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Questão 12, caderno azul do ENEM 2023 – DIA 1

Ainda daquela vez pude constatar a bizarrice dos costumes que constituíam as leis mais ou menos constantes do seu mundo: ao me aproximar, verifiquei que o Sr. Timóteo, gordo e suado, trajava um vestido de franjas e lantejoulas que pertencera a sua mãe. O corpete descia-lhe excessivamente justo na cintura, e aqui e ali rebentava através da costura um pouco da carne aprisionada, esgarçando a fazenda e tornando o prazer de vestir-se daquele modo uma autêntica espécie de suplício. Movia-se ele com lentidão, meneando todas as suas franjas e abanando-se vigorosamente com um desses leques de madeira de sândalo, o que o envolvia numa enjoativa onda de perfume. Não sei direito o que colocara sobre a cabeça, assemelhava-se mais a um turbante ou a um chapéu sem abas de onde saiam vigorosas mechas de cabelos alourados. Como era costume seu também, trazia o rosto pintado — e para isto, bem como para suas vestimentas, apoderara-se de todo o guarda-roupa deixado por sua mãe, também em sua época famosa pela extravagância com que se vestia — o que sem dúvida fazia sobressair-lhe o nariz enorme, tão característico da família Meneses.

CARDOSO, L. Crónica da casa assassinada. São Paulo: Circulo do Livro, s.d.

Pela voz de uma empregada da casa, a descrição de um dos membros da família exemplifica a renovação da ficção urbana nos anos 1950, aqui observada na

a) opção por termos e expressões de sentido ambíguo.

b) crítica social inspirada pelo convívio com os patrões.

c) descrição impressionista do fetiche do personagem.

d) presença de um foco narrativo de caráter impreciso.

e) ambiência de mistério das relações entre familiares.

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Interpretação de Texto Literário
    • Literatura Brasileira (Modernismo de 2ª Geração / Ficção dos anos 1950)
    • Teoria Literária (Foco Narrativo, Estilos de Época)
  • Tema/Objetivo Geral: Identificar as características da prosa modernista brasileira de meados do século XX, que se aprofunda na psicologia dos personagens por meio de descrições subjetivas e sensoriais.
  • Nível da Questão: Difícil.
    • Justificativa: A questão é difícil porque exige um conhecimento específico de teoria e história literária. O candidato precisa não apenas interpretar a cena, mas também reconhecer nela as características de um estilo literário particular (“descrição impressionista”) e conectá-la a um tema psicológico (“fetiche”), que era uma novidade na ficção da época.
  • Gabarito: C) descrição impressionista do fetiche do personagem.
    • Explicação Resumida: A alternativa está correta porque a narradora não descreve o Sr. Timóteo de forma objetiva, mas sim através de uma série de impressões sensoriais (a carne esgarçada, a onda de perfume, o brilho das lantejoulas), que servem para pintar um retrato não de quem ele é, mas da sua obsessão (o “fetiche”) com as roupas e a identidade da mãe.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Em bom português, a missão é a seguinte: o texto descreve, pelos olhos de uma empregada, uma cena bizarra: o patrão, Sr. Timóteo, vestido de mulher. A questão nos informa que esse jeito de escrever era uma “renovação” na literatura da época. Nossa tarefa é identificar qual das alternativas descreve precisamente esse “jeito novo” de narrar.

Simplificando, imagine duas formas de descrever um personagem triste. A forma antiga: “João estava triste”. A forma “renovada”: “A chuva lá fora parecia espelhar a garoa fina que caía dentro de João, e o cinza da rua era da mesma cor de sua alma”. A segunda forma não diz que ele está triste, ela pinta a tristeza com sensações e imagens. A nossa tarefa é descobrir qual “técnica de pintura” o texto de Lúcio Cardoso utiliza.

Roteiro da Investigação (O Plano de Ataque): Para resolver este enigma, nosso plano será metódico e preciso:

  • 1. Analisar a Cena Descrita: O que exatamente a narradora vê?
  • 2. Analisar Como a Cena é Descrita: Qual é o foco da narração? Fatos objetivos ou sensações e impressões?
  • 3. Conectar a Técnica ao Contexto Literário: Vamos entender por que essa técnica era considerada uma “renovação” na ficção urbana dos anos 1950.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

A ferramenta essencial para este caso é a distinção entre Descrição Objetiva e Descrição Impressionista.

  • Descrição Objetiva (Estilo Realista/Tradicional):
    • Foco: Nos fatos, como um relatório. “O Sr. Timóteo vestia um vestido de sua mãe.”
    • Função: Informar o leitor de maneira clara e direta.
  • Descrição Impressionista (Estilo Modernista/Psicológico):
    • Foco: Nas sensações, percepções e no impacto que a cena causa em quem observa (ou em quem vive). A narração se concentra na luz, na cor, no cheiro, na textura, nas emoções.
    • Função: Transmitir a atmosfera e a psicologia da cena, em vez de apenas os fatos.

Vamos agora aplicar essa ferramenta ao texto. A narradora nos informa o fato (Timóteo está de vestido), mas ela gasta a maior parte do tempo descrevendo impressões: “gordo e suado“, “carne aprisionadaesgarçando a fazenda”, “prazer […] suplício“, “enjoativa onda de perfume“, “vigorosas mechas de cabelos alourados“, “rosto pintado“. Isso é puro impressionismo. Ela está pintando um quadro com palavras.

O que esse quadro revela? Um homem em uma relação complexa e obsessiva com as roupas de sua mãe, um misto de prazer e dor. O nome disso, em psicologia, é fetiche.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

A execução do nosso plano nos leva a entender por que isso era uma “renovação”. A ficção brasileira anterior aos modernistas (e mesmo a muitos da primeira fase) estava mais preocupada com os grandes painéis sociais, com a crítica de costumes de forma mais externa.

A renovação dos anos 1930, 40 e 50, com autores como Lúcio Cardoso, Clarice Lispector e outros, foi um mergulho para dentro da mente dos personagens. A cidade não era mais apenas o cenário de problemas sociais, mas o palco de dramas psicológicos complexos, de angústias, de desejos reprimidos, de “bizarrice dos costumes” no nível individual.

O texto é um exemplo perfeito disso. Em vez de nos dar um tratado sociológico sobre a decadência de uma família mineira, o autor nos joga dentro de uma cena sensorialmente rica e psicologicamente perturbadora. Ele não explica o fetiche de Timóteo; ele o mostra através das impressões da narradora. Essa técnica de “mostrar em vez de contar”, focando no fluxo de sensações e na psicologia profunda, era a vanguarda da ficção da época.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (B) “crítica social inspirada pelo convívio com os patrões”. O erro é um reducionismo. O texto pode conter uma crítica social à decadência da elite patriarcal, mas essa crítica é secundária e implícita. O foco explícito, a técnica que salta aos olhos e que caracteriza a “renovação” literária, é a forma como o autor mergulha na psicologia doentia do personagem. A alternativa (B) descreve o que um romancista do século XIX poderia fazer; a (C) descreve o que um modernista inovador dos anos 50 fez.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação revela que o texto utiliza uma técnica descritiva que privilegia as sensações e percepções subjetivas da narradora para construir um retrato vívido da obsessão psicológica de um personagem.
    • Expectativa: A alternativa correta deve nomear essa técnica (impressionismo) e o objeto de sua análise (o fetiche).

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Com nosso perfil da técnica narrativa em mãos, vamos interrogar os suspeitos.

a) opção por termos e expressões de sentido ambíguo.
O erro é Contradição Direta. A descrição é chocantemente precisa e sensorial, não ambígua. Sabemos exatamente o que a narradora está vendo e sentindo.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

b) crítica social inspirada pelo convívio com os patrões.
Esta é a armadilha que desarmamos. O foco principal não é a crítica social externa, mas a exploração psicológica interna.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

c) descrição impressionista do fetiche do personagem.
Análise de Correspondência: Esta alternativa é o alvo. “Descrição impressionista” (foco nas sensações, cores, cheiros) do “fetiche do personagem” (a obsessão pelas roupas da mãe, a mistura de prazer e suplício). A descrição da técnica e do tema é perfeita.
Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

d) presença de um foco narrativo de caráter impreciso.
O erro é Contradição Direta. O foco narrativo é muito preciso: é o olhar da empregada, que relata o que vê com riqueza de detalhes.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

e) ambiência de mistério das relações entre familiares.
O erro é Foco Incorreto. A cena não cria um “mistério” (algo a ser desvendado), mas expõe um “estranhamento”, uma perversão. Não é um “quem matou?”, mas um “o que está acontecendo com essa gente?”. O foco é psicológico, não de suspense.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.


5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Confirmamos que a alternativa C é a correta. O trecho de “Crônica da Casa Assassinada” é um exemplo primoroso da renovação da ficção urbana nos anos 1950, que se manifesta na utilização de uma descrição impressionista para explorar a psicologia complexa e o fetiche de seus personagens.

  • Resumo-flash (A Imagem Mental): O autor não nos entrega a ficha psiquiátrica de Timóteo; ele nos faz sentir o aperto do vestido e o cheiro enjoativo do perfume, para que nós mesmos possamos fazer o diagnóstico.
  • 🧠 Para ir Além (Ponte para o Futuro): O mesmo princípio da “descrição impressionista” para revelar um estado interior é uma técnica fundamental no Cinema, especialmente no trabalho de diretores de fotografia. Quando um cineasta quer mostrar a angústia de um personagem, ele pode não focar no diálogo. Em vez disso, ele usa a câmera lenta, uma lente desfocada, cores saturadas, um som ambiente distorcido. Ele cria uma “descrição impressionista” audiovisual. O que Lúcio Cardoso faz com as palavras para nos mostrar o fetiche de Timóteo, um diretor de cinema como Wong Kar-wai faz com a imagem e o som para nos mostrar a melancolia de seus personagens. A técnica de pintar emoções com sensações transcende a literatura e é uma linguagem universal da arte.

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