Questão 118 caderno cinza ENEM 2014 terceira aplicação 2° Dia

Os mesmos objetivos que a teatróloga Spolin propõe para o espetáculo são válidos em cada momento durante o processo de aprendizagem, onde o teatro, enquanto manifestação viva e espontânea, deve estar presente em todos os momentos. Da mesma forma como a plateia de espectadores é normalmente pouco estimulada por emoções que pertencem ao passado, o jogador no palco não explora a si mesmo (suas emoções) através de um processo de identificação subjetivo, mas atua em função do momento presente.

KOUDELA, I. D. Jogos teatrais. São Paulo: Perspectiva, 2006

O jogo teatral permite a liberdade de ação e o estabelecimento de contato com o ambiente e a ação espontânea se desenvolve de forma a

A) ocultar a atuação do ator, dispensando a renovação das emoções, que são desestimulantes.

B) estimular a lembrança de momentos passados para salientar a importância das novas emoções.

C) entender os processos que se desenvolvem no palco com a exploração dos seus próprios sentimentos.

D) experienciar emoções novas, que surgem no presente, sem a exploração das velhas emoções do ator.

E) vivenciar alguns momentos, que Spolin acredita serem pertencentes ao processo subjetivo do ator.   

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Interpretação de Texto e Análise de Discurso
  • Teoria Teatral (conceitos de Viola Spolin sobre Jogo e Espontaneidade)
  • Léxico e Inferência

Tema/Objetivo Geral: Compreender e aplicar o conceito de “jogo teatral” de Viola Spolin, especificamente a distinção entre atuar a partir da memória emotiva e atuar em função do presente.

Nível da Questão: Difícil.

  • Justificativa: O texto utiliza uma linguagem especializada e abstrata (“processo de identificação subjetivo”, “manifestação viva e espontânea”). Exige do candidato não apenas a interpretação literal, mas a capacidade de inferir uma filosofia de atuação complexa a partir de poucas linhas. Os distratores são fortes porque tocam em conceitos que parecem corretos fora do contexto específico da teoria de Spolin.

Gabarito: D) experienciar emoções novas, que surgem no presente, sem a exploração das velhas emoções do ator.

  • Explicação Resumida: Esta é a única alternativa que captura a essência da proposta do texto: a atuação deve ser uma reação espontânea ao “momento presente”, gerando emoções novas, em oposição direta à técnica de reviver emoções do passado.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: Em bom português, a questão nos desafia a entender uma filosofia de atuação específica descrita no texto. A missão é: “De acordo com a teoria de Viola Spolin, qual é o objetivo ou a consequência de um ator que joga em cena com liberdade e espontaneidade?”.

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine dois tipos de cozinheiros. O Cozinheiro-Memorialista segue uma receita antiga da avó à risca, tentando recriar exatamente o sabor do passado. O Cozinheiro-Explorador, por sua vez, entra na cozinha, olha os ingredientes frescos que tem disponíveis hoje e, a partir deles, cria um prato novo e espontâneo. O texto critica o primeiro método e elogia o segundo. Nossa tarefa é encontrar a alternativa que descreve o que o Cozinheiro-Explorador faz.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Identificar o Método Criticado: Primeiro, vamos isolar no texto a descrição do que um ator não deve fazer.
  • Identificar o Método Proposto: Em seguida, vamos encontrar a descrição do que o ator deve fazer.
  • Construir o Perfil da Atuação Ideal: A partir da oposição entre os dois métodos, vamos construir um “retrato falado” da ação espontânea, que nos guiará até a alternativa correta.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Antes de analisar o conflito de ideias, precisamos saber quem é a “teatróloga Spolin”. Abrir um dossiê sobre ela nos dará o contexto fundamental para decifrar a questão.

  • 🕵️‍♂️ DOSSIÊ DE INVESTIGAÇÃO: VIOLA SPOLIN E O JOGO TEATRAL 🕵️‍♂️
    • Identidade: Viola Spolin (1906-1994) foi uma diretora e pedagoga teatral americana, considerada uma das figuras mais importantes do teatro do século XX e a grande “mãe do teatro de improviso”.
    • A Grande Invenção: Os “Jogos Teatrais” (Theater Games)
      • Spolin acreditava que atuar não deveria ser um processo intelectualizado ou baseado em sofrimento psicológico. Para ela, o ator deveria ser um “jogador” (player).
      • Ela criou centenas de jogos e exercícios que tinham um objetivo simples: colocar o ator em estado de espontaneidade.
      • A filosofia central é que o ator deve parar de tentar atuar e simplesmente jogar. O foco deve estar em resolver um “problema” proposto pelo jogo, no aqui e agora. A emoção, a personagem e a cena surgem naturalmente como um resultado do jogo, e não como algo planejado ou buscado no passado.

Com este contexto em mente, a oposição de ideias no texto fica muito mais clara. Vamos usar nossa Tabela Comparativa para visualizar o conflito.

  • 🛠️ Tabela Comparativa: Duas Filosofias de Atuação 🛠️
O Teatro de “Memória Emotiva” (O Passado) O Jogo Teatral de Spolin (O Presente)
O que é? Uma abordagem em que o ator busca dentro de si emoções e memórias passadas para construir a personagem. É um processo de “dentro para fora”. O que é? Uma abordagem em que o ator foca na interação com o ambiente e com os outros jogadores no aqui e agora. A emoção é uma consequência do jogo, não sua origem. É um processo de “fora para dentro”.
Palavras-Chave no Texto: “emoções que pertencem ao passado”, “processo de identificação subjetivo”. Palavras-Chave no Texto: “manifestação viva e espontânea”, “atua em função do momento presente”.
Foco: O Passado do ator. Foco: O Presente da cena.
Diagnóstico do Texto: Abordagem criticada e vista como limitante, que não estimula a renovação. Diagnóstico do Texto: Abordagem proposta e valorizada como libertadora e criativa.

3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Agora, vamos executar nosso plano, construindo a lógica da resposta através de um Fluxograma de Raciocínio.

Fluxograma da Dedução Teatral: Do Problema à Solução

Ponto de Partida: A Premissa Negativa do Texto

  • O texto estabelece o que o “jogador” (ator) de Spolin NÃO faz. Ele “não explora a si mesmo (suas emoções) através de um processo de identificação subjetivo”.
  • Decodificação: A palavra-chave aqui é “identificação subjetiva”. No contexto, ela está ligada a “emoções que pertencem ao passado”. Portanto, o ator não deve cavar seu passado emocional para usar em cena.

A Virada Argumentativa: A Premissa Positiva

  • O texto então oferece a alternativa. Em vez de fazer o que foi descrito acima, o jogador “mas atua em função do momento presente“.
  • Decodificação: Esta é a pista de ouro. Toda a filosofia se baseia no aqui e agora. A energia, a ação e a emoção devem nascer da situação cênica atual, não de uma memória.

A Consequência Lógica: O Que Acontece com as Emoções?

  • Se um ator está proibido de usar suas “velhas emoções” (do passado) e é obrigado a atuar com base no “presente”…
  • …a única conclusão possível é que as emoções que surgirão em cena serão, por definição, NOVAS. Elas não são importadas do passado, mas sim experienciadas pela primeira vez como resultado direto do jogo que está acontecendo.

A Síntese da Ação Espontânea

  • Portanto, a “ação espontânea” se desenvolve de forma a permitir que o ator experiencie e descubra emoções inéditas, que nascem da interação com o ambiente e com os outros, no presente. O objetivo não é reproduzir um sentimento, mas descobrir um.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha aqui é a visão romantizada do “ator que sofre de verdade”, que é muito comum no cinema. Muitos acreditam que atuar bem é reviver traumas passados. O texto de Spolin propõe exatamente o contrário! Ele critica essa abordagem como não sendo “viva” ou “espontânea”. O erro é trazer essa noção pré-concebida para a interpretação e ser atraído por alternativas que falam de sentimentos passados ou subjetivos (como as alternativas B, C e E).

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação revela que a filosofia de Spolin é baseada em uma oposição fundamental: rejeita-se o uso de emoções passadas (memória) em favor de uma atuação focada no presente, que por sua vez gera emoções novas e espontâneas (descoberta).
    • Expectativa: A alternativa correta deve, obrigatoriamente, mencionar a experiência de emoções novas que surgem no presente, e idealmente, contrastar isso com as emoções antigas.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos submeter cada suspeito à nossa Bússola.

  • Alternativa A: ocultar a atuação do ator, dispensando a renovação das emoções, que são desestimulantes.
    • A “Narrativa do Erro”: Uma leitura apressada que confunde “não usar emoções antigas” com “não usar emoção nenhuma”.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto fala de uma manifestação “viva”, que é o oposto de “ocultar”. E o objetivo é justamente a “renovação” das emoções, não sua dispensa.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • Alternativa B: estimular a lembrança de momentos passados para salientar a importância das novas emoções.
    • A “Narrativa do Erro”: O leitor vê “novas emoções” e acha que a alternativa está no caminho certo.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. A primeira parte, “estimular a lembrança de momentos passados”, é exatamente o método que o texto critica. É a armadilha em sua forma mais clara.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • Alternativa C: entender os processos que se desenvolvem no palco com a exploração dos seus próprios sentimentos.
    • A “Narrativa do Erro”: Parece uma descrição genérica e plausível de atuação.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Foco Impreciso. Esta é uma distratora forte. Embora o ator explore sentimentos, a alternativa não especifica a principal diretriz de Spolin: a origem desses sentimentos. “Seus próprios sentimentos” é vago e pode facilmente ser interpretado como os sentimentos pré-existentes, do passado, o que o texto rejeita. A B é muito mais precisa.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • Alternativa D: experienciar emoções novas, que surgem no presente, sem a exploração das velhas emoções do ator.
    • Análise de Correspondência: Esta é a imagem espelhada da nossa Bússola. Ela acerta em todos os pontos: “experienciar emoções novas” (o resultado) “que surgem no presente” (a condição) “sem a exploração das velhas emoções” (a negação do método criticado). É uma descrição perfeita e completa.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • Alternativa E: vivenciar alguns momentos, que Spolin acredita serem pertencentes ao processo subjetivo do ator.
    • A “Narrativa do Erro”: O leitor foca na palavra “vivenciar” e a associa à ideia de teatro “vivo”.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto afirma explicitamente que o jogador atua sem um “processo de identificação subjetivo”. A alternativa afirma o exato oposto.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

  • Frase de Fechamento: Fica provado que a alternativa D é a correta, pois ela captura a revolução proposta por Spolin: a emoção em cena não deve ser uma arqueologia do passado, mas uma descoberta espontânea no presente.
  • Resumo-flash (A Imagem Mental): O ator não é um arqueólogo de emoções passadas, mas um explorador de emoções presentes.
  • 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): A filosofia de “agir no presente” de Viola Spolin é a base do Teatro de Improviso moderno (o famoso “Improviso”). Grupos como “Os Barbixas” no Brasil ou o programa “Whose Line Is It Anyway?” são herdeiros diretos dessa ideia. A regra número um do improviso é o “Sim, e…”, que força os atores a aceitarem o que acontece no momento presente e a construírem a partir dali, em vez de negarem a realidade da cena para forçar uma ideia pré-concebida. O foco no presente não é apenas uma técnica teatral; é a essência do humor e da criatividade do improviso.

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