Completamente analfabeto, ou quase, sem assistência médica, não lendo jornais, nem revistas, nas quais se limita a ver as figuras, o trabalhador rural, a não ser em casos esporádicos, tem o patrão na conta de benfeitor. No plano político, ele luta com o “coronel” e pelo “coronel”. Aí estão os votos de cabresto, que resultam, em grande parte, da nossa organização econômica rural.
LEAL, V. N. Coronelismo, enxada e voto. São Paulo: Alfa-Ômega, 1978 (adaptado).
O coronelismo, fenômeno político da Primeira República (1889-1930), tinha como uma de suas principais características o controle do voto, o que limitava, portanto, o exercício da cidadania. Nesse período, esta prática estava vinculada a uma estrutura social
A) igualitária, com um nível satisfatório de distribuição da renda.
B) estagnada, com uma relativa harmonia entre as classes.
C) tradicional, com a manutenção da escravidão nos engenhos como forma produtiva típica.
D) ditatorial, perturbada por um constante clima de opressão mantido pelo exército e polícia.
E) agrária, marcada pela concentração da terra e do poder político local e regional.

Resolução em texto
📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- História do Brasil (Primeira República / República Velha)
- Sociologia (Poder Local, Clientelismo, Estrutura Social)
- Interpretação de Texto
🎯 Tema/Objetivo Geral: Relação entre a estrutura social e o poder político na Primeira República.
🎯 Nível da Questão: Fácil.
- Detalhe: A questão é considerada fácil por tratar de um conceito central e amplamente ensinado sobre a Primeira República. O texto de apoio é muito elucidativo, e as alternativas incorretas apresentam características que contradizem frontalmente a realidade histórica daquele período, facilitando a eliminação.
✅ Gabarito: E
- A alternativa está correta porque o coronelismo é um fenômeno intrinsecamente ligado à estrutura agrária da Primeira República, onde a concentração de terra nas mãos de poucos “coronéis” se traduzia diretamente em controle político sobre a população local dependente.
📖 Resolução Passo a Passo
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
1.1 Transcrição Essencial 📌
“Nesse período, esta prática [o controle do voto] estava vinculada a uma estrutura social”
1.2 O que está sendo pedido? 📌
A questão quer que a gente identifique qual tipo de organização social permitia que o “coronelismo” e, consequentemente, o controle do voto (“voto de cabresto”) existissem e fossem tão poderosos na Primeira República.
1.3 Objetivo Cristalino 📌
Nosso objetivo é conectar o fenômeno político (coronelismo) com a sua base social e econômica (a estrutura da sociedade da época).
1.4 Pergunta de Atenção ✔
Você já se perguntou por que as pessoas votavam em quem o “coronel” mandava? Era apenas por medo, ou havia algo mais nessa complexa relação de poder e dependência?
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
2.1 Definições e Fórmulas / explicação de termos 📌
Para entender a questão, precisamos dominar os conceitos-chave da Primeira República:
- Coronelismo: Um sistema de poder político local, dominado por grandes proprietários de terras (latifundiários), que eram chamados de “coronéis”. Esse título não era militar, mas sim um símbolo de seu poder e prestígio na região.
- Voto de Cabresto: Era o mecanismo de controle do voto. Como o voto na Primeira República não era secreto, o coronel podia facilmente coagir, intimidar ou trocar favores para garantir que os eleitores de sua área de influência votassem nos candidatos que ele apoiava. O termo “cabresto” é uma analogia à rédea usada para controlar um cavalo, simbolizando a falta de liberdade do eleitor.
- Clientelismo (Troca de Favores): A relação entre o coronel e a população não era apenas de violência. Havia uma complexa rede de “troca de favores”. Em uma época de ausência do Estado (sem serviços públicos de saúde, educação ou segurança), o coronel oferecia “proteção”, um pequeno emprego, remédios ou ajuda em momentos de dificuldade. Em troca, ele exigia lealdade e, principalmente, o voto.
- Estrutura Agrária: A base de tudo. O Brasil da Primeira República era um país predominantemente rural, com a maior parte da população vivendo no campo e uma altíssima concentração de terras nas mãos de poucas famílias. Essa dependência econômica da terra era a fonte do poder dos coronéis.
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
3.1 Contextualização Simplificada 📌
O texto de Victor Nunes Leal é como uma fotografia da época. Ele mostra um trabalhador rural pobre, analfabeto e vulnerável, que dependia do patrão (“coronel”) para quase tudo, vendo-o como um “benfeitor”. Por isso, na hora de votar, ele votava em quem o patrão mandava. A questão é: que tipo de “mundo” ou “sociedade” permitia que essa situação acontecesse?
3.2 Estratégia Geral 📌
Nossa estratégia será:
- Analisar as pistas que o texto de apoio nos dá sobre a vida do trabalhador rural e sua relação com o patrão.
- Conectar essas pistas com as características socioeconômicas da Primeira República.
- Avaliar as alternativas, eliminando aquelas que descrevem uma sociedade que não corresponde à daquela época.
🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio e Análise do Texto
4.1 Passo a Passo Detalhado 📌
Vamos extrair as pistas do texto:
- “Completamente analfabeto, ou quase, sem assistência médica…”: Isso indica uma população desassistida pelo Estado, vulnerável e dependente.
- “…tem o patrão na conta de benfeitor.”: Isso descreve perfeitamente a relação de clientelismo, onde a dependência gera uma percepção de gratidão e lealdade.
- “…luta com o ‘coronel’ e pelo ‘coronel’.”: Mostra que o poder político local era pessoal e centrado na figura do grande proprietário de terras.
- “…resultam, em grande parte, da nossa organização econômica rural.”: O próprio autor dá a resposta! Ele afirma que o voto de cabresto é uma consequência direta da estrutura econômica do campo.
Conclusão da análise: A base do coronelismo é uma sociedade agrária, marcada pela concentração de terra (que gera a dependência econômica) e, consequentemente, pela concentração do poder político nas mãos dos latifundiários.
4.2 Verificação Intermediária 📌
A análise do texto confirma o conhecimento histórico: o poder do coronel vinha de sua terra. Sem a posse da terra, a população ficava submetida ao seu controle.
4.3 Possível armadilha ❓/ ✔
A principal armadilha seria a alternativa C, que menciona uma estrutura “tradicional”. Um aluno poderia associar o coronelismo a algo antigo e tradicional. No entanto, a alternativa comete um erro histórico grave ao falar em “manutenção da escravidão”. A escravidão foi abolida em 1888, um ano antes do início da Primeira República (1889).
4.4 Fechamento e expectativa
Concluímos que a base do coronelismo é uma sociedade rural, desigual e com poder concentrado. Vamos procurar a alternativa que melhor descreve isso.
✅ Passo 5: Análise das Alternativas
5.1 Listagem das Alternativas
A) igualitária, com um nível satisfatório de distribuição da renda.
B) estagnada, com uma relativa harmonia entre as classes.
C) tradicional, com a manutenção da escravidão nos engenhos como forma produtiva típica.
D) ditatorial, perturbada por um constante clima de opressão mantido pelo exército e polícia.
E) agrária, marcada pela concentração da terra e do poder político local e regional.
5.2 Justificativa Individual
- A) (🔴) Incorreta. A sociedade era extremamente desigual, o exato oposto do descrito.
- B) (🔴) Incorreta. Não havia harmonia, mas sim uma relação de dominação e subordinação, mesmo que disfarçada de “troca de favores”.
- C) (🔴) Incorreta. O erro anacrônico é a menção à escravidão, que já havia sido abolida.
- D) (🔴) Incorreta. O poder do coronel era privado e local, exercido por seus “jagunços”, não uma opressão mantida pelo Estado através do exército e da polícia (o que caracterizaria uma ditadura em nível nacional).
- E) (🟢) Correta. Descreve perfeitamente a realidade da Primeira República: uma sociedade agrária, cuja principal característica era a concentração da terra, que por sua vez gerava a concentração do poder político nas mãos dos coronéis.
🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
6.1 Resumo do Raciocínio 📌
O coronelismo, um fenômeno político da Primeira República, só foi possível devido à estrutura social e econômica do Brasil na época. Era uma sociedade predominantemente agrária, onde a posse de grandes extensões de terra (latifúndio) garantia não apenas poder econômico, mas também controle político sobre uma população rural dependente e vulnerável.
6.2 Gabarito Reafirmado 📌
A resposta correta é a alternativa E.
6.3 Resumo Final para Revisão 🔍
Lembre-se da “trindade” da Primeira República: Coronelismo (política) + Latifúndio (economia) + Voto de Cabresto (mecanismo). Uma coisa não existe sem as outras.