O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a imagem
de um vidro mole que fazia uma volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta que o rio faz
por trás de sua casa se chama enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que fazia
uma volta atrás da casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.
BARROS, M. O livro das ignorãças. Rio de Janeiro: Record, 2001.
Manoel de Barros desenvolve uma poética singular, marcada por “narrativas alegóricas”, que transparecem nas imagens construídas ao longo do texto. No poema, essa característica aparece representada pelo uso do recurso de
A) resgate de uma imagem da infância, com a cobra de vidro.
B) apropriação do universo poético pelo olhar objetivo.
C) transfiguração do rio em um vidro mole e cobra de vidro.
D) rejeição da imagem de vidro e de cobra no imaginário poético.
E) recorte de elementos como a casa e o rio no subconsciente.

Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Interpretação de Texto Poético
- Literatura Brasileira Contemporânea (Poética de Manoel de Barros)
- Figuras de Linguagem (Metáfora, Personificação)
Tema/Objetivo Geral: Interpretação da poética de Manoel de Barros, focando no conflito entre a imagem poética (subjetiva) e o nome técnico (objetivo).
Nível da Questão: Médio – O poema utiliza uma linguagem simples, mas sua ideia central — a crítica à nomeação que “empobrece” a realidade — é abstrata e filosófica. Exige que o leitor não apenas entenda o que acontece, mas por que o eu lírico se sente daquela forma, diferenciando a técnica poética dos sentimentos que ela gera.
Gabarito: C) transfiguração do rio em um vidro mole e cobra de vidro.
A alternativa está correta pois a principal característica da poética de Barros no texto é a “transfiguração”, ou seja, a transformação de um elemento real (o rio) em imagens fantásticas e sensoriais (vidro mole, cobra de vidro), que representam uma percepção mais rica do mundo.
📖 Resolução Passo a Passo
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
Transcrição Essencial
“No poema, essa característica [poética singular] aparece representada pelo uso do recurso de”
O que está sendo pedido?
A questão pede para identificarmos qual recurso ou ação poética específica, presente no texto, é um exemplo da poética “singular” de Manoel de Barros
Objetivo Cristalino
Nosso objetivo é encontrar, nas alternativas, a descrição do processo criativo que o eu lírico utiliza para construir sua visão particular do rio e que se choca com a visão comum do “homem”.
Pergunta de Atenção
Você percebeu que o poema é uma espécie de “batalha” entre duas formas de ver o mesmo rio: uma cheia de imaginação e outra presa a um nome técnico?
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
Definições e Fórmulas / explicação de termos
| Conceito | Definição Simples | Aplicação na Questão |
| Transfiguração Poética | É o ato de transformar a realidade comum em algo novo e imaginativo por meio da linguagem. É dar uma nova “figura”, uma nova forma, a algo que já existe. | O rio, um elemento da natureza, é transfigurado pelo poeta, primeiro em “vidro mole”, depois em “cobra de vidro”. |
| Poética das “Ignorãças” | Conceito central em Manoel de Barros. Refere-se à valorização do conhecimento que vem dos sentidos, da intuição e da infância, em oposição ao saber racional, científico e “correto” dos adultos. | O eu lírico prefere sua “ignorância” criativa (ver o rio como cobra) à correção técnica do nome “enseada”, que ele considera empobrecedora. |
| Metáfora | É a figura de linguagem que cria uma comparação implícita, transferindo o sentido de uma palavra para outra. É a principal ferramenta da transfiguração. | A frase “O rio […] era a imagem de um vidro mole” é uma metáfora que compara a sinuosidade e o brilho do rio a um vidro derretido. |
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
Contextualização Simplificada
Vamos imaginar a cena: alguém com o olhar de uma criança (ou de um poeta) vê a curva de um rio e pensa: “Nossa, parece uma cobra feita de vidro!”. É uma imagem única, pessoal e cheia de vida. Aí, chega um adulto “sabe-tudo” e diz: “Não, o nome técnico disso é ‘enseada’”. De repente, a magia da “cobra de vidro” morre, substituída por uma palavra fria e comum. O poeta sente que essa nomeação “correta” roubou a riqueza de sua descoberta.
Estratégia Geral
Nossa estratégia será seguir o fluxo do poema: 1) identificar as imagens criativas que o poeta cria para o rio; 2) identificar o evento que destrói essas imagens; 3) entender a conclusão do poeta sobre esse processo.
🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
Passo a Passo Detalhado
- Primeira Transfiguração: O poema começa transformando o rio em “imagem de um vidro mole”. O poeta não diz que o rio é um vidro, mas que sua imagem é essa. Ele foca na percepção, não no objeto.
- A Interrupção: Um “homem” chega e dá um nome técnico ao fenômeno: “enseada”. Esse ato representa a imposição da lógica e do saber convencional sobre a imaginação.
- A Perda: O eu lírico constata que a visão anterior, a da “cobra de vidro” (outra transfiguração), foi destruída. “Não era mais a imagem de uma cobra de vidro”.
- A Conclusão Crítica: O poema termina com uma tese: “Acho que o nome empobreceu a imagem”. Aqui, o poeta deixa claro que a nomeação objetiva tirou a vida e a riqueza da sua percepção subjetiva.
Possível armadilha
A principal armadilha é a alternativa A (“resgate de uma imagem da infância”). Embora a percepção do eu lírico seja infantilizada (no bom sentido de ser criativa e não-racional), o texto não afirma que se trata de uma memória ou de um “resgate” do passado. O foco está no tipo de olhar e no ato de criar no presente, e não em uma lembrança.
Fechamento e expectativa
Nosso raciocínio nos leva a procurar uma alternativa que descreva o ato de transformar a realidade através da criação de novas imagens, que é o cerne do poema.
✅ Passo 5: Análise das Alternativas
Listagem das Alternativas
A) resgate de uma imagem da infância, com a cobra de vidro.
B) apropriação do universo poético pelo olhar objetivo.
C) transfiguração do rio em um vidro mole e cobra de vidro.
D) rejeição da imagem de vidro e de cobra no imaginário poético.
E) recorte de elementos como a casa e o rio no subconsciente.
Justificativa Individual
- A) 🔴 Errada. Conforme explicado na armadilha, a questão não é sobre memória, mas sobre um modo de percepção.
- B) 🔴 Errada. Ocorre o exato oposto: o poema mostra a rejeição do olhar objetivo (“enseada”) em favor do universo poético (“cobra de vidro”).
- C) 🟢 Correta. Descreve com precisão a principal ação poética do texto: o rio é “transfigurado”, ou seja, transformado em imagens fantásticas, que é a marca do estilo do poeta.
- D) 🔴 Errada. Ocorre o contrário: o poeta valoriza e abraça as imagens de vidro e de cobra; ele rejeita o nome técnico.
- E) 🔴 Errada. A linguagem é muito vaga e “psicanalítica”. O poema trata de uma experiência de percepção consciente, não de um “recorte no subconsciente”.
🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
Resumo do Raciocínio
A poética de Manoel de Barros, neste poema, se manifesta no ato de transfigurar o real: o rio deixa de ser um mero acidente geográfico para se tornar “vidro mole” e “cobra de vidro”. Esse processo criativo é interrompido e “empobrecido” pela nomeação técnica, revelando a crítica do poeta ao saber puramente racional.
Gabarito Reafirmado
A alternativa correta é a C, pois ela aponta exatamente para o recurso central utilizado pelo poeta para construir sua “poética singular”: a transfiguração da realidade em imagens poéticas.
Resumo Final para Revisão
Para entender Manoel de Barros, lembre-se: ele valoriza o ato de “ver” com a imaginação muito mais do que o ato de “saber” o nome técnico das coisas. Para ele, a poesia está na “ignorância” criativa.