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Questão 121, caderno cinza do ENEM 2011 PPL

Foi sempre um gaúcho quebralhão, e despilchado sempre, por ser muito de mãos abertas. Se numa mesa de primeira ganhava uma ponchada de balastracas, reunia a gurizada da casa, fazia pi! pi! pi! como pra galinhas e semeava as moedas, rindo-se do formigueiro que a miuçada formava, catando as pratas no terreiro. Gostava de sentar um laçaço num cachorro, mas desses laçaços de apanhar da palheta à virilha, e puxado a valer, tanto que o bicho que o tomava, de tanto sentir dor, e lombeando-se, depois de disparar um pouco é que gritava, num caim! caim! caim! de desespero.

LOPES NETO, J. S. Contrabandista. In: SALES, H. (org). Antologia de contos brasileiros. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001 (adaptado).

A língua falada no Brasil apresenta vasta diversidade, que se manifesta de acordo com o lugar, a faixa etária, a classe social, entre outros elementos. No fragmento do texto literário, a variação linguística destaca-se:

A) por inovar na organização das estruturas sintáticas.

B) pelo uso de vocabulário marcadamente regionalista.

C) por distinguir, no diálogo, a origem social dos falantes.

D) por adotar uma grafia típica do padrão culto, na escrita.

E) pelo entrelaçamento de falas de crianças e adultos.

Resolução em Texto

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Linguística (Variação Linguística – Diatópica/Regional)
  • Literatura Brasileira (Regionalismo)
  • Interpretação de Texto

🎯 Tema/Objetivo Geral: Identificação de características da variação linguística regional em um texto literário.

📊 Nível da Questão: Fácil.

  • Por quê? O texto está repleto de termos e expressões que são claramente regionais (“quebralhão”, “despilchado”, “gurizada”, “balastracas”, “lombeando-se”, “laçaço”, “miuçada”, “catando as pratas”). A identificação desses termos como “vocabulário regionalista” é direta.

✅ Gabarito: Alternativa B.

  • Resumo: O fragmento do conto utiliza uma série de palavras e expressões que são típicas da fala da região Sul do Brasil (“gaúcho”), como “quebralhão”, “despilchado”, “ponchada de balastracas”, “gurizada”, “laçaço”, “lombeando-se”. Essa escolha lexical é a marca mais evidente da variação linguística regionalista no texto.

Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

Transcrição Essencial 📌
“No fragmento do texto literário, a variação linguística destaca-se…”

O que está sendo pedido?
A questão pede para identificarmos qual é a principal característica da variação linguística presente no texto. Como a linguagem usada nesse fragmento mostra que ela não é “neutra” ou “universal”, mas sim específica de um lugar ou grupo?

Objetivo Cristalino
Nosso objetivo é ler o texto e encontrar as palavras e construções que “denunciam” a origem regional do personagem e da narrativa.

🧠 Imagine alguém lendo esse texto em voz alta. Você conseguiria adivinhar que a história se passa no Rio Grande do Sul ou que o personagem é gaúcho? Sim! Por quê? Por causa das palavras que ele usa.


Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessário

Definição de Termos 🔖

  • Variação Linguística: É o fenômeno natural pelo qual uma língua se modifica de acordo com diferentes fatores. Existem vários tipos:
    1. Variação Diatópica (Regional): Diferenças na língua de acordo com a região geográfica dos falantes (ex: sotaques, vocabulário).
    2. Variação Diastrática (Social): Diferenças na língua de acordo com a classe social ou grupo social.
    3. Variação Diafásica (Situacional): Diferenças na língua de acordo com a situação de comunicação (formal vs. informal).
    4. Variação Diacrônica (Histórica): Diferenças na língua ao longo do tempo.
  • Regionalismo: É a característica de textos literários que buscam retratar as particularidades (costumes, fala, paisagens) de uma determinada região. A linguagem é uma ferramenta essencial para construir o regionalismo.
  • Vocabulário (Léxico): É o conjunto de palavras de uma língua.

Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

Contextualização Simplificada 💬
A questão nos mostra um trecho de um conto e diz: “A língua muda de lugar para lugar, de grupo para grupo”. Aí ela pergunta: “Nesse texto, como a gente percebe que a língua está ‘mudada’, que ela não é o português ‘neutro’ que a gente vê na televisão?”. A resposta é que o texto está cheio de palavras e expressões que só quem mora ou conhece a região do personagem entenderia de primeira.

Estratégia Geral 🗺️

  1. Ler o texto e sublinhar as palavras que soam “estranhas” ou muito específicas.
  2. Perceber que essas palavras estão ligadas a uma região ou a um grupo cultural específico.
  3. Conectar essa observação com as alternativas.

Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

Passo a Passo Detalhado 👣

  1. Leitura do Texto e Identificação de Termos:
    • gaúcho quebralhão” (já marca a região)
    • despilchado” (gíria regional para desarrumado, sem dinheiro)
    • ponchada de balastracas” (ponchada = punhado; balastracas = moedas de baixo valor, regionalismo)
    • “reunia a gurizada da casa” (gurizada = crianças/adolescentes, regionalismo)
    • “semeava as moedas, rindo-se do formigueiro que a miuçada formava, catando as pratas no terreiro” (linguagem muito coloquial e imagética, com alguns regionalismos como “miuçada” para miúdos/crianças)
    • “sentar um laçaço num cachorro” (laçaço = golpe com laço ou relho, regionalismo)
    • “da palheta à virilha” (partes específicas do corpo animal)
    • lombeando-se” (arqueando-se, dobrando o lombo, regionalismo)
    • caim! caim! caim!” (onomatopeia para o latido/choro de cachorro, regionalismo)
  2. Classificação dos Termos: A maioria dos termos sublinhados são regionalismos, palavras e expressões típicas da região Sul do Brasil, onde o personagem “gaúcho” vive.
  3. Conclusão sobre a Variação Linguística: A presença marcante desse vocabulário regionalista é a forma mais evidente de variação linguística no fragmento.

Procuramos a alternativa que aponte o uso de palavras de uma região específica.


Passo 5: Análise das Alternativas

🔴 A) por inovar na organização das estruturas sintáticas.
Incorreta. A sintaxe é relativamente simples e direta, sem grandes inovações formais.

🟢 B) pelo uso de vocabulário marcadamente regionalista.
Correta. A presença de termos como “quebralhão”, “despilchado”, “gurizada”, “balastracas”, “laçaço” e “lombeando-se” é uma forte marca regional.

🔴 C) por distinguir, no diálogo, a origem social dos falantes.
Incorreta. Não há diálogo no fragmento. A descrição é feita pelo narrador e se refere a um único personagem principal.

🔴 D) por adotar uma grafia típica do padrão culto, na escrita.
Incorreta. A grafia é a padrão, mas o vocabulário não é típico do padrão culto no sentido de ser erudito ou universal. Pelo contrário, é específico.

🔴 E) pelo entrelaçamento de falas de crianças e adultos.
Incorreta. Não há diálogo entre crianças e adultos, apenas uma descrição.


Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

Resumo do Raciocínio 📝
O fragmento do conto de Simões Lopes Neto é um exemplo clássico de regionalismo na literatura brasileira. A língua falada por seu narrador e que descreve o personagem “gaúcho quebralhão” é rica em vocabulário e expressões típicas do Sul do Brasil. Termos como “despilchado”, “balastracas”, “gurizada”, “laçaço” e “lombeando-se” são claros indícios dessa variação linguística diatópica (regional). Essa escolha lexical contribui para a ambientação da narrativa e para a construção da identidade do personagem.

Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a B.

Resumo Final para Revisão
Lembre-se: quando um texto literário quer nos transportar para uma região específica, ele usa a linguagem dessa região. O vocabulário regionalista é a forma mais direta de marcar essa variação diatópica.

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