Soneto
Já da morte o palor me cobre o rosto,
Nos lábios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meu ser mortal desgosto!
Do leito embalde no macio encosto
Tento o sono reter!… já esmorece
O corpo exausto que o repouso esquece…
Eis o estado em que a mágoa me tem posto!
O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade.
Dá-me a esperança com que o ser mantive!
Volve ao amante os olhos por piedade,
Olhos por quem viveu quem já não vive!
AZEVEDO, A. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000.
O núcleo temático do soneto citado é típico da segunda geração romântica, porém configura um lirismo que o projeta para além desse momento específico. O fundamento desse lirismo é
A) a angústia alimentada pela constatação da irreversibilidade da morte.
B) a melancolia que frustra a possibilidade de reação diante da perda.
C) o descontrole das emoções provocado pela autopiedade.
D) o desejo de morrer como alívio para a desilusão amorosa.
E) o gosto pela escuridão como solução para o sofrimento.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão: Literatura Brasileira (Romantismo – Segunda Geração), Análise Poética, Interpretação de Texto, Figuras de Linguagem.
Tema/Objetivo Geral: Análise do Lirismo e do Núcleo Temático em um Soneto da Segunda Geração Romântica.
Nível da Questão: Médio. Esta questão é considerada de nível médio porque, embora o tema do sofrimento amoroso e o desejo de morte sejam típicos do Romantismo, o desafio está em identificar o fundamento desse lirismo, ou seja, a causa ou a natureza mais profunda da emoção que perpassa o poema. Requer uma análise detalhada dos versos para ir além da superfície da angústia e compreender a incapacidade de reação do eu lírico diante da perda.
Gabarito: Alternativa B. O lirismo do soneto é fundamentado na melancolia profunda que paralisa o eu lírico, tornando-o incapaz de reagir à dor da perda amorosa e o empurrando para um estado de desespero e inércia.
Resolução Passo a Passo
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
- Transcrição Essencial: “O núcleo temático do soneto citado é típico da segunda geração romântica, porém configura um lirismo que o projeta para além desse momento específico. O fundamento desse lirismo é”
- O que está sendo pedido? A questão nos pede para identificar a essência, a base ou a razão mais profunda (“fundamento”) do lirismo presente no soneto, que, embora seja característico da segunda geração romântica, transcende esse período.
- Objetivo Cristalino: Nosso objetivo é analisar as emoções e o estado de espírito do eu lírico no poema para determinar qual das alternativas melhor descreve a natureza central de seu sofrimento e a forma como ele o vivencia, conectando-o com o conceito de lirismo romântico.
- Pergunta de Atenção: Você consegue identificar a causa do sofrimento do eu lírico e como ele reage (ou não reage) a essa causa ao longo do poema?
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
| Termo | Classificação | Explicação Simples | Exemplo do Cotidiano |
| Núcleo Temático | Análise Poética | É a ideia principal, o assunto central ou a mensagem fundamental que o poema transmite. É o que o poema está realmente falando sobre, por trás das imagens e sentimentos. | Em um poema sobre a natureza, o núcleo temático pode ser a beleza do pôr do sol ou a efemeridade da vida. Neste soneto, o sofrimento amoroso e o desejo de morte são parte do núcleo. |
| Lirismo | Gênero/Estilo Poético | Refere-se à expressão de sentimentos, emoções e impressões pessoais do eu lírico (a voz que fala no poema). É a subjetividade e a intensidade emocional que caracterizam a poesia. | Um poema que fala abertamente da alegria de amar, da tristeza de uma perda ou da admiração por algo. |
| Segunda Geração Romântica ( Ultrarromantismo/Malgueirismo) | Movimento Literário | Também conhecida como “Mal do Século”, essa fase do Romantismo no Brasil (meados do século XIX) é marcada por um pessimismo profundo, tédio existencial, desilusão amorosa, egocentrismo, desejo de morte, idealização da mulher, evasão (para o sonho, o passado, a morte). O “eu” sofre intensamente. | Poemas que falam muito de amor não correspondido, de sofrimento, da vontade de morrer como fuga da realidade, da solidão. Álvares de Azevedo é um grande representante. |
| Melancolia | Estado Emocional | É um estado de tristeza profunda e persistente, geralmente acompanhado de desânimo, falta de energia, introspecção e uma sensação de vazio ou desesperança. Não é apenas uma tristeza passageira, mas um estado de espírito mais duradouro e que incapacita. | Sentir-se profundamente triste e sem vontade de fazer nada por vários dias, pensando muito naquilo que te aflige e sem encontrar prazer nas coisas. |
| Perda (Amorosa) | Contexto Temático | No Romantismo, refere-se à dor causada pelo fim de um relacionamento, pela impossibilidade de amar, pela desilusão com o ideal amoroso ou pela ausência da pessoa amada. É o gatilho para muito do sofrimento retratado. | O fim de um namoro, um amor não correspondido, ou a partida da pessoa amada, que deixa um vazio e uma dor imensa no coração. No poema, “O adeus, o teu adeus, minha saudade” é a perda. |
| Frustrar a Possibilidade de Reação | Efeito Psicológico/Comportamental | Significa que uma pessoa está tão sobrecarregada por uma emoção (como a melancolia) que se sente incapaz de agir, de mudar sua situação, de buscar uma solução ou de lutar contra o sentimento. A tristeza a domina completamente. | Estar tão triste e desanimado que não consegue levantar da cama, trabalhar, ou sequer conversar com alguém para desabafar, sentindo-se impotente diante da dor. |
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
- Contextualização Simplificada: O poema de Álvares de Azevedo é bem “dark”, né? Ele fala de morte, agonia, desgosto, insônia, corpo exausto. Lá pelo terceiro verso, a gente descobre a causa de tanto sofrimento: “O adeus, o teu adeus, minha saudade”. Ou seja, o eu lírico está sofrendo demais por causa de um amor que se foi. A questão nos diz que isso é típico do romantismo da “segunda geração” (aquele mais sofredor) e quer saber: qual é a base principal desse sentimento todo, desse jeito de expressar a dor? Não é só a tristeza, mas o que há por trás dela ou o que ela provoca.
- Estratégia Geral: Nosso plano é identificar a principal emoção que o poema transmite (além da tristeza superficial) e a forma como o eu lírico lida com ela. O poema detalha um estado de espírito e suas consequências. Vamos procurar a alternativa que melhor descreve essa condição emocional e seu impacto na “possibilidade de reação” do eu lírico.
🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
- Passo a Passo Detalhado
- Identificar o estado emocional geral: Os dois primeiros quartetos (“Já da morte o palor me cobre o rosto, / Nos lábios meus o alento desfalece, / Surda agonia o coração fenece, / E devora meu ser mortal desgosto!” e “Do leito embalde no macio encosto / Tento o sono reter!… já esmorece / O corpo exausto que o repouso esquece… / Eis o estado em que a mágoa me tem posto!”) descrevem um eu lírico consumido por um sofrimento profundo e uma angústia que o leva à inércia física e mental. Ele tenta “reter o sono” “embalde” (em vão), seu “corpo exausto” não encontra “repouso”. Há uma clara sensação de prostração e incapacidade.
- Identificar a causa desse estado: O terceiro terceto (“O adeus, o teu adeus, minha saudade, / Fazem que insano do viver me prive / E tenha os olhos meus na escuridade.”) revela que a causa de toda essa dor e desse desejo de se privar da vida é o “adeus” da pessoa amada e a “saudade”. É uma perda amorosa.
- Analisar a natureza do sofrimento (o lirismo): O eu lírico não apenas sente angústia, mas está tão submerso nela (“mortal desgosto”, “mágoa”) que sua vida se torna um tormento. Ele não consegue dormir, seu corpo está exausto, e a dor o leva a querer “privar do viver”. Essa condição de total entrega à dor, sem aparente capacidade de encontrar escape ou força para se reerguer, é a melancolia. Essa melancolia é tão profunda que frustra qualquer possibilidade de reação ativa diante da perda. Ele não busca superar a dor; ele se entrega a ela, ao ponto de desejar a morte.
- Interpretar a “frustração da possibilidade de reação”: Os versos indicam uma passividade diante da dor. Ele tenta reter o sono, mas é em vão. O corpo esmorece. Ele não está lutando ativamente contra a mágoa, mas sendo consumido por ela. Isso demonstra uma frustração em sua capacidade de reagir ou de mudar seu estado de sofrimento. A única “reação” que ele parece buscar é a fuga da vida (morte) ou um milagre (volta da amada no último terceto).
- Verificação Intermediária: O poema retrata um eu lírico que está sendo dominado por uma tristeza profunda (melancolia) e que essa emoção o incapacita, impedindo-o de agir ou reagir de forma construtiva à perda amorosa. Ele está imerso na dor.
- Possível armadilha: Você poderia se focar apenas no “desejo de morrer” (como na alternativa D) e interpretar isso como o fundamento do lirismo. No entanto, o desejo de morrer é uma consequência dessa melancolia profunda e dessa incapacidade de reação. A melancolia que paralisa e frustra a reação é o estado de espírito fundamental que leva a esse desejo extremo. O romantismo da Segunda Geração é marcado por essa passividade diante da dor, por um prazer quase mórbido em se deixar consumir pelo sofrimento, e não por uma busca ativa de alívio que não seja a morte em si. O alívio é a fuga, mas o fundamento é a melancolia incapacitante.
- Fechamento e expectativa: O soneto revela um eu lírico completamente dominado por uma melancolia avassaladora, que o impede de encontrar qualquer tipo de reação construtiva à sua perda amorosa, levando-o a um estado de prostração e desejo de morte. Nossa expectativa é que a alternativa que descreve essa melancolia paralisante seja a correta.
✅ Passo 5: Análise das Alternativas
- (🔴) Alternativa A: Incorreta. Embora a morte seja um tema central, a angústia não é alimentada pela constatação da irreversibilidade da morte em si, mas sim pela dor da desilusão amorosa que faz o eu lírico desejar a morte como fuga ou fim do sofrimento. A morte é uma consequência do sofrimento amoroso, não a sua causa principal.
- (🟢) Alternativa B: Correta. O poema está saturado de melancolia (“mortal desgosto”, “mágoa”, “agonia”). Essa melancolia é tão profunda que o eu lírico tenta “embalde no macio encosto / Tento o sono reter!” e seu “corpo exausto que o repouso esquece” não encontra alívio. Ele se sente “insano do viver me prive”, mostrando uma total incapacidade de reação ou superação diante da “perda” (o adeus e a saudade). A dor o paralisa, frustrando qualquer possibilidade de um comportamento ativo para mudar seu estado.
- (🔴) Alternativa C: Incorreta. Embora haja descontrole das emoções (a intensidade da dor), o fundamento do lirismo não é a “autopiedade” como principal motor. A dor é genuína e causada por uma perda real (“o teu adeus”). A autopiedade pode ser uma consequência, mas não a causa central ou o “fundamento” da experiência lírica.
- (🔴) Alternativa D: Incorreta. O desejo de morrer é, de fato, um alívio para a desilusão amorosa, e isso está presente no poema (“insano do viver me prive”). No entanto, a pergunta busca o fundamento do lirismo. O desejo de morrer é a culminância ou a consequência extrema de um estado anterior, que é a melancolia que incapacita o eu lírico de reagir à perda. A alternativa B descreve o estado emocional subjacente que leva a esse desejo.
- (🔴) Alternativa E: Incorreta. O “gosto pela escuridão” não é uma “solução para o sofrimento”. A “escuridade” mencionada (“tenha os olhos meus na escuridade”) é uma metáfora para a cegueira ou a morte, uma consequência da vontade de se privar do viver, não um “gosto” ativo ou uma solução consciente.
🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
- Resumo do Raciocínio: O soneto de Álvares de Azevedo explora a profunda dor da desilusão amorosa, mas o cerne de seu lirismo reside na melancolia avassaladora que essa perda provoca. Essa melancolia é tão intensa que o eu lírico se vê completamente paralisado, incapaz de qualquer reação construtiva, sendo consumido pela dor ao ponto de desejar a morte.
- Gabarito Reafirmado: A alternativa correta é a B) a melancolia que frustra a possibilidade de reação diante da perda.
- Resumo Final para Revisão 🔍: No Romantismo (especialmente o Ultrarromantismo), o sofrimento amoroso não é apenas triste, mas muitas vezes leva a uma melancolia paralisante – o eu lírico se entrega à dor, sentindo-se incapaz de reagir, e essa incapacidade é a chave para entender a profundidade do seu lirismo!