Questão 3 do Enem 2018 (inglês): poema de Kamala Das – resolução comentada (caderno azul)

A questão 3 de inglês do Enem 2018 (caderno azul, Dia 1) é de Linguagens (Inglês) e cobra a relação entre língua e identidade em um poema de Kamala Das. O gabarito é a alternativa D. Abaixo você confere o enunciado, a resolução passo a passo e por que cada alternativa errada engana tantos candidatos.

Enunciado da questão 3 de inglês do Enem 2018

Don’t write in English, they said,
English is not your mother tongue…
…The language I speak
Becomes mine, its distortions, its queerness
All mine, mine alone, it is half English, half
Indian, funny perhaps, but it is honest,
It is as human as I am human…
…It voices my joys, my longings my
Hopes…
(Kamala Das, 1965:10)

GARGESH, R. South Asian Englishes. In: KACHRU, Y; NELSON, C. L. (Eds.). The Handbook of World English. Singapore: Blackwell, 2006

A poetisa Kamala Das, como muitos escritores indianos. escreve suas obras em inglês, apesar de essa não ser sua primeira língua. Nesses versos, ela
a) usa a língua inglesa com efeito humorístico.
b) recorre a vozes de vários escritores ingleses.
c) adverte sobre o uso distorcido da língua inglesa.
d) demonstra consciência de sua identidade linguística.
e) reconhece a incompreensão na sua maneira de falar inglês.

Resolução da questão 3 de inglês do Enem 2018

Resolução comentada da questão 3 de inglês

Matérias necessárias para resolver a questão

  • Interpretação de Texto em Língua Inglesa (Poesia).
  • Identidade Cultural e Linguística (World Englishes).
  • Análise de Discurso (Voz Poética e Eu-Lírico).

Tema e objetivo geral

Compreensão da relação entre linguagem e identidade pessoal/cultural em um contexto pós-colonial.

Nível da questão

Médio.
Por que este nível? Embora o vocabulário não seja extremamente complexo, a questão exige sensibilidade para perceber que a autora não está criticando o inglês, mas sim se apropriando dele. Exige ultrapassar o sentido literal de palavras como “funny” e “distortions”.

Gabarito da questão 3 de inglês: alternativa D

Letra D – Demonstra consciência de sua identidade linguística.
Resumo: A autora reivindica o inglês como “seu”, aceitando as misturas (“half English, half Indian”) como uma expressão honesta e legítima de quem ela é.


Resolução Passo a Passo

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Passo 1: o que a questão pede (o mapa da mina)

  • Decodificação do Objetivo: A questão quer que você identifique a atitude da poetisa em relação ao uso da língua inglesa. Ela se sente envergonhada? Orgulhosa? Confusa? A resposta está na forma como ela descreve “o inglês dela”.

  • Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que você pega uma receita clássica de bolo inglês, mas adiciona ingredientes brasileiros (como castanha-do-pará e banana). Alguém critica dizendo que “não é o original”. Você responde: “Pode não ser o original, mas é o MEU bolo, é honesto e tem o meu sabor.” O verdadeiro desafio aqui é perceber que ela transformou a “receita” (o inglês) em algo próprio.

  • Plano de Ataque:
    1. Traduzir os termos-chave que indicam posse e sentimento (mine, honest, human).
    2. Identificar a armadilha da palavra “funny” (engraçado/estranho).
    3. Conectar a descrição da língua à descrição do próprio “eu” da poeta.

Passo 2: poema de Kamala Das

Para resolver este mistério, precisamos entender o conceito de Apropriação Linguística. Vamos usar uma tabela para contrastar o que “dizem a ela” versus “o que ela sente”.

CONCEITOVISÃO TRADICIONAL (O CRÍTICO)VISÃO DA POETISA (A IDENTIDADE)
Posse da LínguaO inglês pertence aos ingleses/americanos.“The language I speak Becomes mine“ (A língua torna-se minha).
Correção/PurezaO inglês deve ser puro, sem sotaques.Aceita “its distortions, its queerness” (suas distorções, suas estranhezas).
NaturezaÉ uma língua estrangeira, distante.“It is as human as I am human” (É tão humana quanto eu sou).
ResultadoUm inglês “errado” ou “quebrado”.Um inglês “honest” (honesto), “half English, half Indian” (híbrido).

Passo 3: resolução passo a passo (mão na massa)

Vamos analisar as pistas deixadas no texto como um detetive forense:

  • A Proibição: O poema começa com “Don’t write in English, they said” (Não escreva em inglês, eles disseram). Há uma pressão externa para que ela não use essa língua.

  • A Reação (Apropriação): Ela ignora a ordem. Ela diz: “The language I speak Becomes mine… mine alone” (A língua que eu falo torna-se minha… apenas minha). Aqui está a chave: ela toma posse da ferramenta.

  • A Identidade Híbrida: Ela admite: “it is half English, half Indian” (é meio inglês, meio indiano). Ela não tenta imitar um britânico; ela cria uma fusão que reflete sua realidade.

ARMADILHA CLÁSSICA!
CUIDADO! O erro mais comum aqui é focar na palavra “funny” (“funny perhaps”). Muitos alunos traduzem “funny” apenas como “engraçado de rir” e marcam a alternativa sobre humor. Em inglês, funny também significa estranho, peculiar ou curioso. Ela está dizendo que seu inglês pode parecer peculiar aos ouvidos puristas, não que ela está contando uma piada.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A autora reconhece que seu inglês tem “falhas” ou “misturas” (distorções), mas afirma que essas características são o que tornam a língua capaz de expressar seus sentimentos (“joys”, “longings”). A língua é o espelho dela.
  • Expectativa: A alternativa correta deve falar sobre consciência, identidade ou aceitação de sua forma única de falar.

Passo 4: alternativas comentadas (a autópsia)

Vamos examinar os suspeitos:

  • a) usa a língua inglesa com efeito humorístico.
    • Diagnóstico do Erro: Armadilha de Vocabulário (Falso Cognato Contextual).
    • Análise: O aluno lê a palavra “funny” no texto (“funny perhaps”) e o cérebro associa imediatamente a comédia ou piada. Porém, aqui funny significa “estranho”, “curioso” ou “peculiar”. O tom do poema é de desabafo e identidade, não de humor. É a casca de banana perfeita deixada pelo examinador.
    • Conclusão: 🟡 Alternativa incorreta


  • b) recorre a vozes de vários escritores ingleses.
    • Diagnóstico do Erro: Extrapolação.
    • Análise: Ela diz “All mine, mine alone” (Tudo meu, apenas meu). Ela está focando na sua voz individual, não citando ou imitando outros escritores.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.


  • c) adverte sobre o uso distorcido da língua inglesa.
    • Diagnóstico do Erro: Erro de Tom/Interpretação de Intenção.
    • Análise: Ela menciona “distortions”, mas não como uma advertência (aviso de perigo) ou crítica negativa. Ela menciona as distorções como uma característica honesta da sua fala. Ela abraça a distorção, não avisa contra ela.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.


  • d) demonstra consciência de sua identidade linguística.
    • Análise: Perfeito. Ao dizer que o inglês dela é “meio indiano”, que tem “distorções” mas é “honesto” e “humano como eu sou”, ela mostra plena consciência de quem ela é e de como sua linguagem reflete essa identidade mista. Ela sabe que não é um inglês padrão, e ela se orgulha disso.
    • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.


  • e) reconhece a incompreensão na sua maneira de falar inglês.
    • Diagnóstico do Erro: Inferência Negativa.
    • Análise: O texto diz que a língua expressa suas alegrias (“voices my joys”) e esperanças. Se a língua comunica as esperanças dela, ela está sendo compreendida (ou pelo menos, a função comunicativa existe para ela). Ela não reclama de não ser entendida; ela afirma a validade da sua fala.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.

Passo 5: resumo e aprendizagem expandida

Frase de Fechamento:
A resposta é D. Kamala Das nos ensina que a língua não é uma estrutura rígida, mas um organismo vivo que assume a forma (identidade) de quem a utiliza.

Resumo-flash (A Imagem Mental):
⚓ A Língua é como Água: Ela toma a forma do recipiente (o falante). O inglês de Kamala tem a forma da cultura indiana.


🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Conexão com a Música (Jazz):
Pense neste poema como um músico de Jazz. A partitura original (o inglês padrão) existe, mas o músico insere improvisos, notas “azuis” e ritmos pessoais (as “distortions” e “queerness”). Isso não estraga a música; pelo contrário, cria uma nova identidade sonora. Na linguística, chamamos isso de Variação Linguística e apropriação cultural.


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