Questão 08, caderno verde do ENEM 2017 LIBRAS

A nova história do Brasil

Grande parte da história que os brasileiros conhecem hoje, aquela que ainda está na maioria dos livros didáticos, foi criada entre 1960 e 1980. Era um tempo mais tenso do que é hoje. A Guerra Fria dividia os países, os governantes e os intelectuais entre comunistas e capitalistas. Se no governo dominavam os capitalistas, nas universidadespredominavam as ideias e os métodos de Karl Marx, o pai do comunismo científico. Mas o tempo passou. Aos poucos, os pesquisadores ficaram um pouco mais longe das ideologias e passaram a tirar conclusões sem tanto medo de aderir a um ou outro lado da política.
A visão clássica do Brasil colonial nasceu com o intelectual paulista Caio Prado Júnior em 1933. No livro Evolução política do Brasil, ele afirma que a sociedade brasileira era simples e desigual. Tudo girava em torno do latifúndio, que deixava só a miséria por aqui. Até que, na década de 1990, historiadores descobriram dados que não batiam com a teoria. Registros dos portos do Rio de Janeiro e de Salvador mostravam que, em épocas de crise na Europa, quando os preços do açúcar e algodão desabavam pelo mundo, no Brasil eles mudavam pouco. Esses dados sugerem que havia um bom mercado consumidor no Brasil.

NARLOCH, L. Superinteressante, n. 6, 2014 (adaptado).

O autor do texto A nova história do Brasil apresenta uma posição crítica sobre as narrativas históricas. Essa posição se fundamenta no argumento de que:

A) os livros didáticos devem ser reformulados regularmente.

B) os novos dados podem reconstruir as narrativas da história brasileira.

C) o distanciamento ideológico deve estar presente noslivros de história.

D) a narrativa da história brasileira está organizada entre antes e depois de 1933.

E) a história brasileira está dividida entre os grupos que a narram, comunistas e capitalistas.

Resolução em Texto

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto
  • Historiografia (Teoria da História)
  • História do Brasil (Debates sobre o Período Colonial)

🎯 Tema/Objetivo Geral: Compreender a historiografia como uma ciência em constante construção, onde novas fontes e dados podem alterar narrativas consagradas.

📊 Nível da Questão: Médio.
Por quê? A questão não pede apenas para localizar uma informação, mas para entender a estrutura argumentativa do texto. O aluno precisa diferenciar a crítica do autor (a história antiga era ideológica) do fundamento dessa crítica (o fato de que novas evidências podem mudar a história), que é uma distinção sutil e o foco da pergunta.

✅ Gabarito: Alternativa B.
Resumo: O texto fundamenta sua crítica às narrativas históricas antigas ao apresentar um exemplo concreto: a descoberta de novos dados (registros portuários) que desafiam uma teoria estabelecida (a de Caio Prado Jr.), provando que a história pode e deve ser reconstruída com base em novas evidências.


Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

Transcrição Essencial 📌
“Essa posição se fundamenta no argumento de que”

O que está sendo pedido?
A questão quer saber qual é a base, o alicerce do argumento do autor. Em que ideia principal ele se apoia para sustentar sua posição crítica sobre a forma como a história do Brasil foi contada?

Objetivo Cristalino 💎
Nosso objetivo é identificar a justificativa central que o autor utiliza para defender a ideia de que as narrativas históricas não são verdades absolutas e podem ser revisadas.

🧠 Você já pensou que a História não é um conjunto de fatos que nunca mudam, como uma foto antiga, mas sim algo vivo, que pode ser reinterpretado à medida que novos “documentos secretos” são descobertos? Entender essa ideia de “descoberta” é a chave para a questão.


Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessários

Definição de Termos 🔖

  • Historiografia: Não é a história em si, mas o estudo de como a história é escrita. É como o “making of” dos livros de história, analisando os métodos, as fontes e as ideologias dos historiadores em cada época.
  • Narrativa Histórica: É a forma como o historiador organiza os fatos para contar uma história coerente sobre o passado. Essa “história” nunca é totalmente neutra; ela é influenciada pelas perguntas que o historiador faz e pelas fontes que ele escolhe.
  • Fontes Históricas (ou “Dados”): São as “pistas” que os historiadores usam para investigar o passado. Podem ser documentos escritos (cartas, registros de portos), objetos, imagens, etc. A descoberta de novas fontes pode mudar completamente o rumo de uma investigação histórica.

Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

Contextualização Simplificada 💬
O autor está dizendo que a história é como uma investigação de detetive. Por muito tempo, a principal teoria sobre o Brasil Colonial, criada por Caio Prado Jr., era a de que o país era só uma grande fazenda de exportação, sem vida econômica própria. Essa era a “versão oficial” do crime. Mas, segundo o autor, historiadores mais recentes foram “fuçar os arquivos” e encontraram uma pista nova e importantíssima: os registros dos portos. Essas novas evidências (“dados”) mostraram que, na verdade, havia muito comércio acontecendo dentro do Brasil. Isso bagunçou a teoria antiga. A pergunta é: qual é o princípio que permite essa “reviravolta” no caso? É o princípio de que novas pistas (dados) podem reescrever a história.

Estratégia Geral 🗺️
Vamos dividir o texto em duas partes: a crítica do autor à historiografia antiga e o exemplo que ele usa para provar seu ponto. A resposta estará na conclusão que tiramos do exemplo.


Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

Passo a Passo Detalhado 👣

  1. A Crítica: O autor começa afirmando que a história que conhecemos foi escrita em um período de forte polarização ideológica (Guerra Fria), o que a tornou enviesada.
  2. O Exemplo Concreto: Para provar que essa história pode ser revista, ele apresenta o caso da teoria de Caio Prado Jr. sobre o Brasil Colonial.
  3. O “Plot Twist” (O Ponto de Virada): Ele introduz o elemento que muda tudo: “Até que, na década de 1990, historiadores descobriram dados que não batiam com a teoria.” Esta é a frase-chave do argumento.
  4. A Prova (A “Arma do Crime”): Qual foi a prova? “Registros dos portos do Rio de Janeiro e de Salvador.”
  5. A Nova Hipótese: Esses novos dados sugerem uma nova interpretação: “havia um bom mercado consumidor no Brasil”.
  6. Conclusão do Argumento: O autor usa esse exemplo para fundamentar sua posição. A crítica dele só se sustenta porque ele mostra que é possível, através de novos dados, reconstruir ou, no mínimo, questionar profundamente as narrativas históricas consagradas.

A Armadilha Comum 🚨
A principal armadilha é confundir a crítica do autor com o fundamento da sua crítica. As alternativas C e E descrevem o que o autor critica na historiografia antiga (a influência da ideologia, a divisão entre comunistas e capitalistas). No entanto, a pergunta é sobre o fundamento, o argumento que ele usa para mostrar que a história pode ser diferente. E esse argumento é a força das novas evidências.

Fechamento e Expectativa
A análise nos leva a procurar a alternativa que destaca o papel das novas evidências (dados) na reescrita da história.


Passo 5: Análise das Alternativas

🔴 A) os livros didáticos devem ser reformulados regularmente.
Incorreta. Isso pode ser uma consequência do argumento do autor, mas não é o argumento em si. A reformulação dos livros seria o resultado da reconstrução da história, não a sua causa.

🟢 B) os novos dados podem reconstruir as narrativas da história brasileira.
Correta. Esta alternativa captura perfeitamente o alicerce do argumento do autor. Ele usa o exemplo dos registros portuários (“novos dados”) para mostrar como as visões antigas (“narrativas”) podem ser desafiadas e “reconstruídas”.

🔴 C) o distanciamento ideológico deve estar presente nos livros de história.
Incorreta. O autor defende isso, mas este é o objetivo ou a crítica que ele faz. O fundamento que ele usa para provar que uma história menos ideológica é possível é o uso de novos dados.

🔴 D) a narrativa da história brasileira está organizada entre antes e depois de 1933.
Incorreta. O ano de 1933 é apenas um marco temporal usado no exemplo específico de Caio Prado Jr., não é a base do argumento geral do autor sobre como a historiografia funciona.

🔴 E) a história brasileira está dividida entre os grupos que a narram, comunistas e capitalistas.
Incorreta. Assim como a C, esta é uma descrição do problema que o autor aponta na historiografia antiga, não o argumento que ele usa para mostrar como superar esse problema.


Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

Resumo do Raciocínio 📝
O autor do texto defende que a escrita da história é um processo dinâmico. Ele fundamenta sua crítica às narrativas mais antigas e ideologizadas ao demonstrar, por meio de um exemplo prático, que a descoberta de novas fontes e dados — como os registros portuários do Brasil Colonial — tem o poder de questionar e até mesmo reconstruir teorias históricas tidas como certas.

Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a B.

Resumo Final para Revisão 🔍
Lembre-se: a História, como ciência, avança com novas evidências. O argumento mais forte para questionar uma teoria antiga é apresentar um novo dado que ela não consegue explicar.

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