Nascido em 1935, José Francisco Borges ou J. Borges, como prefere ser chamado, é um dos mais expressivos artistas populares do Brasil. Considerado por Ariano Suassuna o maior gravador popular do país, o artista foi um dos ilustradores do calendário da ONU do ano de 2002. Autodidata, J. Borges publicou seu primeiro cordel em 1964, intitulado O Encontro de Dois Vaqueiros no Sertão de Petrolina, seguido de O Verdadeiro Aviso de Frei Damião Sobre os Castigos que Vêm, cuja publicação deu início à sua carreira de gravador. Na década de 1970, artistas plásticos, intelectuais e marchands passaram a encomendar suas xilogravuras, o que levou as imagens a ganharem cada vez mais autonomia em relação ao cordel. Desde então, o itinerário do artista vem se fortalecendo pela transmissão dos conhecimentos da xilogravura às novas gerações de sua família, com quem mantém a Casa de Cultura Serra Negra, no sertão pernambucano.
Disponível em: http://msn.onne.com.br. Acesso em: 21 maio 2010.
A xilogravura é um meio de expressão de grande força artística e literária no Brasil, especialmente no Nordeste brasileiro, onde os artistas populares talham a madeira, transformando-a em verdadeiras obras de arte.
Com total liberdade artística, hoje já conquistaram espaço entre os diversos setores culturais do país, retratando cenas

A) do seu próprio universo, revelando personagens com aparência humilde em vestes requintadas.
B) com temas de personagens do folclore popular, crenças e futilidades dos mais necessitados.
C) de conteúdo histórico e político do Nordeste brasileiro, com a intenção de valorizar as diferenças sociais.
D) das grandes cidades, com a preocupação de uma representação realista da figura humana nordestina.
E) com personagens fantasiosos, beatos e cangaceiros presentes nas crenças da população nordestina.

✍ Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão: História da Arte Brasileira, Cultura Popular, Gêneros Artísticos (Xilogravura), Interpretação de Texto (verbal e não-verbal).
- Tema/Objetivo Geral: Identificar os temas e as fontes de inspiração da xilogravura popular nordestina, com base na análise da obra de J. Borges.
- Nível da Questão: Fácil a Médio – A questão é fácil se o aluno reconhecer Iemanjá na imagem e conectá-la ao universo do folclore e das crenças. Torna-se de nível médio se o aluno não tiver esse conhecimento prévio, exigindo uma análise mais cuidadosa da estética “fantástica” da imagem em contraste com as alternativas.
- Gabarito: E) com personagens fantasiosos, beatos e cangaceiros presentes nas crenças da população nordestina. A obra de J. Borges, e a xilogravura popular nordestina em geral, tem como principal fonte o imaginário do povo, retratando suas lendas, figuras religiosas e arquétipos sociais.
Resolução Passo a Passo
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
- Transcrição Essencial: “…hoje já conquistaram espaço entre os diversos setores culturais do país, retratando cenas…”
- O que está sendo pedido? A questão pede para completarmos a frase, identificando qual é o tipo de cena ou tema que os artistas da xilogravura popular retratam em suas obras.
- Objetivo Cristalino: Nosso objetivo é olhar para a imagem de J. Borges, entender o que ela representa e conectar essa representação ao universo temático da cultura popular nordestina, encontrando a alternativa que melhor descreve esse universo.
- Pergunta de Atenção: Você percebeu que a imagem não retrata uma cena do dia a dia comum, mas sim uma figura mítica, que pertence ao mundo da imaginação e da fé?
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
| Termo/Conceito | Classificação | Explicação Simples | Exemplo do Cotidiano |
| Xilogravura | Técnica Artística | É a arte de “carimbar” usando uma matriz de madeira. O artista desenha na madeira, entalha o que não quer que apareça, passa tinta e pressiona o papel para transferir a imagem. | É como um grande carimbo artesanal. As ilustrações dos folhetos de cordel são o exemplo mais famoso de xilogravura no Brasil. |
| Imaginário Popular | Conceito Cultural | É o conjunto de todas as lendas, mitos, crenças, personagens e histórias que fazem parte da cultura de um povo e que são passados de geração em geração. | Personagens como o Saci-Pererê, a Cuca e o Boto cor-de-rosa fazem parte do imaginário popular brasileiro. |
| Beatos e Cangaceiros | Arquétipos Sociais/Históricos | São duas figuras icônicas do sertão nordestino. Os beatos eram líderes religiosos místicos. Os cangaceiros eram bandos armados que vagavam pelo sertão, vistos ora como heróis, ora como vilões. | Lampião é o cangaceiro mais famoso da história. Padre Cícero é uma figura que se aproxima do arquétipo do beato, um líder religioso com imensa devoção popular. |
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
- Contextualização Simplificada: O texto nos explica que a xilogravura é uma arte popular importante no Nordeste. A questão nos mostra um exemplo dessa arte, uma gravura de Iemanjá, e nos pergunta: “Que tipo de coisa esses artistas costumam desenhar?”. Nossa tarefa é olhar para o exemplo (Iemanjá, uma figura mítica) e escolher a alternativa que descreve o “cardápio” de temas desses artistas.
- Estratégia Geral: Vamos usar a imagem como a principal pista. Vamos identificar o que ela representa e, a partir daí, inferir o universo temático do artista, que é representativo da xilogravura nordestina como um todo.
🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
- Passo a Passo Detalhado:
- Análise da Imagem: A gravura tem o título “Iemanjá” e mostra duas figuras com cauda de sereia, de mãos dadas, sob um sol com rosto humano. Iemanjá é uma divindade das religiões afro-brasileiras, uma figura central nas crenças da população. Sua representação como sereia a coloca no campo dos personagens fantasiosos ou míticos.
- Análise do Artista e do Movimento: J. Borges é o maior mestre da xilogravura popular do Brasil. Seus temas são consistentemente retirados do imaginário nordestino: o cotidiano do sertão, os animais, as festas, o cangaço, os milagres dos beatos e as lendas populares.
- Conexão com a Alternativa: A alternativa E menciona “personagens fantasiosos” (como Iemanjá na imagem), “beatos” e “cangaceiros” (outros temas clássicos de J. Borges e do cordel) e afirma que eles estão “presentes nas crenças da população nordestina”. Essa descrição abrange perfeitamente tanto o exemplo da imagem quanto o universo temático geral da xilogravura popular.
- Verificação Intermediária: A obra não busca ser um retrato fiel da realidade, mas sim uma representação simbólica e poética do universo cultural, religioso e social do povo nordestino.
- Possível armadilha: A armadilha seria tentar descrever a cena de forma literal, sem entender seu contexto cultural. Por exemplo, na alternativa B, a palavra “futilidades” é um julgamento de valor completamente inadequado para descrever crenças e folclore, que são elementos culturais profundos.
- Fechamento e expectativa: A análise nos mostra que a xilogravura popular é uma janela para a alma do povo nordestino. A alternativa correta deve refletir a riqueza desse universo, que mistura o real, o mítico, o religioso e o social.
✅ Passo 5: Análise das Alternativas
- A) 🔴 Incorreta. A aparência não é de “humilde em vestes requintadas”. A cena é fantástica, e as vestes são parte da estilização artística, não uma representação social.
- B) 🔴 Incorreta. Chamar o folclore e as crenças de “futilidades” é um erro de interpretação e um preconceito. São temas de grande importância cultural.
- C) 🔴 Incorreta. Embora o cangaço tenha um fundo histórico, o foco da xilogravura popular é geralmente o mito e a lenda, não uma análise política ou a valorização de diferenças sociais.
- D) 🔴 Incorreta. A inspiração da xilogravura popular vem do sertão e do imaginário rural, não das “grandes cidades”. O estilo é expressivo e simbólico, não uma “representação realista”.
- E) 🟢 Correta. Esta alternativa descreve com precisão o universo temático de J. Borges e da xilogravura popular: “personagens fantasiosos” (como Iemanjá), “beatos” e “cangaceiros”, todos parte das “crenças da população nordestina”.
🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
- Resumo do Raciocínio: A xilogravura de J. Borges, exemplificada pela obra “Iemanjá”, extrai sua força e seus temas do rico imaginário popular do Nordeste, retratando suas crenças, mitos e figuras arquetípicas de forma fantástica e expressiva.
- Gabarito Reafirmado: A alternativa correta é a E, pois é a única que abrange a diversidade de temas (fantasia, religião, história popular) que caracteriza a arte popular nordestina.
- Resumo Final para Revisão 🔍: Lembre-se, a arte popular, como a xilogravura de cordel, raramente busca o realismo fotográfico. Sua beleza está em traduzir o invisível: as lendas, a fé e os mitos de um povo.