente o tema central da sua arte.

🧭 Assim, a escolha do eu lírico é clara: assumir o presente, com todas as suas dores e contradições, como matéria poética e campo de ação coletiva.


Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

📌 O poeta assume um papel ativo diante da história. Em vez de evadir-se, ele escolhe comprometer-se com o seu tempo. Isso significa transformar os dramas sociais e políticos — guerras, opressões, desigualdades — em tema poético.

📌 “Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas” é um apelo à união em tempos difíceis. Mostra que, frente ao sofrimento do presente, a resposta poética é a solidariedade, não o isolamento ou o individualismo.

📌 Ao afirmar que “o tempo é a minha matéria”, ele transforma o aqui e agora em objeto estético — isto é, faz do presente o tema central da sua arte.

📌 Assim, a escolha do eu lírico é clara: assumir o presente, com todas as suas dores e contradições, como matéria poética e campo de ação coletiva.


Passo 5: Análise das Alternativas (ou Argumentos) e Resolução

A) considera que em sua época o mais importante é a independência dos indivíduos
❌ Incorreta. O poema valoriza o coletivo, a união — não a independência individual.

B) desvaloriza a importância dos planos pessoais na vida em sociedade
❌ Incorreta. Embora ele recuse o individualismo lírico, não se trata de desvalorizar planos pessoais, mas de dar foco ao coletivo e ao presente.

C) reconhece a tendência à autodestruição em uma sociedade oprimida
❌ Incorreta. Não há menção direta à autodestruição. O foco é na resistência, não na desesperança.

D) escolhe a realidade social e seu alcance individual como matéria poética
✅ Correta. O eu lírico deixa claro que sua poesia nasce do tempo presente e das pessoas reais, valorizando o social sem apagar o sujeito.

E) critica o individualismo comum aos românticos e aos excêntricos
❌ Incorreta. Embora haja crítica implícita à evasão romântica, não é esse o foco central da construção poética — e a alternativa exagera ao generalizar.


Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

📌 O poema mostra um eu lírico consciente de seu tempo histórico e engajado com a realidade ao seu redor. Carlos Drummond de Andrade constrói uma poesia que não se refugia em idealizações, mas se alicerça na vida concreta, nas dificuldades e na solidariedade entre os homens. Seu “canto” está voltado à matéria viva do presente.

🔍 Resumo Final: Em vez de fugir do mundo ou idealizar o passado, o eu lírico opta por transformar o presente — com seus desafios e dores — em matéria poética viva e solidária. A alternativa correta é a D, pois expressa com precisão essa escolha consciente do autor pelo tempo e pelos homens presentes.

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