No ano de 1985 aconteceu um acidente muito grave em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, perto da aldeia guarani de Sapukai. Choveu muito e as águas pluviais provocaram deslizamentos de terras das encostas da Serra do Mar, destruindo o Laboratório de Radioecologia da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, construída em 1970 num lugar que os índios tupinambás, há mais de 500 anos, chamavam de Itaorna. O prejuízo foi calculado na época em 8 bilhões de cruzeiros. Os engenheiros responsáveis pela construção da usina nuclear não sabiam que o nome dado pelos índios continha informação sobre a estrutura do solo, minado pelas águas da chuva. Só descobriram que Itaorna, em língua tupinambá, quer dizer ‘pedra podre’, depois do acidente.
FREIRE, J. R. B. Disponível em: www.taquiprati.com.br. Acesso em: 1 ago. 2012 (adaptado).
Considerando-se a história da ocupação na região de Angra dos Reis mencionada no texto, os fenômenos naturais que a atingiram poderiam ter sido previstos e suas consequências minimizadas se
a) o acervo linguístico indígena fosse conhecido e valorizado.
b) as línguas indígenas brasileiras tivessem sido substituídas pela língua geral.
c) o conhecimento acadêmico tivesse sido priorizado pelos engenheiros.
d) a língua tupinambá tivesse palavras adequadas para descrever o solo.
e) o laboratório tivesse sido construído de acordo com as leis ambientais vigentes na época.

Resolução em texto
Matérias Necessárias: Geologia de Encostas, Saberes Tradicionais Indígenas, Engenharia Ambiental
Nível da Questão: Médio (ENEM)
Gabarito: A) o acervo linguístico indígena fosse conhecido e valorizado.
Tema/Objetivo Geral: Destacar como a toponímia indígena (nomes de lugar) carrega informações ambientais cruciais que podem orientar escolhas de engenharia e evitar desastres naturais.
🔹 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
1.1 Retomar o Comando da Questão
📌 “Os fenômenos naturais… poderiam ter sido previstos e suas consequências minimizadas se ____.”
1.2 O que está sendo pedido?
📌 Identificar qual ação faltou aos engenheiros e planejadores para antecipar o risco de deslizamentos e reduzir danos.
1.3 Objetivo Cristalino
📌 Mostrar que a valorização do saber indígena — neste caso, o nome Itaorna (“pedra podre”) — poderia ter sinalizado instabilidade do solo.
1.4 Identificação de Palavras-chave
📌 “Itaorna… quer dizer ‘pedra podre’”, “não sabiam que o nome… continha informação sobre a estrutura do solo”, “deslizamentos de terras”, “minado pelas águas da chuva”.
✔ Pergunta de Atenção
Você percebeu que a toponímia indígena carregava um diagnóstico natural do terreno, capaz de alertar para um solo frágil?
🔹 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
2.1 Geomorfologia e Instabilidade de Encostas
📌 Nos ambientes de encosta, chuvadas intensas saturam o solo, reduzem coesão e podem causar deslizamentos. Solos residuais (resultantes da decomposição de rochas) tendem a se desagregar mais rapidamente, exatamente o que “pedra podre” indica.
2.2 Conhecimentos Tradicionais (TEK)
📌 A Traditional Ecological Knowledge (TEK) dos povos indígenas inclui toponímia que registra percepções ambientais acumuladas: nomes como Itaorna funcionam como mapas de risco.
❓ Dúvida Comum
“Não bastaria seguir normas de engenharia modernas e estudos geotécnicos?”
✔ Mesmo esses estudos se apoiam em levantamentos locais; ignorar os saberes tradicionais elimina indicadores cruciais que enriquecem o diagnóstico.
✔ Pergunta de Atenção
Lembre-se: a topografia tem “memória” nas práticas locais—um nome indígena pode ser tão informativo quanto um laudo técnico.
🔹 Passo 3: Contextualização do Acidente
- Local: Serra do Mar, perto da aldeia guarani de Sapukai.
- Fato: fortes chuvas em 1985 saturaram encostas de solo frágil, destruindo o laboratório.
- Descoberta tardia: Itaorna (“pedra podre”) apontava para um subsolo pouco coeso, sujeito a erosão e deslizamentos.
🔹 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
- Toponímia indígena reflete observações de gerações sobre o ambiente físico.
- O nome Itaorna revela que o solo é “podre” — altamente suscetível à erosão.
- Se esse conhecimento linguístico tivesse sido consultado, os engenheiros teriam identificado o risco geotécnico.
- Assim, poderiam ter optado por outro local ou adotado medidas de contenção (muros de arrimo, drenagem adequada) e alertas locais.
🔹 Passo 5: Resolução e Análise das Alternativas
- A) o acervo linguístico indígena fosse conhecido e valorizado.
- Cenário de coerência: Integrar toponímia e vocabulário indígena aos estudos de risco.
- ✅ Correta! O nome Itaorna dá informação precisa sobre o solo, prevenindo a escolha indevida do local.
- B) as línguas indígenas brasileiras tivessem sido substituídas pela língua geral.
- Quando poderia parecer correta? Se a língua geral facilitasse comunicação moderna.
- ❌ Incorreta. Substituir o saber tradicional apaga informações locais valiosas, agravando o risco.
- C) o conhecimento acadêmico tivesse sido priorizado pelos engenheiros.
- Quando estaria correta? Se faltasse rigor em estudos geotécnicos formais.
- ❌ Incorreta. Mesmo o melhor estudo acadêmico se beneficia de dados locais, como o nome tradicional.
- D) a língua tupinambá tivesse palavras adequadas para descrever o solo.
- Quando poderia ser considerada? Se faltasse um vocabulário especializado.
- ❌ Incorreta. A própria palavra Itaorna já descrevia o solo: “pedra podre” é suficiente.
- E) o laboratório tivesse sido construído de acordo com as leis ambientais vigentes na época.
- Quando estaria correta? Se o problema fosse apenas o descumprimento de normas.
- ❌ Incorreta. Mesmo obedecendo leis, a escolha do local seguiria sem o alerta indígena, mantendo o risco.
🔹 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
6.1 Resumo do Raciocínio
📌 A consulta e valorização da toponímia indígena teriam revelado a instabilidade do solo (Itaorna = “pedra podre”), permitindo evitar deslizamentos ou adotar medidas de contenção.
6.2 Alternativa Correta
✅ A) o acervo linguístico indígena fosse conhecido e valorizado.
6.3 🔍 Resumo Final para Revisão
Integrar saberes tradicionais (nomes, mitos, práticas locais) aos estudos técnicos é essencial para decisões seguras em obras de engenharia, especialmente em áreas de alto risco geomorfológico.