Apuram o passo, por entre campinas ricas, onde pastam ou ruminam outros mil e mais bois. Mas os vaqueiros não esmorecem nos eias e cantigas, porque a boiada ainda tem passagens inquietantes: alarga-se e recomprime-se, sem motivo, e mesmo dentro da multidão movediça há giros estranhos, que não os deslocamentos normais do gado em marcha — quando sempre alguns disputam a colocação na vanguarda, outros procuram o centro, e muitos se deixam levar, empurrados, sobrenadando quase, com os mais fracos rolando para os lados e os mais pesados tardando para trás, no coice da procissão.
– Eh, boi lá!… Eh-ê-ê-eh, boi!… Tou! Tou! Tou…
As ancas balançam, e as vagas de dorsos, das vacas e touros, batendo com as caudas, mugindo no meio, na massa embolada, com atritos de couros, estralos e guampas, estrondos e baques, e o berro queixoso do gado junqueira, de chifres imensos, com muita tristeza, saudade dos campos, querência dos pastos de lá do sertão…
“Um boi preto, um boi pintado,
cada um tem sua cor.
Cada coração um jeito
de mostrar seu amor”.
Boi bem bravo, bate baixo, bota baba, boi berrando… Dança doido, dá de duro, dá de dentro, dá direito…
Vai, vem, volta, vem na vara, vai não volta, vai varando…
ROSA J. G. O burrinho pedrês. Sagarana. Rio de Janeiro: José Olympio, 1968.
Próximo do homem e do sertão mineiros, Guimarães Rosa criou um estilo que ressignifica esses elementos. O fragmento expressa a peculiaridade desse estilo narrativo, pois
A) demonstra a preocupação do narrador com a verossimilhança.
B) revela aspectos de confluência entre as vozes e os sons da natureza.
C) recorre à personificação dos animais como principal recurso estilístico.
D) produz um efeito de legitimidade atrelada à reprodução da linguagem regional.
E) expressa o fluir do rebanho e dos peões por meio de recursos sonoros e lexicais.

Resolução Em Texto
🎯 Tema / Objetivo da Questão: Estilo narrativo de Guimarães Rosa e seus recursos expressivos.
📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Interpretação de texto
- Estilística literária
- Figuras de linguagem (onomatopeias, aliterações, etc.)
- Características da prosa rosiana
- Regionalismo na literatura brasileira
🎯 Nível da Questão: Médio
✅ Gabarito: Alternativa E
📖 Resolução Passo a Passo
🔍 Passo 1: Análise do Comando e Objetivo
O enunciado pede que identifiquemos o traço do estilo narrativo de Guimarães Rosa apresentado no trecho.
🔎 Palavras-chave:
- “peculiaridade desse estilo narrativo”
- “fragmento expressa”
🧠 O objetivo é analisar como Rosa constrói o movimento da cena e o ambiente do sertão mineiro por meio da linguagem.
📖 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
Para resolver essa questão, é preciso conhecer:
- 📚 Estilo de Guimarães Rosa: ele inova no uso da linguagem, fundindo oralidade, regionalismo, neologismos e musicalidade.
- 🎼 Recursos expressivos sonoros: uso de onomatopeias (“Eh-ê-ê-eh, boi!”), aliterações (repetição de consoantes: “boi bravo, bate baixo, bota baba…”) e repetições verbais criam ritmo.
- 🚜 Fluidez narrativa: o movimento da boiada e dos vaqueiros é transposto para o ritmo e o som da escrita, misturando narração, canto e fala regional.
📖 Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
O texto retrata o deslocamento da boiada e dos vaqueiros pelos campos, descrevendo esse movimento como uma massa viva e ruidosa, que se agita, embate, mugindo, tropeando.
📌 Trechos-chave:
- “multidão movediça”, “giros estranhos”, “massa embolada”: mostram o movimento caótico do gado.
- “boi preto, boi pintado… cada coração um jeito”: poética popular que simboliza diversidade e emoção.
- “Eh-ê-ê-eh, boi!” e “Tou! Tou! Tou…”: onomatopeias que recriam o ambiente sonoro do sertão.
Tudo isso forma uma linguagem sensorial e dinâmica — quase música.
📖 Passo 4: Análise das Alternativas e Resolução
A) demonstra a preocupação do narrador com a verossimilhança.
🔴 Errada: O foco não é realismo ou precisão factual, mas sim criação estilizada. A narrativa é sensorial, lírica, e não documental.
Como estaria certa? Se dissesse que há uma estilização poética e simbólica da realidade, e não uma preocupação com a exatidão realista.
B) revela aspectos de confluência entre as vozes e os sons da natureza.
🔴 Errada: Embora haja sons da natureza e da boiada, a ênfase não é na harmonia entre vozes e natureza, mas no ritmo do rebanho.
Estaria mais próxima da verdade se focasse no ritmo narrativo e no uso sonoro da linguagem, e não na confluência entre vozes e natureza.
C) recorre à personificação dos animais como principal recurso estilístico.
🔴 Errada: Não há personificação clara (atribuição de características humanas a animais), mas sim descrição intensa e sonora do comportamento animal.
Estaria correta se apontasse o uso de recursos fonéticos e estilísticos para recriar a movimentação dos bois, sem humanizá-los.
D) produz um efeito de legitimidade atrelada à reprodução da linguagem regional.
🔴 Errada: O regionalismo está presente, mas não é o foco central do estilo nesse trecho. Ele está a serviço da musicalidade e da sensorialidade, e não da legitimação social ou cultural.
Estaria certa se dissesse que o regionalismo é usado como meio de expressividade literária, e não como fim em si.
E) expressa o fluir do rebanho e dos peões por meio de recursos sonoros e lexicais.
🟢 Correta: Esta alternativa reconhece os elementos essenciais: movimento (fluir) e expressão sonora e lexical. O texto é, acima de tudo, uma recriação sonora e rítmica da cena descrita.
🏆 Passo 5: Conclusão e Justificativa Final
A linguagem de Guimarães Rosa neste trecho transcende a simples descrição e ganha vida própria ao acompanhar, com ritmo e som, o movimento do rebanho.
A alternativa E é a única que reconhece tanto o conteúdo (o fluir do gado) quanto a forma expressiva (recursos sonoros e lexicais), que fazem do estilo rosiano uma marca única da prosa modernista brasileira.