O povo indígena Wajãpi utiliza o Kusiwa — reconhecido como bem imaterial da humanidade em 2003 — como repertório codificado de padrões gráficos que decora e colore o corpo e os objetos. Para além de enfeitar, Kusiwa aparece como “arte”, “marca”, “pintura” e “desenho”. Esses grafismos ultrapassam a noção estética e alcançam a cosmologia e as crenças religiosas.
ALMEIDA, C. S.; CARDOSO, P. B. Arte coussiouar, perspectivas históricas de alteridade e reconhecimento. Espaço Ameríndio, n. 1, jan.-jul. 2021.
O povo Wajãpi, que vive na Serra do Tumucumaque, entre Amapá, Pará e Guiana Francesa, vivencia práticas culturais que
A) perdem significado quando desprovidas de elementos gráficos.
B) revelam uma concepção de arte para além de funções estéticas.
C) funcionam como elementos de representação figurativa de seu mundo.
D) padronizam uma mesma identidade gráfica entre diferentes povos indígenas.
E) primam pela utilização dos grafismos como contraposição ao mundo imaginário.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Sociologia/Antropologia (Cultura Imaterial e Identidade Indígena)
- Artes (Função da Arte e Estética)
- Interpretação de Texto
Tema/Objetivo Geral: Compreender o significado cultural do grafismo indígena (Kusiwa), reconhecendo que ele transcende a função decorativa para expressar a cosmologia e as crenças de um povo.
Nível da Questão: Médio.
- Exige que o aluno abandone a visão ocidental de arte como mero “enfeite” ou “representação fiel da realidade” e adote a visão antropológica de que a arte é um veículo de valores espirituais e sociais.
Gabarito: B
- A alternativa está correta. O texto afirma explicitamente que os grafismos “ultrapassam a noção estética e alcançam a cosmologia e as crenças religiosas”. Ou seja, a arte serve para muito mais do que apenas deixar o corpo bonito; ela conecta o indivíduo ao sagrado.
PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “O texto diz que os índios Wajãpi pintam o corpo com desenhos chamados Kusiwa. Para que servem esses desenhos? É só para ficar bonito ou tem um significado mais profundo por trás da tinta?”
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine uma Aliança de Casamento.
- Esteticamente: É só um aro de metal dourado no dedo (enfeite).
- Simbolicamente: Representa um compromisso de vida, amor, fidelidade e um status social.
Para os Wajãpi, o Kusiwa é como a aliança: é bonito, sim, mas a função real é conectar a pessoa com suas crenças, deuses e visão de universo. Não é maquiagem, é identidade.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Identificar a Tese do Texto: Onde o autor diz o que o Kusiwa é e o que ele faz?
- Capturar a “Transcendência”: Focar na frase “ultrapassam a noção estética”.
- Conectar com a Alternativa: Buscar a opção que diz “é mais do que beleza”.
PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para entender a arte indígena, precisamos da Lente da Cultura Imaterial.
TABELA: A ARTE OCIDENTAL vs. A ARTE WAJÃPI
| Visão Comum (Superficial) | Visão Wajãpi (Profunda – Kusiwa) |
| Função: Decorativa / Estética. | Função: Cosmológica / Religiosa. |
| Objetivo: Enfeitar o corpo/objeto. | Objetivo: Comunicar com o universo/sagrado. |
| Conceito: “Pintura bonita”. | Conceito: “Bem Imaterial da Humanidade”. |
Conclusão da Ferramenta: Se a questão pergunta sobre as práticas culturais, a resposta tem que estar na coluna da direita (Profunda).
PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos rastrear as pistas no texto fornecido.
- A Pista Inicial:“Para além de enfeitar…”
- O texto já começa avisando: não pare na aparência.
- A Definição Chave:“Esses grafismos ultrapassam a noção estética…”
- Tradução: Não é só sobre beleza (estética).
- O Destino Final:“…e alcançam a cosmologia e as crenças religiosas.”
- Tradução: É sobre como eles entendem o universo (cosmologia) e o sagrado (religião).
Síntese do Detetive: A prática cultural do Kusiwa usa a arte como uma ponte para o sagrado. Ela não ignora a estética (é um padrão gráfico, afinal), mas sua função principal vai muito além disso.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha é a alternativa C (representação figurativa).
Muitos alunos pensam: “Ah, arte indígena desenha animais, então é figurativo”.
- Erro 1: O texto fala em “padrões gráficos” e “repertório codificado”, o que geralmente aponta para arte abstrata ou geométrica, não necessariamente figurativa (desenhar o animal tal qual ele é).
- Erro 2: Mesmo que fosse figurativo, essa não é a função principal destacada no texto. O texto foca no significado (crença/cosmologia), não na forma (figurativa/abstrata).
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O texto nega que a função seja apenas estética e afirma que ela é cosmológica.
- Expectativa: Uma alternativa que diga “a arte serve para coisas que não são apenas a beleza visual”.
PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
A) perdem significado quando desprovidas de elementos gráficos.
- O “Diagnóstico do Erro”: Inversão de Lógica. O texto diz que os gráficos carregam o significado, mas não diz que a cultura inteira “perde o significado” sem eles. A cultura existe na oralidade, nos rituais, etc. O gráfico é uma expressão, não a única fonte de sentido.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
B) revelam uma concepção de arte para além de funções estéticas.
- Análise de Correspondência: Perfeita. “Para além de funções estéticas” é a tradução literal de “ultrapassam a noção estética” e “alcançam a cosmologia”.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
C) funcionam como elementos de representação figurativa de seu mundo.
- O “Diagnóstico do Erro”: Imprecisão Técnica. “Figurativo” significa desenhar as coisas como elas são (uma foto, um retrato). A arte Kusiwa é feita de padrões gráficos (geometria, códigos), o que tende ao simbólico/abstrato. Além disso, o foco do texto é o significado religioso, não o estilo de desenho.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
D) padronizam uma mesma identidade gráfica entre diferentes povos indígenas.
- O “Diagnóstico do Erro”: Generalização Indevida. O texto fala especificamente do povo Wajãpi. Cada povo indígena tem sua própria identidade gráfica (os Kayapó pintam de um jeito, os Yanomami de outro). Dizer que é tudo igual (“padronizam”) apaga a diversidade cultural indígena.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
E) primam pela utilização dos grafismos como contraposição ao mundo imaginário.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição. O texto diz que os grafismos alcançam a cosmologia e as crenças. Cosmologia e crenças são parte do mundo imaginário/simbólico de um povo. Os grafismos são a expressão desse mundo, não uma contraposição (oposição) a ele.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa B é a correta. A arte Wajãpi nos ensina que beleza e significado andam juntos: a pintura na pele é a alma se tornando visível.
Resumo-flash (A Imagem Mental): O corpo pintado não é uma tela decorada, é um livro sagrado aberto.
Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Este conceito se conecta com a Semiótica (o estudo dos signos). Na cultura ocidental moderna, tendemos a separar “Arte” (museu) de “Religião” (igreja) e “Vida Cotidiana” (trabalho). Nas culturas indígenas, essas coisas são inseparáveis. O pote de cerâmica usado para beber água (cotidiano) tem um desenho (arte) que protege contra espíritos ruins (religião). Entender essa holística (o todo conectado) é essencial para a Antropologia.