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Questão 12, caderno azul do ENEM 2020 DIGITAL

Ponto morto

A minha primeira mulher

se divorciou do terceiro marido.

A minha segunda mulher

acabou casando com a melhor amiga dela.

A terceira (seria a quarta?)

detesta os filhos do meu primeiro casamento.

Estes, por sua vez, não suportam os filhos

do terceiro casamento da minha primeira mulher.

Confesso que guardo afeto pelas minhas ex-sogras.

Estava sozinho

quando um dos meus filhos acenou para mim no

meio do engarrafamento.

A memória demorou para engatar seu nome.

Por segundos, a vida parou em ponto morto.

MASSI, A. A vida errada. Rio de Janeiro: 7Letras, 2001.

No poema, a singularidade da situação representada é efeito da correlação entre

A) a dissipação das identidades e a circulação de sujeitos anônimos.

B) as relações familiares e a dinâmica da vida no espaço urbano.

C) a constatação da incomunicabilidade e a solidão humana.

D) o trânsito caótico e o impedimento à expressão afetiva.

E) os lugares de parentesco e o estranhamento social.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
Interpretação de Texto Poético, Literatura Contemporânea, Análise de Linguagem Figurada (Metáfora).

Tema/Objetivo Geral:
Análise de como um poema utiliza a correlação entre um cenário urbano (engarrafamento) e uma situação pessoal (relações familiares complexas) para construir seu sentido e expressar um sentimento de paralisação e confusão.

Nível da Questão
Médio – A questão exige que o aluno perceba a analogia central do poema, que conecta a complexidade dos laços familiares modernos com o caos do trânsito urbano. Não é uma leitura literal. É preciso interpretar a cena final do engarrafamento como uma metáfora para o estado emocional e relacional do eu lírico, o que demanda uma capacidade de leitura mais aprofundada.

Gabarito
A alternativa B está correta. O poema constrói sua singularidade ao entrelaçar a descrição de uma rede de relações familiares fragmentadas e complexas com a imagem final do engarrafamento, um símbolo da dinâmica caótica e impessoal da vida urbana moderna.


Resolução Passo a Passo

🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

Transcrição Essencial
“No poema, a singularidade da situação representada é efeito da correlação entre”

O que está sendo pedido?
A questão quer saber qual é a “fórmula” que o poeta usou para criar o efeito principal do poema. Quais são os dois elementos que ele juntou, que ele “correlacionou”, para expressar a sensação de estar em “ponto morto”?

Objetivo Cristalino
Nosso objetivo é identificar os dois grandes temas que o poema mistura para criar sua mensagem: um tema pessoal (a vida do eu lírico) e um tema social (o cenário onde essa vida acontece).

Pergunta de Atenção
Você já se sentiu “travado” na vida, como um carro preso num engarrafamento? O poema está usando essa imagem do trânsito para falar de um “engarrafamento” emocional e familiar. Como esses dois “trânsitos” se conectam?


📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

Para entender o poema, precisamos de alguns conceitos de análise literária.

Conceito Definição Simplificada Exemplo do Cotidiano
Eu Lírico É a “voz” que fala no poema. Não deve ser confundido com o autor (a pessoa real). É um personagem criado pelo autor para expressar sentimentos, ideias e reflexões. Quando um cantor canta “Eu sofri muito por você”, o “eu” é o eu lírico da canção, que pode ou não ser a experiência real do compositor.
Analogia / Metáfora É uma figura de linguagem que estabelece uma relação de semelhança entre duas coisas de universos diferentes. O poema inteiro é construído sobre a analogia entre as relações familiares confusas e um engarrafamento. Dizer que “navegar na internet é como viajar pelo mundo” é uma analogia. O poema sugere que “viver essas relações familiares é como estar preso num engarrafamento”.
“Ponto Morto” (Sentido Literal e Figurado) Literal: Em um carro, é a posição da marcha em que o motor está desengatado da transmissão. O carro está parado, mas o motor está ligado. É um estado de suspensão. <br> Figurado: É um estado de paralisia emocional, mental ou existencial. A pessoa se sente travada, confusa, sem saber para onde ir. O poema usa o sentido literal para simbolizar o sentido figurado. Ficar indeciso sobre qual curso fazer na faculdade pode te deixar em um “ponto morto” na vida: você está ali, vivo, mas sem conseguir avançar.

📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

Contextualização Simplificada
O poema nos apresenta um personagem com uma vida familiar que é um verdadeiro nó: ex-mulheres casando de novo, filhos de vários casamentos que não se gostam, e ele no meio de tudo isso. No final, ele está sozinho, preso num engarrafamento, e demora para reconhecer o próprio filho. Esse momento de paralisia no trânsito e na memória é o “ponto morto”. A questão é: quais são as duas coisas que o poema está ligando para criar essa sensação?

Estratégia Geral
Vamos identificar os dois principais campos temáticos do poema: o campo das relações pessoais e o campo do cenário urbano. A resposta correta será a que descrever a conexão entre esses dois campos.


 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

Passo a Passo Detalhado

  • Análise do Primeiro Campo Temático: As Relações Familiares
    • O poema começa com uma longa e confusa descrição da “teia” familiar do eu lírico: “primeira mulher se divorciou do terceiro marido”, “segunda mulher casou com a melhor amiga”, “filhos do meu primeiro casamento não suportam os filhos do terceiro casamento da minha primeira mulher”.
    • Conclusão: O poema retrata a fragmentação e a complexidade dos laços familiares na contemporaneidade. Não há mais um modelo único de família, mas uma rede de conexões confusas e, por vezes, distantes.
  • Análise do Segundo Campo Temático: O Espaço Urbano
    • A cena final e culminante do poema acontece “no meio do engarrafamento“.
    • O engarrafamento é um símbolo poderoso da vida urbana moderna: o caos, a impessoalidade, a paralisia, a pressa que não leva a lugar nenhum, o isolamento (cada um em seu carro, sozinho).
    • Conclusão: O poema utiliza um elemento da dinâmica da vida urbana como cenário para o clímax emocional.
  • A Correlação: O poema é genial ao usar o segundo tema para metaforizar o primeiro. O “engarrafamento” no trânsito espelha o “engarrafamento” na vida do eu lírico. Ele está fisicamente parado no trânsito e, ao mesmo tempo, emocionalmente parado, a ponto de sua memória “demorar para engatar”. A vida parou em “ponto morto” nos dois sentidos.

Verificação Intermediária
A “singularidade da situação” vem exatamente dessa fusão perfeita entre o drama interno (a confusão familiar) e a cena externa (o caos urbano).

Possível armadilha
A armadilha poderia ser a alternativa E. Ela fala em “estranhamento social”, o que é correto (ele demora a reconhecer o filho). No entanto, a alternativa B é mais completa, pois “dinâmica da vida no espaço urbano” (o engarrafamento) é uma descrição mais precisa do cenário que provoca e simboliza esse estranhamento, e “relações familiares” é o tema central que está sendo metaforizado.

Fechamento e expectativa
O raciocínio mostra que o poema correlaciona a confusão das relações familiares com a paralisia da vida na cidade. A alternativa correta deve expressar essa conexão.


✅ Passo 5: Análise das Alternativas

  • (🔴) A: Esta alternativa está incorreta. As identidades não estão “dissipadas”, elas são bem definidas (primeira mulher, segundo filho, etc.), o problema é a complexidade de suas inter-relações.
  • (🟢) B: Esta alternativa é a correta. Ela identifica com precisão os dois polos que o poema correlaciona: o mundo das “relações familiares” (a teia de casamentos e filhos) e a “dinâmica da vida no espaço urbano” (o engarrafamento que serve de metáfora para a paralisia existencial).
  • (🔴) C: Esta alternativa está incorreta. A solidão é uma consequência, mas o poema não foca na “incomunicabilidade” de forma geral, e sim na confusão de laços que ainda existem, mesmo que de forma conturbada.
  • (🔴) D: Esta alternativa está incorreta. O trânsito não “impede a expressão afetiva”; ele funciona como um símbolo do estado de confusão interna do eu lírico, que é o que dificulta o reconhecimento e a afetuosidade.
  • (🔴) E: Esta alternativa é menos precisa que a B. “Lugares de parentesco” é uma expressão vaga, e “estranhamento social” descreve apenas uma parte do efeito final, sem explicar a correlação que o gera.

🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

Resumo do Raciocínio
O poema “Ponto Morto” constrói seu sentido a partir de uma poderosa analogia entre a vida pessoal do eu lírico e o cenário urbano. A descrição da rede complexa e fragmentada de suas relações familiares é espelhada e sintetizada na cena final de um engarrafamento, um símbolo da paralisia e da impessoalidade da vida moderna. É a correlação entre esses dois universos que produz a sensação de suspensão e estranhamento expressa no título.

Gabarito Reafirmado
A alternativa correta é a B.

Resumo Final para Revisão 🔍
Em poesia contemporânea, o cenário urbano (o trânsito, o prédio, a rua) raramente é apenas um fundo. Quase sempre, ele funciona como um espelho ou uma metáfora para o estado emocional do eu lírico.

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