Questão 102, caderno branco (13) do ENEM PPL 2016

Um menino aprende a ler

Minha mãe sentava-se a coser e retinha-me de livro na mão, ao lado dela, ao pé da máquina de costura. O livro tinha numa página a figura de um bicho carcunda ao lado da qual, em letras graúdas, destacava-se esta palavra: ESTÔMAGO. Depois de soletrar “es-to-ma-go”, pronunciei “estomágo”. Eu havia pronunciado bem as duas primeiras palavras que li, camelo e dromedário. Mas estômago, pronunciei estomágo. Minha mãe, bonita como só pode ser mãe jovem para filho pequeno, o rosto alvíssimo, os cabelos enrolados no pescoço, parou a costura e me fitou de fazer medo: “Gilberto!”. Estremeci. “Estomágo? Leia de novo, soletre”. Soletrei, repeti: “Estomágo”. Foi o diabo.

Jamais tinha ouvido, ao que me lembrasse então, a palavra estômago. A cozinheira, o estribeira, os criados, Bernarda, diziam “estambo”. “Estou com uma dor na boca do estambo…”, “Meu estambo está tinindo…”. Meus pais teriam pronunciado direito na minha presença, mas eu não me lembrava. E criança, como o povo, sempre que pode repele proparoxítono.

AMADO, G. História da minha infância. Rio de Janeiro: José Olympio, 1958.

No trecho, em que o narrador relembra um episódio de sua infância, revela-se a possibilidade de a língua se realizar de formas diferentes. Com base no texto, a passagem em que se constata uma marca de variedade linguística pouco prestigiada é: 

A) “O livro tinha numa página a figura de um bicho carcunda ao lado da qual, em letras graúdas, destacava-se esta palavra: ESTÔMAGO”. 

B) “’Gilberto!’. Estremeci. ‘Estomágo? Leia de novo, soletre’. Soletrei, repeti: ‘Estomágo’”. 

C) “Eu havia pronunciado bem as duas primeiras palavras que li, camelo e dromedário”. 

D) “Jamais tinha ouvido, ao que me lembrasse então, a palavra estômago”. 

E) “A cozinheira, o estribeira, os criados, Bernarda, diziam ‘estambo’”

Resolução em Texto

🎯 Tema / Objetivo da Questão: Variedades linguísticas — reconhecimento de uso não padrão da língua em contexto informal/popular.

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Variação linguística
  • Norma culta x linguagem popular
  • Preconceito linguístico
  • Interpretação de texto narrativo e autobiográfico

🎯 Nível da Questão: Médio

✅ Gabarito: E) “A cozinheira, o estribeira, os criados, Bernarda, diziam ‘estambo’”


📖 Resolução Passo a Passo

🔍 Passo 1: Análise do Comando e Objetivo

O comando pede a identificação de uma marca de variedade linguística pouco prestigiada, a partir de um episódio de infância do narrador.
🔑 Palavras-chave do comando:

  • marca de variedade linguística → formas diferentes de uso da língua
  • pouco prestigiada → refere-se ao uso popular, informal, fora da norma padrão

🎯 O objetivo é identificar, no texto, um uso linguístico que fuja à norma culta, geralmente associado ao falar popular ou regional, sem prestígio social.


📖 Passo 2: Explicação de Conceitos e conteúdos Necessários

📌 Variação linguística: é a forma como a língua muda de acordo com fatores sociais, regionais, culturais, históricos, etc.

📌 Variedade pouco prestigiada: são formas da língua associadas a grupos com menos prestígio social, como o falar de pessoas com pouca escolarização, moradores de áreas rurais, trabalhadores informais, etc.

📌 A norma-padrão é apenas uma das variedades da língua — a valorizada nos ambientes formais e escolares — mas não é “mais correta” que as demais.


📖 Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto

👶🏼 O narrador (Gilberto Freyre) conta como aprendeu a ler com sua mãe.
✏️ Há um contraste entre a forma correta “estômago” e a forma como ele pronunciava — “estomágo” — e, mais adiante, a forma falada pelos criados da casa: “estambo”.

🗣️ É nesse trecho que se explicita a variedade popular, usada por pessoas com pouco acesso à norma-padrão.

🧩 A narração mostra não apenas a diferença entre o que está no livro e o que se ouve no cotidiano, mas também como a criança é influenciada pelo falar do povo ao seu redor.


📖 Passo 4: Análise das Alternativas e Resolução

A) “O livro tinha numa página a figura de um bicho carcunda ao lado da qual, em letras graúdas, destacava-se esta palavra: ESTÔMAGO”.
🔴 Errada. Aqui temos o uso da norma-padrão — a palavra escrita corretamente, como ensinada nas escolas.
Ficaria certa se trouxesse alguma alteração na grafia ou pronúncia da palavra em contexto informal.

B) “‘Gilberto!’. Estremeci. ‘Estomágo? Leia de novo, soletre’. Soletrei, repeti: ‘Estomágo’”.
🔴 Errada. Embora apresente um erro de pronúncia por parte da criança, não é uma marca de variedade social, mas sim um equívoco individual e momentâneo de aprendizado.
Ficaria certa se a pronúncia “estomágo” fosse uma forma comum em um grupo social.

C) “Eu havia pronunciado bem as duas primeiras palavras que li, camelo e dromedário”.
🔴 Errada. Frase sem nenhuma marca de variação linguística; está totalmente na norma-padrão.
Ficaria certa se incluísse formas populares como “camêro” ou “dromedáro”, por exemplo.

D) “Jamais tinha ouvido, ao que me lembrasse então, a palavra estômago”.
🔴 Errada. Trata-se de uma observação pessoal e não de variação linguística. Ele simplesmente nunca havia escutado a palavra na forma padrão.
Ficaria certa se ele mencionasse que ouvia uma forma diferente dela (o que acontece na letra E).

E) “A cozinheira, o estribeira, os criados, Bernarda, diziam ‘estambo’”
🟢 Correta. Essa é a marca clara de uma variedade linguística pouco prestigiada, falada por pessoas de classes populares.
📌 A palavra “estambo” mostra um uso regional/popular, resultado da oralidade e de processos de simplificação fonética.


🏆 Passo 5: Conclusão e Justificativa Final

✅ A alternativa correta é a letra E, pois apresenta uma variedade linguística popular, distinta da norma-padrão e pouco valorizada socialmente.
👂 Essa forma (“estambo”) representa o modo de falar dos criados, e sua inclusão no texto destaca a diferença entre as formas cultas e populares da língua portuguesa.
✍️ A questão valoriza o reconhecimento da diversidade linguística no Brasil — essencial para uma visão sociolinguística crítica.

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